Pesquisas indicam que milhões de animais morrem nas estradas do país todos os anos. Especialista alerta que o impacto vai além da perda de biodiversidade e afeta também a segurança humana.
Nas rodovias brasileiras, a cada quilômetro percorrido há uma ameaça silenciosa que atravessa o caminho dos motoristas: o atropelamento de fauna silvestre. O fenômeno, pouco discutido fora dos círculos científicos, representa hoje uma das maiores causas de morte de animais no país — e, segundo especialistas, também coloca em risco a segurança humana e o equilíbrio dos ecossistemas.
De acordo com estimativas recentes, cerca de 9 milhões de animais silvestres morrem todos os anos em colisões com veículos no Brasil (1). O número impressiona e revela uma face ainda pouco abordada da crise ambiental. “Os atropelamentos em estradas estão entre os impactos ecológicos causados pela humanidade que mais matam animais silvestres por quilômetro quadrado, perdendo somente para a destruição e fragmentação dos ambientes naturais”, explica o professor da UFRJ, Dr. Pablo Rodrigues Gonçalves, especialista em Ecologia e Conservação da Fauna.
Um problema que ultrapassa a conservação
A perda de animais por atropelamento não é apenas uma questão ambiental: tem reflexos diretos sobre o bem-estar humano e a economia. Segundo dados mencionados por Gonçalves, 18,5% dos atropelamentos de fauna silvestre resultam em ferimentos ou fatalidades humanas, e só nas rodovias do Estado de São Paulo os prejuízos anuais chegam a R$ 56 milhões — somando indenizações, serviços hospitalares e danos ao patrimônio público (2).
Além do impacto imediato, há o chamado “efeito barreira”, causado pela presença das estradas, que limita o deslocamento dos animais entre fragmentos de vegetação. “Essa interrupção da dispersão de indivíduos é prejudicial a longo prazo, pois diminui a diversidade genética necessária para a adaptação das espécies às mudanças ambientais”, ressalta o professor.
O resultado é um ciclo de perda contínua: populações isoladas se tornam mais vulneráveis e, com o tempo, espécies inteiras podem ser levadas à extinção se medidas não forem implementadas.
Rodovias em áreas sensíveis ampliam o risco
Os fatores que tornam uma região mais propensa ao atropelamento de fauna variam conforme o tipo de rodovia e o ambiente em seu entorno. Nos estudos conduzidos pela equipe do Dr. Pablo Gonçalves na BR-101 (RJ/Norte), observou-se que a maior incidência de atropelamentos de mamíferos ocorre em trechos que cruzam áreas úmidas ou florestadas. “Outro fator importante é o volume de veículos, que aumenta a probabilidade de colisões”, explica o pesquisador (3).
Essa relação direta entre o traçado das rodovias e a mortalidade da fauna reforça a importância de incluir o tema nos processos de licenciamento ambiental e de planejamento territorial.
Monitoramento e ciência a favor da conservação
Para enfrentar o problema, o primeiro passo é o conhecimento. O monitoramento sistemático das rodovias permite identificar as espécies mais atingidas e os trechos críticos — os chamados “hotspots” de atropelamento. Essas informações são essenciais para orientar políticas públicas e determinar onde investir em soluções eficazes.
“O monitoramento é fundamental para identificar quais espécies estão sofrendo maior mortalidade, em quais trechos os acidentes são mais frequentes e quais características da paisagem são mais importantes para prever onde novos acidentes ocorrerão”, destaca Gonçalves.
Com base nesses dados, é possível definir estratégias como instalação de passagens de fauna, cercamentos e redutores de velocidade.
Viadutos vegetados e passagens subterrâneas: soluções que funcionam
Entre as medidas de mitigação mais eficazes no mundo estão as passagens de fauna, que permitem a travessia segura dos animais sob ou sobre as rodovias. No Brasil, estruturas desse tipo têm mostrado resultados promissores, especialmente na BR-101 Norte (RJ) — uma das principais áreas de estudo do professor.
“As passagens aéreas conectam as copas das árvores e são utilizadas por primatas e pequenos mamíferos, enquanto as passagens subterrâneas atendem capivaras, lontras e raposas. Já os viadutos vegetados mantêm um corredor de floresta por cima da rodovia, beneficiando um número ainda maior de espécies”, explica Gonçalves.
