
As voçorocas, fenômenos geológicos que representam um estágio avançado de erosão do solo, são cicatrizes profundas na paisagem que ameaçam comunidades, infraestruturas e ecossistemas em todo o mundo. Este trabalho investigativo aprofunda-se nas causas, impactos e, crucialmente, nas soluções reais e aplicáveis para combater essa degradação ambiental. Com uma abordagem que mescla a narrativa de reportagem com a rigorosidade acadêmica, exploraremos não apenas as medidas técnicas de prevenção e reabilitação, mas também a dimensão social e econômica do problema, com foco em casos emblemáticos no Brasil e as mais recentes inovações científicas globais.
Sumário
1. A Natureza das Voçorocas: Causas e Consequências
2. Estratégias Abrangentes de Prevenção e Reabilitação
3. Casos Emblemáticos no Brasil
4. Inovações e Pesquisas Recentes: A Contribuição da Ciência Global
5. Conclusão
6. Referências
1. A Natureza das Voçorocas: Causas e Consequências
As voçorocas, também conhecidas como boçorocas, representam o estágio mais avançado da erosão do solo, caracterizadas pela formação de grandes crateras que podem atingir dezenas de metros de profundidade e centenas de metros de largura [1, 2]. Este fenômeno é desencadeado principalmente pela ação erosiva da água da chuva em solos desprotegidos, mas é o resultado de uma interação complexa de fatores naturais e antrópicos [2].
1.1 Causas Principais
Desmatamento e Remoção da Cobertura Vegetal: A vegetação desempenha um papel crucial na proteção do solo, pois suas raízes estabilizam a estrutura do solo e a folhagem intercepta a energia direta das gotas de chuva. A remoção dessa cobertura expõe o solo à força do impacto da água, facilitando a desagregação e o transporte de partículas [1, 2, 3].
Declividade do Terreno: Áreas com inclinações acentuadas intensificam a velocidade do escoamento superficial da água, aumentando seu poder erosivo. Em terrenos íngremes, a água ganha energia, formando sulcos que, com o tempo, podem evoluir para ravinas e, finalmente, voçorocas [2].
Chuvas Volumosas e Intensas: Eventos pluviométricos de alta intensidade e volume contribuem significativamente para o processo erosivo. O grande volume de água acumulado no solo e o escoamento concentrado sobre superfícies desprotegidas aceleram a formação e o aprofundamento das crateras [2, 3].
Tipo de Solo: Solos com menor estrutura e maior granulometria, como os arenosos, são mais suscetíveis à erosão e à formação de voçorocas. A baixa coesão das partículas facilita o transporte de material pela água [2].
Expansão Urbana e Práticas Inadequadas de Manejo do Solo: A urbanização desordenada, a impermeabilização do solo, a alteração do substrato e a falta de sistemas de drenagem adequados concentram o fluxo de água, direcionando-o para áreas vulneráveis e intensificando a erosão. A disposição inadequada de águas pluviais e esgoto também contribui para o problema [2, 3].
1.2 Consequências
As consequências das voçorocas são devastadoras e multifacetadas:
Perda de Solo Fértil: A erosão remove a camada superficial do solo, rica em nutrientes, comprometendo a produtividade agrícola e a capacidade de regeneração natural da área [1].
Assoreamento de Corpos D’água: O material erodido é transportado para rios, lagos e reservatórios, causando assoreamento, redução da capacidade de armazenamento de água e degradação da qualidade da água [1].
Danos à Infraestrutura: Em áreas urbanas, as voçorocas ameaçam e destroem casas, estradas, pontes, redes de saneamento e outras infraestruturas, gerando prejuízos econômicos e sociais significativos [1, 2, 3].
Risco à Vida Humana: O avanço das crateras pode isolar comunidades, causar deslizamentos de terra e, em casos extremos, resultar em mortes, como observado em Buriticupu [3].
