Antártica revela novas áreas verdes: mapeamento inédito mostra vegetação surgindo no continente antes dominado pelo gelo

A Antártica, historicamente conhecida como uma imensidão branca e inóspita, passou por um marco científico que desafia a imagem tradicional do continente. Um levantamento inédito realizado pela iniciativa MapBiomas Antártica revelou que existem, hoje, manchas de vegetação ativa espalhadas pelo território antártico — algo que, por séculos, era considerado praticamente inexistente fora de pequenas e isoladas regiões costeiras. Pela primeira vez, o continente gelado foi mapeado com precisão para identificar áreas livres de gelo e presença de vegetação durante o verão, trazendo dados que ajudam a explicar como o clima e a ecologia local estão mudando.

Segundo o estudo, a Antártica possui cerca de 1,366 bilhão de hectares, dos quais apenas 2,4 milhões de hectares — menos de 1% do total — ficam temporariamente livres de gelo e neve. Embora sejam porções diminutas em relação ao maciço glaciar, representam a condição mínima necessária para que qualquer forma de vegetação exista. Nessas janelas abertas pelo degelo sazonal, os pesquisadores detectaram aproximadamente 107 mil hectares com atividade fotossintética, indicando a presença de musgos, líquens, algas terrestres e, em casos mais raros, pequenas gramíneas adaptadas às temperaturas extremas.

Até recentemente, a ideia de “áreas verdes” na Antártica soaria quase como ficção científica. A percepção predominante, reforçada por séculos de expedições e estudos, era a de que o continente se mantinha completamente congelado, exceto por rochas nuas em alguns trechos costeiros. O novo mapeamento mostra, no entanto, que essas áreas expostas não só são mais numerosas do que se imaginava, como também apresentam indícios claros de vegetação viva, ainda que extremamente frágil, esparsa e restrita aos curtos meses do verão antártico.

As manchas verdes aparecem sobretudo em regiões costeiras, em ilhas ao redor do continente, na Península Antártica e no topo de cadeias montanhosas como as Transantarctic Mountains. As ilhas antárticas concentram a maior proporção de áreas livres de gelo e reúnem os ambientes mais propícios à formação de vegetação. A combinação de temperaturas mais altas no verão, maior incidência solar e presença de água de degelo cria pequenos ecossistemas nos quais essas espécies resistentes conseguem sobreviver.

O mapeamento foi produzido a partir de milhares de imagens do satélite Sentinel-2, de 2017 a 2025, e classificadas com algoritmos de machine learning. Para identificar vegetação, a equipe utilizou o índice NDVI, capaz de detectar atividade fotossintética mesmo em organismos minúsculos. Trata-se de um avanço significativo para a ciência antártica, já que permite observar de maneira padronizada e em alta resolução a dinâmica de gelo, solo exposto e vegetação num dos ambientes mais remotos da Terra.

A presença dessas áreas verdes, embora pequena, tem grande importância científica. Elas revelam como o continente mais frio do planeta está respondendo às variações climáticas e ambientais. Mesmo que a vegetação detectada seja primitiva e altamente vulnerável, sua expansão ou retração pode servir como indicador sensível de mudanças no clima antártico. O relatório destaca que não se trata de um processo de “descongelamento generalizado”, mas de fenômenos localizados que precisam ser monitorados de perto.

O MapBiomas ressalta que os dados ainda são preliminares e não representam séries anuais, já que a variabilidade sazonal da cobertura de gelo dificulta comparações de ano a ano. Ainda assim, os números apontam para uma nova compreensão da Antártica: não mais apenas como um deserto branco absoluto, mas como um território que, sob condições específicas, abriga vida vegetal e ecossistemas que desempenham papel crucial na regulação climática global.

O surgimento dessas áreas verdes, mesmo que tímido, abre uma fronteira importante para pesquisas sobre biodiversidade, ciclos de carbono, impacto das mudanças climáticas e funcionamento dos ecossistemas polares. A Antártica continua sendo um dos lugares mais extremos e frágeis do mundo — mas o avanço da ciência revela que ela está longe de ser estática. No coração do continente gelado, a vida encontra um jeito de florescer, ainda que por algumas semanas a cada verão.

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