O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP) lançou o Relatório sobre a Lacuna de Adaptação 2025, intitulado “Running on Empty” (“Rodando no vazio”), e o diagnóstico é claro: o mundo está se mobilizando para a resiliência climática sem o dinheiro necessário para chegar lá.
Divulgado às vésperas da COP30, que será realizada em Belém (PA), o relatório revela uma lacuna crescente entre as metas de adaptação e o financiamento disponível, com risco de colapso das estratégias climáticas nos países em desenvolvimento.
Um retrato alarmante do financiamento climático
O relatório estima que os custos de adaptação nos países em desenvolvimento variam entre US$ 310 bilhões e US$ 365 bilhões por ano até 2035. Em contrapartida, o financiamento público internacional destinado à adaptação caiu de US$ 28 bilhões em 2022 para US$ 26 bilhões em 2023, segundo dados ajustados para preços de 2023.
Isso significa que o déficit anual é de até US$ 339 bilhões, e que os recursos disponíveis cobrem apenas 1/12 das necessidades.
O documento aponta ainda que o Pacto Climático de Glasgow, que previa dobrar o financiamento até 2025, dificilmente será cumprido, e o novo objetivo global de US$ 300 bilhões anuais até 2035 também é considerado insuficiente para atender às demandas combinadas de mitigação e adaptação.
Planejamento avança, mas de forma desigual
Atualmente, 172 países já possuem planos ou políticas nacionais de adaptação, mas 36 não atualizam seus instrumentos há mais de uma década, o que compromete sua efetividade diante das novas condições climáticas.
O relatório mostra avanços na integração da adaptação em políticas de desenvolvimento, especialmente em pequenos Estados insulares, que enfrentam riscos diretos de elevação do nível do mar. Contudo, em muitas nações, os planos permanecem apenas no papel.
A UNEP recomenda atualizações urgentes para evitar ações inadequadas — conhecidas como maladaptação — e garantir que as estratégias reflitam os riscos e vulnerabilidades atuais.
Participação do setor privado: potencial e limites
Segundo o relatório, o setor privado pode desempenhar papel relevante no fechamento da lacuna financeira, mobilizando entre US$ 45 e US$ 50 bilhões anuais até 2035.
Hoje, no entanto, os investimentos privados somam apenas US$ 5 bilhões por ano.
Para reverter esse cenário, a UNEP defende o uso de instrumentos financeiros inovadores, modelos de investimento misto (blended finance) e incentivos públicos que reduzam o risco de investimento em adaptação.
Mesmo assim, a organização alerta que o setor privado sozinho não será capaz de suprir a demanda, especialmente nos países mais pobres.
A proposta da “Baku a Belém Roadmap”
Um dos pontos centrais do Adaptation Gap Report 2025 é a “Baku to Belém Roadmap”, plano que será debatido durante a COP30.
A proposta pretende mobilizar até US$ 1,3 trilhão anuais até 2035 para financiar ações de mitigação e adaptação em países em desenvolvimento.
O documento enfatiza que os recursos devem ser prioritariamente em forma de doações e instrumentos não geradores de dívida, para evitar o agravamento da crise financeira das nações mais vulneráveis.
Investir em adaptação é investir no futuro
O relatório reforça que os benefícios econômicos da adaptação superam amplamente seus custos.
Cada US$ 1 investido em proteção costeira evita US$ 14 em danos futuros.
Além disso, soluções baseadas na natureza nas cidades podem reduzir temperaturas em mais de 1°C, mitigando os impactos das ondas de calor.
A diretora executiva do UNEP, Inger Andersen, destacou que “o investimento em adaptação agora é a escolha inteligente — ele salva vidas, reduz perdas econômicas e protege infraestruturas”.
Um chamado à ação antes da COP30
Com o tema “Running on Empty”, o relatório deixa um recado contundente:
“O mundo está se preparando para resistir às mudanças climáticas — mas sem combustível suficiente para chegar lá.”
A UNEP pede um “mutirão global”, expressão adotada pela presidência brasileira da COP30, para mobilizar recursos públicos e privados, aumentar a transparência dos relatórios nacionais e integrar a resiliência climática nas decisões financeiras globais.
Sem uma mudança estrutural, alerta o relatório, a lacuna de adaptação continuará a crescer, ampliando desigualdades e colocando em risco a segurança climática mundial.
Leia o relatório clicando aqui.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.