
No Vozes do ESG de hoje, recebemos Rachel Maia, uma das líderes mais influentes do país quando o assunto é impacto social, diversidade e sustentabilidade. Fundadora e CEO da RM Cia 360 e da RM International Trade, Rachel construiu uma carreira sólida à frente de marcas globais como Lacoste, Pandora e Tiffany & Co., e hoje atua como presidente do Conselho de Administração do Pacto Global da ONU no Brasil, além de integrar conselhos de empresas como Vale e Hypera.
Reconhecida com o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade Estácio de Sá, ela também é a criadora do Instituto Capacita-me, que promove educação e empregabilidade para pessoas em situação de vulnerabilidade. Nesta entrevista exclusiva, Rachel fala sobre liderança com propósito, práticas de ESG e os caminhos para uma transformação real e duradoura.
A seguir, a íntegra da entrevista:
Você passou por cargos de liderança em empresas globais de grande relevância. De que forma essa vivência em ambientes corporativos competitivos influenciou sua visão sobre sustentabilidade, diversidade e responsabilidade social nos negócios?
Perceber de forma mais ampla que não partimos do mesmo ponto e, com isso, temos visões de mundo distintas foi marcante na minha trajetória para uma análise de tudo que engloba a sustentabilidade. Entendi ali a importância da responsabilidade social nas empresas e que a minha participação nessa mudança era necessária, pois já circulava em ambientes nos quais a minha fala e posicionamento tinham relevância.
Como o Pacto Global Brasil, sob sua liderança, tem atuado para engajar empresas em compromissos concretos de ESG e quais iniciativas você considera mais importantes nesse processo?
Entender que se trata de transformação — e que só é possível transformar dialogando — foi o meu primeiro entendimento e atuação. O segundo foi trazer o meu conhecimento em administração de grandes marcas para compreender a complexidade da mudança. E o terceiro foi atuar de maneira estratégica, compreendendo o macro para promover ações reais que estabeleçam novas práticas dentro das organizações.
Você tem um histórico de atuação em conselhos de grandes companhias, como Vale, Banco do Brasil e Grupo Soma. Na prática, como os conselhos podem influenciar de forma efetiva a transformação sustentável dentro das organizações?
Olhando para fora e reconhecendo que estamos diante da mudança necessária para seguir existindo. Práticas para preservação do meio ambiente e da sociedade não são mais uma escolha. É fundamental desenvolver novas práticas e nos unirmos de maneira estratégica e consciente. O debate e a ação envolvendo líderes e colaboradores sempre são caminhos que geram resultados assertivos.
Você fundou o Instituto Capacita-me para promover educação e empregabilidade a pessoas em situação de vulnerabilidade. Pode nos contar mais sobre os resultados e impactos desse projeto?
Sempre digo que precisamos oportunizar espaços para todos, e, quando digo isso, estou falando também que temos campos para criar e produzir em muitos setores. No Instituto Capacita-me, descobrimos jovens promissores para futuras lideranças, mas também oportunizamos conhecimentos e formação para mães empreendedoras, cuidadores, manicures, entre outras profissões que fazem parte do cotidiano da sociedade.
Em seus artigos e palestras, você fala sobre ESG racial e a importância de garantir que a diversidade não seja apenas simbólica. O que as empresas ainda precisam fazer para avançar nessa pauta?
Conhecer as estruturas da sociedade que produz e que consome seus produtos e serviços. Para isso, é necessário ter uma equipe especializada e engajada na transformação.Estabelecer metas já é um grande passo. A mudança acontece quando há intenção.
O conceito de impacto social e ambiental vem sendo ampliado para além do compliance, tornando-se estratégico. Como você enxerga o futuro do ESG no Brasil, especialmente com a pressão de investidores e consumidores?
A equidade e a inovação são os pontos altos dessa discussão. É impossível pensar em expansão da economia sem determinar um modus operandi que estabeleça esses dois pilares para o nosso futuro — que já se estabeleceu no presente. Negócios e pessoas caminham juntos.
Na sua visão, qual o papel das grandes marcas e do setor de luxo, onde você atuou fortemente, na promoção de uma moda mais circular, inclusiva e ambientalmente responsável?
As grandes marcas são conhecidas por ditarem a moda e também a maneira como a sociedade se percebe. Portanto, são importantes nessa transformação! Escolhas sustentáveis fazem parte do agora — quem não se atualizar ficará para trás.
Como mulher negra em posições estratégicas de liderança, você se tornou referência e inspiração para muitas pessoas. Qual conselho você daria para quem enfrenta barreiras estruturais para ocupar espaços de decisão?
Estabeleça seu lugar no mundo e não pare diante das adversidades. É fato que elas são muitas, mas existir para além das mazelas impostas pelas estruturas da sociedade é mais uma oportunidade de reescrever sua história.
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.