Rebaixamento do Lençol Freático: Quando as voçorocas atingem o lençol freático, há uma combinação potencializada de erosão superficial e solapamento dos taludes, além de um desperdício de água subterrânea [3].
Degradação Ambiental: A formação de voçorocas leva à perda de biodiversidade, alteração de ecossistemas e desequilíbrio ambiental, com a formação de badlands, áreas severamente degradadas e improdutivas [4].
Em resumo, as voçorocas são um problema complexo que exige uma compreensão aprofundada de suas causas e consequências para que soluções eficazes possam ser implementadas. A inação diante desse fenômeno pode levar a perdas irreparáveis, tanto ambientais quanto socioeconômicas.
2. Estratégias Abrangentes de Prevenção e Reabilitação
O controle e a recuperação de voçorocas demandam uma abordagem integrada que combine medidas preventivas e corretivas, visando a estabilização do solo, o manejo adequado da água e a restauração da cobertura vegetal. As soluções técnicas para ravinas e voçorocas são bem estudadas e incluem uma variedade de práticas mecânicas e vegetativas [1, 5].
Medidas Preventivas
Manutenção e Restauração da Cobertura Vegetal: A vegetação é a primeira linha de defesa contra a erosão. O plantio de espécies nativas, gramíneas e árvores, especialmente em áreas de alta declividade e nascentes de rios, ajuda a estabilizar o solo, reduzir a velocidade do escoamento superficial e promover a infiltração da água. As raízes das plantas atuam como uma rede natural que segura o solo, enquanto a parte aérea dissipa a energia das gotas de chuva [1, 2, 3].
Práticas Agrícolas Sustentáveis: A adoção de técnicas como o plantio direto, rotação de culturas, terraceamento e cultivo em nível (seguindo as curvas de nível do terreno) minimiza a exposição do solo e reduz o escoamento da água. O terraceamento, em particular, cria patamares que diminuem a velocidade da água e a distribuem de forma mais uniforme, prevenindo a formação de sulcos [1].
Manejo Adequado das Águas Pluviais: A construção de sistemas de drenagem eficientes, como canais revestidos, bacias de retenção, barragens de contenção e dissipadores de energia, é crucial para controlar o fluxo de água e evitar sua concentração em pontos vulneráveis. O desvio de águas concentradas para locais seguros, onde possam ser infiltradas ou conduzidas sem causar erosão, é uma medida fundamental [1, 3, 5].
Planejamento Urbano e Rural: Um planejamento territorial que considere as características geológicas e hidrológicas da área é essencial. Isso inclui a proibição de construções em áreas de risco, o zoneamento adequado do uso do solo e a implementação de infraestruturas que minimizem o impacto da urbanização no regime hídrico e na estabilidade do solo [3].
Educação Ambiental e Conscientização: Informar e engajar a comunidade sobre as causas e consequências das voçorocas, incentivando a adoção de práticas sustentáveis de manejo do solo e da água, é vital para o sucesso das ações de prevenção e recuperação [1].
Medidas Corretivas (Reabilitação)
Para áreas já afetadas por voçorocas, as intervenções são mais complexas e geralmente envolvem uma combinação de técnicas:
Reflorestamento e Revegetação: O plantio de espécies vegetais adaptadas ao ambiente local é fundamental para a estabilização a longo prazo. Inicialmente, gramíneas podem ser usadas para cobrir o solo degradado, seguidas por espécies arbóreas nas bordas e paredes internas da voçoroca para reforçar a estrutura do solo e evitar movimentos de massa [2].
Bioengenharia de Solos: Esta técnica utiliza materiais vegetais vivos e mortos, combinados com estruturas de engenharia civil, para estabilizar encostas e controlar a erosão. Exemplos incluem o uso de fascines (feixes de galhos), paliçadas, e o retaludamento das paredes da voçoroca com plantio de vegetação [3].
