A Financial Conduct Authority (FCA), órgão regulador do Reino Unido, divulgou novas propostas para regular o setor de ESG ratings, buscando corrigir inconsistências que há anos preocupam investidores, gestores de ativos, empresas e formuladores de políticas públicas. A iniciativa segue a decisão do governo britânico de incluir oficialmente os provedores de classificações ESG no escopo da autoridade reguladora, uma medida apoiada por 95% dos participantes da consulta pública anterior.
O programa regulatório estabelece um regime que pode gerar aproximadamente £500 milhões em benefícios econômicos líquidos ao longo da próxima década. Com foco em transparência, governança, gestão de conflitos e engajamento de stakeholders, o Reino Unido pretende fortalecer sua posição em um setor global em rápida expansão, projetado para movimentar US$ 2,2 bilhões em 2025.
Mercado pressiona por mais clareza nas metodologias de ESG ratings
As classificações ESG se tornaram elementos centrais nas estratégias de alocação de capital, avaliação de riscos de portfólio, práticas de stewardship e exigências de divulgação regulatória. No entanto, o setor cresceu mais rápido do que a supervisão disponível. Pesquisa conduzida pela FCA revelou forte desconforto entre os usuários: 55% dizem se preocupar com a forma como os ratings são construídos e 48% apontam falta de transparência.
Esse cenário levou o regulador a agir, propondo um modelo capaz de reduzir riscos, aumentar a comparabilidade e melhorar a eficiência das decisões ao longo da cadeia de investimentos.
Um arcabouço regulatório baseado em quatro pilares
A proposta da FCA organiza as principais mudanças em quatro áreas estratégicas.
1. Transparência
Provedores de ESG ratings deverão divulgar informações mais claras sobre metodologias, fontes de dados, premissas utilizadas e limitações. O objetivo é garantir comparabilidade entre classificações e ampliar a visibilidade das empresas avaliadas sobre como suas notas são formadas.
2. Governança
A regulação exige estruturas mais robustas de governança, incluindo processos documentados de tomada de decisão, controles internos consistentes e mecanismos de supervisão que assegurem qualidade e coerência nos ratings.
3. Gestão de conflitos de interesse
Com muitos provedores oferecendo serviços adjacentes, cresce a preocupação com potenciais conflitos. A FCA estabelece exigências claras para identificação, gestão e divulgação desses conflitos, reforçando a integridade das avaliações.
4. Engajamento e canais de reclamação
As empresas deverão manter mecanismos estruturados de engajamento com stakeholders, além de canais formais para contestação de notas ou apresentação de queixas. Para o regulador, isso tende a reduzir disputas e fortalecer a credibilidade do sistema.
A FCA também reforça que as regras serão proporcionais ao porte e ao risco de cada provedor. Empresas menores, essenciais para a diversidade e a inovação do mercado, não enfrentarão as mesmas exigências impostas aos grandes players globais.
Reino Unido busca liderança em um mercado global em expansão
Com o aumento da demanda por dados ESG em estratégias de risco, decisões de investimento e exigências de disclosure corporativo, a confiabilidade dos ratings se tornou uma questão financeira relevante. As propostas da FCA dialogam com padrões internacionais, alinhando-se ao código de conduta voluntário do setor e às recomendações da IOSCO.
O alinhamento regulatório pretende melhorar a competitividade internacional do Reino Unido e reduzir barreiras para empresas que operam em múltiplas jurisdições, em um movimento que reflete o papel crescente da sustentabilidade nas estratégias industriais globais.
Sacha Sadan, diretor de finanças sustentáveis da FCA, afirmou que o novo marco regulatório aumentará a confiança no mercado. Ele declarou que as propostas darão aos usuários de ratings ESG maior confiança e ajudarão a impulsionar a transparência nas finanças sustentáveis, fortalecendo a posição do Reino Unido como um hub mundial do setor.
Impactos esperados para líderes corporativos e investidores
Se aprovado, o novo regime colocará o Reino Unido entre as primeiras grandes jurisdições a regular explicitamente os ESG ratings, influenciando outros mercados que estudam iniciativas semelhantes. Para empresas, metodologias mais claras podem redefinir como suas estratégias de sustentabilidade são avaliadas e percebidas por investidores, com impactos diretos no custo de capital e na competitividade.
Para gestores de ativos, a padronização tende a reduzir riscos operacionais e diminuir divergências entre provedores. No entanto, o ambiente regulado pode provocar mudanças nos critérios de seleção de fornecedores e nas práticas de stewardship. Executivos também devem se preparar para possíveis atualizações em fluxos de reporte regulatório, caso novas exigências de transparência alterem os dados utilizados pelas agências de rating.
Próximos passos e relevância global
A consulta pública permanece aberta até 31 de março de 2026. As regras finais devem ser publicadas no quarto trimestre de 2026, com implementação prevista para junho de 2028. A FCA afirmou que prestará apoio às empresas que buscarem autorização para atuar como fornecedoras de ESG ratings.
No cenário global de finanças sustentáveis, a iniciativa britânica reforça um movimento de alinhamento regulatório. À medida que dados ESG se tornam parte essencial da infraestrutura financeira, cresce a urgência por padrões que combinem inovação e integridade. O resultado desse processo influenciará não apenas como o capital é precificado, mas também como compromissos de sustentabilidade serão avaliados internacionalmente.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.