Como funciona o Mercado de Carbono Europeu (EU ETS)

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Depois que lançamos o curso sobre Remoção de Dióxido de Carbono (clique aqui para ver), recebemos muitas perguntas sobre como os Mercados de Carbono funcionam na prática. Para tentar resolver algumas dessas dúvidas, lançaremos uma série de textos super detalhados sobre o assunto. Neste primeiro artigo, nós tentamos abranger todos os tópicos sobre o Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia, mas se ainda restar alguma dúvida, faça um comentário na postagem do instagram @portaldoesg. Boa leitura!

O Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia (EU ETS), sigla para European Union Emissions Trading System, é o principal instrumento da União Europeia (UE) para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) de forma custo-eficaz. Lançado em 2005, foi o primeiro e é o maior mercado de carbono internacional do mundo, operando sob o princípio de “limite e comércio” (cap-and-trade).

Este artigo detalha o funcionamento, a regulamentação, os participantes e os mecanismos de compra e geração de licenças de emissão neste mercado.

1. O Funcionamento passo a passo do EU ETS: O Sistema “Cap-and-Trade”

O EU ETS opera em fases de negociação (atualmente na quarta fase, 2021-2030) e baseia-se em um mecanismo simples, mas poderoso:

Passo 1: Estabelecimento do Limite (Cap)

O coração do sistema é o limite máximo (cap) de emissões. A Comissão Europeia, em conjunto com os Estados-Membros, define um teto para a quantidade total de GEE que pode ser emitida pelas instalações cobertas pelo sistema.

Passo 2: Alocação das Licenças (EUAs)

As EUAs são a moeda do mercado e são alocadas às empresas de duas maneiras principais:

Passo 3: Monitoramento, Relatório e Verificação (MRV)

As empresas abrangidas pelo EU ETS têm a obrigação rigorosa de:

Passo 4: Conformidade e Entrega de Licenças (Surrender)

Até 30 de abril de cada ano, as empresas devem entregar (surrender) um número de EUAs equivalente à quantidade total de GEE que emitiram no ano anterior.

Passo 5: Comércio (Trade)

O mercado secundário é onde a mágica do cap-and-trade acontece:

Este mecanismo garante que a redução de emissões ocorra onde é mais barata, pois as empresas com maior custo de redução preferem comprar EUAs, enquanto as empresas com menor custo de redução preferem vender seu excedente.

2. Quem Regula, Fiscaliza e Participa do Mercado

A estrutura de governança do EU ETS é multinível e rigorosa.

2.1. Regulamentação e Legislação

NívelEntidade PrincipalPapel na Regulamentação
SupranacionalComissão Europeia (Direção-Geral da Ação Climática – DG CLIMA)É a principal reguladora. Propõe e implementa a legislação (Diretiva EU ETS), define o cap total, supervisiona os leilões e mantém o Registro da União.
NacionalAutoridades Nacionais Competentes (ANC)Em cada Estado-Membro, uma agência (geralmente do Ministério do Meio Ambiente ou Agência Ambiental) é responsável por implementar a Diretiva EU ETS em nível nacional, emitir licenças de operação, aprovar planos de monitoramento e aplicar sanções.
LegislativoParlamento Europeu e Conselho da UEAprovam a Diretiva EU ETS e suas revisões, estabelecendo o quadro legal geral e as metas de redução de emissões.

2.2. Fiscalização e Aplicação da Lei

A fiscalização é uma responsabilidade compartilhada:

2.3. Participantes do Mercado

ParticipanteFunção no EU ETS
Operadores (Empresas Reguladas)Empresas de setores como geração de energia, indústria pesada (aço, cimento, vidro, etc.) e, mais recentemente, aviação e transporte marítimo. São obrigadas a monitorar emissões e entregar EUAs.
VerificadoresEntidades independentes que auditam e certificam os relatórios de emissões dos Operadores.
Traders e Intermediários FinanceirosBancos, fundos de investimento e corretoras que compram e vendem EUAs no mercado secundário. Eles fornecem liquidez e ajudam a formar o preço do carbono.
Reguladores (Comissão Europeia e ANCs)Definem as regras, o cap, realizam os leilões e garantem a conformidade e a integridade do mercado.

3. Mecanismos de Créditos: Compra, Geração e Tipos

É crucial entender que o EU ETS não lida com “créditos de carbono” no sentido tradicional do mercado voluntário (como projetos de reflorestamento). Ele lida com Licenças de Emissão (EUAs).

3.1. Como uma Empresa Compra Licenças (EUAs)

Uma empresa regulada pode adquirir EUAs de três maneiras:

3.2. Quem Gera e Como São Gerados os Créditos (EUAs)

No EU ETS, as EUAs não são geradas por projetos de redução de emissões de empresas individuais. Elas são emitidas pela Comissão Europeia e pelos Estados-Membros até o limite do cap total.

3.3. Mecanismo de Estabilidade do Mercado (MSR)

Para garantir que o mercado funcione de forma eficaz e que o preço do carbono seja um incentivo real à descarbonização, a UE implementou a Reserva de Estabilidade do Mercado (Market Stability Reserve – MSR).

4. Minúcias e Detalhes Adicionais

4.1. Setores Abrangidos

O EU ETS abrange atualmente cerca de 40% das emissões totais de GEE da UE, incluindo:

4.2. Uso das Receitas

As receitas geradas pelos leilões de EUAs são significativas (mais de 175 bilhões de euros desde 2013). Os Estados-Membros são obrigados a utilizar a totalidade ou o equivalente financeiro dessas receitas para fins relacionados ao clima e energia, como:

4.3. Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (CBAM)

Para proteger as empresas europeias da concorrência desleal de empresas de países com regulamentações de carbono menos rigorosas (o risco de carbon leakage), a UE está implementando o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira (Carbon Border Adjustment Mechanism – CBAM).

Em resumo, o EU ETS é um sistema robusto, dinâmico e em constante evolução, projetado para garantir que a Europa atinja suas ambiciosas metas climáticas, utilizando o poder do mercado para impulsionar a inovação e a redução de emissões. O sucesso do sistema reside na garantia da escassez das Licenças de Emissão (EUAs) e na aplicação rigorosa do princípio do “poluidor-pagador”.