Estruturas de Contenção: A construção de diques de terra, gabiões (estruturas de tela preenchidas com pedras), barragens de contenção e muros de arrimo são empregadas para reduzir a velocidade do fluxo de água, reter sedimentos e estabilizar as paredes da voçoroca. Diques de gabião, por exemplo, são permeáveis e flexíveis, permitindo a passagem da água enquanto retêm o material sólido e se adaptam a pequenos movimentos do solo [3, 5].
Preenchimento e Recomposição Topográfica: Em alguns casos, especialmente em voçorocas menores ou em áreas urbanas, o preenchimento com solo ou entulhos inertes pode ser uma solução. Isso permite a recomposição da topografia original e, se bem planejado, a recuperação dos níveis do lençol freático. É crucial que o material de preenchimento seja adequado e que haja um sistema de drenagem eficiente para evitar a reativação do processo erosivo [3].
Desvio de Águas e Drenagem Interna: Impedir que águas superficiais continuem a entrar na voçoroca e suas ramificações é essencial. Além disso, é necessário gerenciar as águas do lençol freático e da chuva que incidem no interior da cratera, utilizando estruturas autodrenantes para permitir o escoamento da água sem transportar o solo [3].
Monitoramento Contínuo: Acompanhar a evolução das voçorocas e a eficácia das medidas implementadas é fundamental. O uso de tecnologias como imagens de satélite e sistemas de informação geográfica (SIG) permite identificar áreas vulneráveis e planejar intervenções rápidas [1].
A escolha das soluções deve ser baseada em uma análise detalhada das características da voçoroca (tamanho, profundidade, causas), do tipo de solo, do regime hídrico e do contexto socioeconômico da área. A colaboração entre governos, comunidades locais, organizações não governamentais e especialistas em meio ambiente é essencial para desenvolver e implementar planos de ação eficazes e sustentáveis [1].
3. Casos Emblemáticos no Brasil: Buriticupu (MA) e Morro do Ferro (MG)
O Brasil, com sua vasta extensão territorial e diversidade de solos e climas, é palco de inúmeros casos de voçorocas. Dois exemplos notáveis, que ilustram a gravidade do problema e a urgência de soluções, são as voçorocas de Buriticupu, no Maranhão, e as de Morro do Ferro, em Minas Gerais. Ambos os casos revelam a interação complexa entre fatores naturais e antrópicos na formação e evolução dessas crateras, bem como os desafios e as propostas de intervenção.
3.1. Buriticupu, Maranhão: A Cidade Ameaçada
Buriticupu, um município no interior do Maranhão, tornou-se um símbolo da devastação causada pelas voçorocas no Brasil. Há mais de 30 anos, a cidade convive com a ameaça constante desses abismos de terra, que chegam a atingir 80 metros de altura e mais de 500 metros de comprimento [3, 6]. O problema é tão grave que Buriticupu é frequentemente referida como a “cidade que está sendo engolida” pelas voçorocas, com impactos sociais e econômicos alarmantes.
A Dimensão do Problema:
Crateras Gigantes: Pelo menos 26 grandes voçorocas ameaçam a vida de aproximadamente 55 mil moradores. Algumas dessas crateras já engoliram cerca de 70 casas, forçando famílias a abandonar suas residências e buscar refúgio em outras áreas [3, 6].
Perdas Humanas: A tragédia em Buriticupu vai além das perdas materiais. Desde a década de 1980, sete pessoas já morreram em acidentes relacionados às voçorocas, evidenciando o risco iminente à vida humana [3].
Impacto na Infraestrutura: Além das casas, estradas e outras infraestruturas urbanas são constantemente ameaçadas e destruídas pelo avanço das crateras, dificultando o acesso e a mobilidade na cidade.