O pesquisador destaca, porém, que a eficácia dessas estruturas depende da existência de habitat nas duas margens da via. “Sem floresta de ambos os lados, muitas espécies não utilizam as passagens. É o caso do viaduto florestado da BR-101/RJ-Norte, que hoje tem vegetação apenas em um dos lados. O lado da Fazenda Walkimar, no entanto, carece da floresta necessária para interligar o viaduto à Reserva Biológica de Poço das Antas. O reflorestamento de uma pequena área já seria suficiente para formar o corredor ecológico, mas ainda há resistência por parte de proprietários locais”, lamenta (4, 5).
Educação ambiental e pressão social como motores de mudança
O avanço em políticas de mitigação não depende apenas da ciência, mas também da mobilização social. Gonçalves lembra que o viaduto florestado da BR-101 Norte/RJ só se tornou realidade graças à pressão de organizações civis e do Ministério Público.
“As campanhas de conscientização são fundamentais para que a sociedade cobre dos órgãos públicos e das concessionárias medidas que reduzam a morte de animais nas estradas”, afirma o professor da UFRJ.
Responsabilidade compartilhada e legislação pendente
Segundo o especialista, a avaliação dos impactos sobre a fauna e a implementação de medidas mitigatórias devem ser etapas obrigatórias do licenciamento ambiental de qualquer rodovia — especialmente as que atravessam unidades de conservação. No entanto, no Brasil, isso só ocorre em estradas administradas por concessionárias.
“Rodovias sem concessão seguem em operação sem qualquer obrigatoriedade de avaliação de seus impactos na fauna”, alerta. Ele cita o Projeto de Lei 466/2015, que prevê a obrigatoriedade dessas medidas em rodovias federais, mas que há dez anos aguarda votação no Congresso Nacional (6).
Avanços e novos caminhos
Apesar dos desafios, há avanços importantes. O Brasil já conta com uma comunidade científica ativa dedicada ao tema — a Rede Brasileira de Ecologia de Transporte (REET) —, que tem pressionado pela aprovação do PL 466/2015 e promovido a troca de experiências entre pesquisadores e gestores públicos.
“Hoje temos um conhecimento científico muito maior do que há 10 anos, e o panorama das rodovias concessionadas melhorou bastante”, avalia Gonçalves. Além disso, novas tecnologias de sinalização visual e sonora — como sensores que detectam a presença de animais e alertam motoristas — começam a ser testadas em alguns trechos.
Entretanto, o professor reforça que o combate ao atropelamento de fauna silvestre só será efetivo com investimento contínuo em monitoramento, pesquisa e educação ambiental. “A continuidade dos estudos e monitoramentos de fauna atropelada é fundamental para que possamos utilizar a melhor ciência possível para diminuir as mortes e minimizar a perda de biodiversidade nas estradas brasileiras”, conclui.
Conheça o viaduto vegetado da BR101:
Referências
- Pinto, F. A. S. et al. How Many Mammals Are Killed on Brazilian Roads? Assessing Impacts and Conservation Implications. Diversity, 14, 1–13 (2022).
- Abra, F. D. et al. Pay or prevent? Human safety, costs to society and legal perspectives on animal-vehicle collisions in São Paulo state, Brazil. PLoS One, 14, 1–22 (2019).
- Secco, H. et al. Identifying Roadkill Hotspots for Mammals in the Brazilian Atlantic Forest using a Functional Group Approach. Environmental Management, 73, 365–377 (2024).
- Souza, I. M. et al. Mitigating Road Barrier Effects for Small Mammals: Evidence From Wildlife Passages in the Brazilian Atlantic Forest. Austral Ecology, 50, 1–6 (2025).
- Secco, H. et al. Golden lion tamarins use artificial canopy overpass to get around: a new road for their conservation? Biodiversity, 23, 156–158 (2022).
- Secco, H., Alves da Rosa, C., Gonçalves, P. R. Biodiversity crisis on Brazilian roads. Biodiversity, 00, 1–2 (2018).

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.