Esta reportagem faz parte de uma série especial preparatória para a COP30. Ao longo das próximas semanas, o Portal do ESG vai aprofundar temas estruturais da Amazônia, ampliando o olhar para além da floresta e ouvindo vozes que moldam e defendem esse território.

Enquanto o mundo se volta para a Amazônia como peça-chave do equilíbrio climático, as populações que historicamente habitam a região seguem invisibilizadas, ameaçadas e, muitas vezes, silenciadas. Em meio aos preparativos para a COP30 — que acontecerá em 2025, no coração da floresta —, cresce a urgência de destacar a centralidade dos povos tradicionais na proteção do bioma e na construção de soluções sustentáveis.
Para entender melhor os desafios enfrentados por essas comunidades, o Portal do ESG conversou com a professora Dra. Vania Neu, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), que atua com comunidades tradicionais e suas lutas por reconhecimento, território e dignidade. A seguir, suas reflexões ajudam a traçar um panorama crítico sobre o que está em jogo na Amazônia atual.
Território ameaçado, identidades em risco
A presença de comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e extrativistas na Amazônia não é circunstancial — é ancestral. Mas mesmo com raízes profundas, essas populações enfrentam um cenário de conflito permanente.
“Sob constante ameaça por parte de grileiros, garimpeiros e pessoas ligadas ao agronegócio”, resume Vania ao descrever o contexto atual. A ofensiva sobre os territórios tradicionais não é apenas física, mas simbólica, pois busca romper os laços culturais e espirituais que sustentam esses modos de vida.
Mais que posse: o território como sagrado
Ao contrário da lógica fundiária predominante, o território para os povos tradicionais não se resume à propriedade, mas sim à memória, à ancestralidade e à vida coletiva.
“O território pode ter diferentes sentidos, que vão além de um título de posse ou poder, mas sim um local ancestral, onde diversas gerações se desenvolveram, onde existem histórias de luta e resistência. É local sagrado, onde os antepassados estão enterrados, local de rituais, protegido pelos espíritos”, explica a professora.
Ela reforça que o reconhecimento estatal dessas múltiplas dimensões é vital para a manutenção da identidade e da sobrevivência desses povos:
“O Território é o local de onde eles obtêm todo o recurso de que necessitam para seu modo de vida e manutenção de sua identidade cultural. Devido a essa particularidade é fundamental que o estado reconheça essas dimensões, para a manutenção dos diferentes povos”.
A invisibilidade como estratégia de apagamento
A ausência de políticas públicas adequadas e o avanço de grandes empreendimentos acabam se sustentando em uma lógica perversa: a negação da existência dessas populações.
“Como grande parte dos povos não tem titularidade da terra, são invisibilizados. Se faz de conta que eles não existem, ou nunca estiveram lá”, afirma Vania. Essa invisibilidade deliberada abre caminho para a exploração de territórios sem consulta ou consentimento, muitas vezes com impactos sociais e ambientais devastadores.
COP30: o risco da maquiagem verde
A realização da COP30 em Belém pode representar um momento histórico para o Brasil e para a Amazônia — desde que haja real inclusão das vozes tradicionais. Para Vania, oportunidades e riscos andam lado a lado.
Ela aponta que o evento pode ser uma vitrine importante para os saberes ancestrais e a promoção de um modelo de desenvolvimento mais alinhado à sociobiodiversidade. “Uma oportunidade de visibilidade e promoção de um desenvolvimento sustentável pautado no conhecimento tradicional e ancestral de quem cuida deste bioma e convive há séculos, sem agressões”, diz.
Por outro lado, ela alerta para os sinais de um caminho perigoso: “A COP parece ter o foco na exaltação do capital, da economia, das aparências do que não somos, e maquiar problemas graves como o próprio direito à água.” E faz um alerta contundente: “As populações tradicionais não estão sendo chamadas para os preparativos. Tenho dúvidas quanto ao espaço que realmente terão.”
O choque entre mundos
O modelo de desenvolvimento hegemônico — focado em grandes projetos, produtividade e lucro — entra em colisão direta com as cosmovisões tradicionais, que entendem a floresta como um sistema integrado, onde tudo está interligado.
“Essa lógica desenvolvimentista choca diretamente com os aspectos culturais, com o direito ao território e aos recursos naturais, levando à degradação ou exaustão de elementos que, para os povos tradicionais, são vitais”, explica Vania.
Saberes que sustentam o futuro
Mesmo diante de séculos de violência e desrespeito, os povos tradicionais têm ensinado caminhos para resistir e adaptar-se. Com práticas sustentáveis, manejo equilibrado e conhecimento profundo dos ciclos da natureza, essas comunidades são, de fato, guardiãs da floresta.
“Eles são parte de um grande sistema, onde a natureza, a terra e os recursos são um todo. A forma como usam os recursos, mantendo a biodiversidade, é uma forma de conservar água, manter a temperatura mais amena e produzir alimento seguro”, reforça a professora.
O protagonismo invisível das mulheres
Em muitas dessas comunidades, são as mulheres que sustentam a resistência cotidiana — liderando processos, cuidando da terra, mantendo saberes vivos. No entanto, seus papéis ainda são pouco reconhecidos fora de suas comunidades.
“As mulheres têm um papel fundamental, são as geradoras e cuidadoras. Invisibilizá-las fragiliza o território e toda a comunidade, e assim o território fica vulnerável”, alerta.
O Estado e a urgência do reconhecimento
Para que essas populações possam continuar existindo e protegendo a floresta, é preciso uma mudança profunda na postura do Estado brasileiro.
“Eles deveriam ser respeitados pelos anos de luta e cuidado com o nosso território e os nossos biomas. Nas regiões onde os povos tradicionais foram eliminados, os impactos das mudanças climáticas já chegaram com força incontrolável”, destaca Vania. “Reconhecer que eles são protagonistas e que deles vem o conhecimento para um desenvolvimento sustentável é fundamental.”
Pesquisa com respeito e escuta
A relação entre universidade e comunidades tradicionais também precisa ser repensada. Para Vania, o primeiro passoé respeitar o conhecimento das comunidades tradicionais, o qual é tão importante quanto o conhecimento científico.“É necessário se unir às comunidades, dialogar, aprender e construir de forma coletiva tecnologias de adaptação que garantam qualidade de vida e sobrevivência nos territórios. Soluções que respeitem as especificidades culturais e territoriais.”
O que está em jogo
A marginalização das vozes amazônicas não é um detalhe — é um sintoma de um sistema que prioriza o lucro sobre a vida. Mas o custo dessa lógica pode ser irreversível.
O que está em jogo quando não escutamos as vozes da Amazônia é o poder. Como elas não contribuem para a engrenagem do capitalismo, da degradação, do acúmulo de bens, elas não são bem vindas e bem vistas ao sistema em curso. São consideradas um entrave ao “desenvolvimento”, afirma. “Porém elas são as cuidadoras do que é essencial para a sobrevivência de todos no planeta, como a água, o equilíbrio climático que além de manter temperaturas adequadas, também regula as chuvas, rege as produções; não reconhecer o quanto são essenciais para sobrevivência de todos (homem, biomas e ecossistemas) é abrir mão do nosso futuro na terra”.
Considerações finais
Na Amazônia, resistir não é opção — é sobrevivência. Às vésperas da COP30, o desafio global não é apenas proteger árvores, mas garantir que os povos que cuidam da floresta possam continuar existindo com dignidade, voz e poder de decisão. Escutá-los é um passo essencial para desenhar um futuro mais justo, sustentável e verdadeiramente humano.
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.