Causas da Intensificação em Buriticupu:
A formação e a intensificação das voçorocas em Buriticupu são resultado de uma combinação de fatores naturais e, principalmente, antrópicos:
Expansão Urbana Desordenada: A rápida e desordenada expansão urbana da cidade, sem o devido planejamento e infraestrutura, é apontada como a principal causa. A remoção da vegetação nativa para a construção de moradias e a impermeabilização do solo contribuíram para o aumento do escoamento superficial da água [3, 6].
Solo Suscetível: A região de Buriticupu possui um solo com predominância de areia, silte e argila, com baixa porosidade, o que o torna particularmente suscetível à erosão quando exposto à ação da água [3].
Chuvas Intensas: Os fortes eventos pluviométricos, característicos da região, aliados à falta de cobertura vegetal e sistemas de drenagem adequados, potencializam o poder erosivo da água, transformando pequenas fendas em grandes abismos [3].
Sistemas de Drenagem Inadequados: A ausência ou ineficiência de sistemas de esgotamento sanitário e drenagem urbana contribui para que grandes volumes de água da chuva cheguem concentrados nas cabeceiras das voçorocas, acelerando seu crescimento [3].
Soluções Propostas e Desafios:
Especialistas e autoridades têm proposto diversas soluções para mitigar o problema em Buriticupu, embora a implementação seja um desafio complexo devido à escala da degradação e aos altos custos envolvidos:
Proteção e Restauração Vegetal: especialistas destacam a importância de investir na proteção do solo com a cobertura e manutenção vegetal, especialmente em locais de alta declividade e próximos a nascentes de rios. O plantio de espécies arbóreas nas bordas e no interior das voçorocas, juntamente com o retaludamento das paredes com técnicas de bioengenharia de solos, é fundamental [3].
Infraestrutura Adequada: A construção de sistemas de esgotamento sanitário e drenagem urbana eficientes é crucial para desviar o fluxo de águas que chegam às cabeceiras das voçorocas [3].
Remoção e Reassentamento da População: Em áreas de risco iminente, a remoção e o reassentamento da população que vive em torno das cabeceiras das voçorocas são medidas necessárias para evitar novas tragédias [3].
Desvio de Fluxos de Água: Desviar os fluxos de águas que chegam às cabeceiras das voçorocas é uma medida paliativa importante para reduzir a velocidade de avanço das crateras [3].
Mobilização e Colaboração: A complexidade do problema exige uma mobilização conjunta de governos (federal, estadual e municipal), comunidade, academia e organizações não governamentais para desenvolver e implementar um plano de ação abrangente e de longo prazo.
O caso de Buriticupu é um alerta para a necessidade de políticas públicas eficazes de gestão territorial e ambiental, que priorizem a prevenção e o planejamento, a fim de evitar que outras cidades brasileiras enfrentem o mesmo destino.
3.2. Morro do Ferro, Minas Gerais: O Povoado em Risco
Morro do Ferro, um pequeno povoado no município de Oliveira, Minas Gerais, com cerca de 5 mil habitantes, enfrenta uma ameaça similar às voçorocas de Buriticupu. Localizado a 159 km de Belo Horizonte, o povoado está isolado entre montanhas, e suas casas estão sendo cercadas por buracos gigantescos, que colocam em risco a segurança e a existência da comunidade [7].
A Extensão da Degradação
Voçorocas de Grande Porte: As voçorocas em Morro do Ferro atingem dimensões impressionantes: 1.000 metros de comprimento, 610 metros de largura e 40 metros de profundidade. A área total destruída por esses abismos equivale a aproximadamente 70 campos de futebol, demonstrando a magnitude da degradação [7].
Ameaça à Comunidade: Os buracos estão cada vez mais próximos das residências, e até mesmo o cemitério da cidade está sob ameaça. Em uma das casas, o jardim foi substituído por uma imensa cratera, ilustrando a invasão do fenômeno no espaço urbano e rural [7].
