Um estudo internacional coordenado pela World Weather Attribution (WWA), rede global de cientistas que analisa a influência das mudanças climáticas em eventos extremos, mostra que 2025 foi marcado por impactos severos de ondas de calor, enchentes, secas e tempestades em todas as regiões do planeta. Mesmo com a presença de condições climáticas naturais mais amenas, como uma fase fria do El Niño, o aquecimento global provocado pela ação humana manteve as temperaturas em níveis historicamente elevados, intensificando desastres e ampliando desigualdades sociais.
O relatório analisa 22 eventos extremos ocorridos ao longo de 2025, entre eles ondas de calor, chuvas intensas, inundações, incêndios florestais e secas, além de revisitar episódios recentes à luz dos dez anos do Acordo de Paris. Segundo os pesquisadores, os dados confirmam que os impactos das mudanças climáticas já são uma realidade concreta, com efeitos diretos sobre vidas humanas, infraestrutura, segurança alimentar e economias locais.
Calor extremo foi o evento mais letal do ano
Entre os fenômenos analisados, as ondas de calor se destacam como os eventos mais mortais. O estudo aponta que, embora 2025 não tenha superado o recorde absoluto de temperatura de 2024, o ano ficou entre os mais quentes da história recente. Pela primeira vez, a média de temperatura global em um período de três anos ultrapassou o limite de 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais.
Na Europa, uma pesquisa citada no relatório estima que 24,4 mil pessoas morreram em decorrência do calor extremo durante os meses de verão, entre junho e agosto, em 854 cidades — o equivalente a cerca de 30% da população europeia. Em outras regiões do mundo, especialmente no Sul Global, a ausência de dados consolidados impede estimativas precisas, o que, segundo os cientistas, não significa que os impactos sejam menores.
Mulheres e populações vulneráveis sofrem os maiores impactos
Pela primeira vez, a WWA colocou mulheres e meninas no centro de uma análise sobre ondas de calor extremo, ao estudar um episódio registrado em fevereiro de 2025 no Sudão do Sul. A pesquisa concluiu que as mudanças climáticas tornaram a onda de calor 4 °C mais intensa do que seria em um clima sem aquecimento global.
No país, escolas chegaram a ser fechadas após dezenas de crianças sofrerem colapsos por estresse térmico. O estudo destaca que 95% das mulheres economicamente ativas trabalham no setor informal, muitas vezes em atividades expostas ao calor intenso, como agricultura e comércio de rua. Além disso, elas dedicam grande parte do tempo a tarefas domésticas não remuneradas, como buscar água e cozinhar, frequentemente em ambientes extremamente quentes.
Enchentes e chuvas intensas expõem falhas estruturais
As enchentes foram o tipo de evento mais frequente analisado em 2025, com oito estudos específicos. Casos graves foram registrados no Paquistão, Sri Lanka, Indonésia, Botsuana e na bacia do rio Mississippi, nos Estados Unidos. Em alguns países, no entanto, os cientistas não conseguiram estabelecer uma ligação direta entre as chuvas extremas e as mudanças climáticas devido à falta de dados meteorológicos confiáveis.
Segundo o relatório, a escassez de estações de monitoramento e a limitação dos modelos climáticos em várias regiões do Sul Global dificultam análises mais precisas. Além disso, fatores como urbanização acelerada, desmatamento e infraestrutura inadequada de drenagem aumentam significativamente os danos causados pelas chuvas intensas.
Adaptação tem limites, alertam cientistas
O estudo conclui que, embora medidas de adaptação — como sistemas de alerta, planejamento urbano e restauração de ecossistemas — sejam fundamentais, elas não são suficientes por si só. Eventos extremos cada vez mais intensos, como tempestades tropicais em pequenas ilhas do Caribe, mostram que há limites claros para a capacidade de adaptação das sociedades.
Desde a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, a temperatura média global já aumentou cerca de 0,3 °C, o que resultou, segundo os pesquisadores, em 11 dias adicionais de calor extremo por ano, em média. O relatório reforça que cada fração de grau importa e que a redução rápida das emissões de combustíveis fósseis é essencial para evitar impactos ainda mais severos nas próximas décadas.
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.