Fatores Contribuintes
Assim como em Buriticupu, a situação em Morro do Ferro é resultado de uma combinação de fatores:
Solo Suscetível: A região possui um solo naturalmente propício à erosão, o que, combinado com outros fatores, acelera a formação das voçorocas [7].
Desmatamento: A remoção da cobertura vegetal, que atua como proteção natural do solo, agrava o problema da erosão, deixando o terreno exposto à ação das chuvas [7].
Chuvas Intensas: O regime pluviométrico da região, com chuvas intensas, contribui para a aceleração do processo erosivo, especialmente em áreas desprotegidas.
Desafios e Soluções
Apesar da gravidade da situação, a implementação de soluções em Morro do Ferro enfrenta desafios significativos, principalmente relacionados aos altos custos e à complexidade das intervenções:
Custos Elevados: A obra para conter apenas o maior buraco, de 40 metros de profundidade, é estimada em R$ 1 milhão, um valor considerável para um pequeno povoado [7].
Medo e Insegurança: A população vive em constante medo e insegurança, especialmente durante a época de chuvas, temendo que suas casas sejam engolidas pelos abismos [7].
Necessidade de Intervenção Urgente: Especialistas alertam que a situação é de risco e que um temporal pode causar erosão e engolir mais casas. A estabilização das voçorocas é fundamental para a segurança da comunidade e a sustentabilidade ambiental da região [7].
O caso de Morro do Ferro reforça a necessidade de investimentos em pesquisa, planejamento e execução de projetos de controle de erosão em áreas vulneráveis, bem como a importância da conscientização e participação da comunidade para a preservação do meio ambiente e a segurança das populações.
4. Inovações e Pesquisas Recentes: A Contribuição da Ciência Global
A compreensão e o combate à erosão de voçorocas têm sido impulsionados por avanços significativos na pesquisa científica e na aplicação de tecnologias inovadoras. A comunidade acadêmica global tem se dedicado a desenvolver metodologias mais precisas para prever, monitorar e gerenciar esses fenômenos, com destaque para a utilização de inteligência artificial (IA) e sensoriamento remoto.
4.1. Metodologias Avançadas de Previsão e Monitoramento
Inteligência Artificial e Aprendizado de Máquina: Pesquisadores da Universidade de Illinois desenvolveram uma nova abordagem baseada em IA que combina aprendizado de máquina com uma ferramenta de interpretabilidade (SHapley Additive exPlanations – SHAP) para aprimorar a previsão da formação de voçorocas. Essa metodologia alcançou uma precisão de 91,6% na previsão da suscetibilidade à erosão, superando modelos individuais. A análise SHAP permite entender como diferentes variáveis ambientais (como o índice de área foliar das culturas) influenciam as previsões, tornando o modelo mais transparente e aplicável para decisões de manejo do solo [4].
Levantamentos Híbridos (In Situ e On-Screen): O Eurostat Land Use/Cover Area Frame Statistical Survey (LUCAS) na União Europeia tem expandido sua metodologia para monitorar a erosão de voçorocas. O levantamento LUCAS 2022, por exemplo, utilizou uma combinação de observações in situ e interpretação de imagens on-screen para mapear a ocorrência de voçorocas em milhares de locais. Essa abordagem híbrida permite uma compreensão mais abrangente da geografia da erosão e o desenvolvimento de métodos de previsão para apoiar indicadores de saúde do solo [8].
Sensoriamento Remoto e SIG: A utilização de imagens de satélite e Sistemas de Informação Geográfica (SIG) é fundamental para o monitoramento contínuo das áreas de risco e a identificação de novas voçorocas. Essas tecnologias permitem analisar a evolução das crateras ao longo do tempo, mapear áreas vulneráveis e planejar intervenções de forma mais eficiente [1].
4.2. Estratégias de Reabilitação e Controle Inovadoras
Bioengenharia de Solos: A pesquisa continua a aprimorar as técnicas de bioengenharia, que integram elementos biológicos (vegetação) e de engenharia (estruturas) para estabilizar encostas e controlar a erosão. Estudos recentes focam na seleção de espécies vegetais mais eficazes para a estabilização de taludes e na combinação de técnicas para otimizar os resultados [5].
Manejo Integrado da Bacia Hidrográfica: A compreensão de que as voçorocas são sintomas de problemas maiores na bacia hidrográfica tem levado a abordagens mais integradas. Isso inclui o manejo da água desde as áreas de cabeceira, a implementação de práticas de conservação do solo em toda a bacia e a coordenação de esforços entre diferentes atores e setores [5].
Soluções Baseadas na Natureza (SbN): Há um crescente interesse em soluções que utilizam processos e elementos naturais para resolver problemas ambientais. No contexto das voçorocas, isso pode incluir a restauração de ecossistemas ripários, a criação de zonas úmidas para filtrar sedimentos e a promoção da infiltração de água no solo através de técnicas de manejo da paisagem [1].
4.3. Desafios e Perspectivas Futuras
Apesar dos avanços, a pesquisa em erosão de voçorocas ainda enfrenta desafios, como a complexidade dos processos hidrológicos e geomorfológicos envolvidos, a necessidade de dados de alta resolução e a dificuldade de replicar os fenômenos em laboratório. No entanto, as perspectivas futuras são promissoras, com o desenvolvimento contínuo de modelos preditivos mais precisos, a integração de diferentes fontes de dados e a aplicação de abordagens multidisciplinares para desenvolver soluções mais eficazes e sustentáveis.
A colaboração internacional e o compartilhamento de conhecimento são cruciais para acelerar o desenvolvimento e a implementação de soluções para as voçorocas em escala global. A ciência continua a fornecer as ferramentas e o entendimento necessários para enfrentar esse desafio ambiental complexo.
5. Conclusão
As voçorocas, com sua capacidade destrutiva e seu avanço implacável, servem como um lembrete contundente da fragilidade dos nossos ecossistemas e da urgência de adotar práticas de manejo do solo e da água mais sustentáveis. A análise dos casos emblemáticos de Buriticupu (MA) e Morro do Ferro (MG) no Brasil, juntamente com as inovações e pesquisas recentes da ciência global, delineia um caminho claro para enfrentar esse desafio ambiental complexo.
Síntese dos Principais Pontos
Causas Multifatoriais: A formação das voçorocas é um resultado da interação de fatores naturais (tipo de solo, declividade, chuvas intensas) e, predominantemente, antrópicos (desmatamento, expansão urbana desordenada, manejo inadequado da água). A compreensão dessa complexidade é o primeiro passo para a formulação de soluções eficazes.
Impactos Devastadores: Os impactos das voçorocas são amplos e severos, abrangendo a perda de solo fértil, assoreamento de corpos d’água, destruição de infraestruturas, riscos à vida humana e degradação ambiental generalizada. Os custos de reparo são exorbitantes, tornando a prevenção a abordagem mais sensata e econômica.
Soluções Abrangentes e Integradas: O combate às voçorocas exige uma combinação de medidas preventivas (manutenção da cobertura vegetal, práticas agrícolas sustentáveis, manejo adequado das águas pluviais, planejamento territorial) e corretivas (reflorestamento, bioengenharia de solos, estruturas de contenção, preenchimento e drenagem interna). A chave para o sucesso reside na integração dessas abordagens e na adaptação às características específicas de cada local.
A Contribuição da Ciência e Tecnologia: A pesquisa científica, com o uso de inteligência artificial, aprendizado de máquina, sensoriamento remoto e SIG, tem aprimorado significativamente a capacidade de prever, monitorar e gerenciar a erosão de voçorocas. Essas ferramentas oferecem insights valiosos para a tomada de decisões e a implementação de soluções mais eficazes.
A Urgência da Colaboração: Os casos de Buriticupu e Morro do Ferro demonstram que a solução para as voçorocas não é apenas técnica, mas também social e política. A colaboração entre governos (em todos os níveis), comunidades locais, academia, setor privado e organizações não governamentais é indispensável para o desenvolvimento e a implementação de planos de ação abrangentes e de longo prazo. A conscientização e a participação da comunidade são cruciais para a sustentabilidade das intervenções.
Considerações finais
Para resolver o problema das voçorocas, é imperativo que a sociedade reconheça a gravidade e invista proativamente em soluções. Isso implica em:
Priorizar a Prevenção: Ações preventivas devem ser a base de qualquer estratégia, pois são mais eficazes e menos custosas a longo prazo.
Investir em Pesquisa e Inovação: Continuar a apoiar a pesquisa científica e o desenvolvimento de novas tecnologias para aprimorar a compreensão e o controle da erosão.
Fortalecer Políticas Públicas: Desenvolver e implementar políticas públicas robustas que promovam o planejamento territorial sustentável, o manejo adequado do solo e da água, e a fiscalização ambiental.
Promover a Educação e o Engajamento: Capacitar as comunidades e os tomadores de decisão com conhecimento e ferramentas para agir de forma responsável em relação ao meio ambiente.
Fomentar a Cooperação: Estabelecer parcerias multissetoriais para compartilhar conhecimentos, recursos e experiências, acelerando a implementação de soluções em escala.
As voçorocas são um desafio, mas também uma oportunidade para repensar nossa relação com o meio ambiente e construir um futuro onde a sustentabilidade seja a norma, e não a exceção. Ao aplicar o conhecimento científico, as lições aprendidas com os casos reais e o compromisso coletivo, podemos transformar essas cicatrizes na paisagem em exemplos de recuperação e resiliência ambiental.
Referências
[1] Comitê da Bacia do Baixo Tietê. Voçorocas: Desafios e Soluções para a Sustentabilidade Ambiental. Disponível em: https://comitebaixotiete.org/artigos/vocorocas-desafios-e-solucoes-para-a-sustentabilidade-ambiental/
[2] Brasil Escola. Voçoroca: o que é, causas, no Brasil, como recuperar. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/geografia/vocoroca.htm
[3] Sociedade Brasileira de Ciência do Solo. Há um arsenal de medidas técnicas para interromper a produção de voçorocas. Disponível em: https://www.sbcs.org.br/2025/02/19/ha-um-arsenal-de-medidas-tecnicas-para-interromper-a-producao-de vocorocas/
[4] ACES Illinois. Illinois study: Novel AI methodology improves gully erosion prediction and interpretation. Disponível em: https://aces.illinois.edu/news/illinois-study-novel-ai-methodology-improves-gully-erosion-prediction-and-interpretation
[5] Confea. SOLUÇÕES TÉCNICAS PARA RAVINAS E VOÇOROCAS PRESENTES NA ÁREA DA COMUNIDADE NOVO HORIZONTE. Disponível em: https://www.confea.org.br/midias/uploads imce/Contecc%202022/Civil/SOLU%C3%87%C3%95ES%20T%C3%89CNICAS%20PARA%20RAVINAS%20E%20VO%C3%87OROCAS
[6] G1 Globo. Entenda o que são as voçorocas que formam crateras e abismos de terra no Maranhão. Disponível em: https://g1.globo.com/ma/maranhao/noticia/2025/03/07/entenda-o-que-sao-as-vocorocas-fenomeno-que-provoca-abismos-de terra-e-ameaca-engolir-cidade-no-maranhao.ghtml
[7] O Globo. Voçoroca ameaça povoado de Morro do Ferro em Mnas Gerais. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/vocoroca-ameaca-povoado-de-morro-do-ferro-em-mnas-gerais-2922124
[8] Nature. A hybrid in situ and on-screen survey to monitor gully erosion across the European Union. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41597-025-05074-w

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.