Um consórcio formado por algumas das maiores empresas globais lançou a Carbon Measures, uma coalizão que tem como objetivo desenvolver um padrão global e verificável para a contabilidade de carbono, aplicável a diferentes setores e produtos. A iniciativa busca corrigir as inconsistências nos atuais relatórios de emissões e permitir que governos, investidores e empresas tomem decisões climáticas baseadas em dados precisos e comparáveis.
Entre os membros fundadores estão ADNOC, Air Liquide, Banco Santander, BASF, Bayer, CF Industries, EQT Corporation, ExxonMobil, EY, BlackRock’s Global Infrastructure Partners (GIP), Honeywell, Linde, Mitsubishi Heavy Industries, Mitsui & Co., Mitsui O.S.K. Lines, NextEra Energy, Nucor, Porto de Roterdã e Vale. Novas adesões são esperadas nos próximos meses.
A Carbon Measures pretende aplicar a precisão da contabilidade financeira à gestão de carbono, criando um sistema baseado em registros (ledger) que reduz a contagem duplicada de emissões, preenche lacunas de dados e promove a comparabilidade global. Dessa forma, o projeto busca fortalecer o mercado de precificação de carbono e acelerar investimentos em tecnologias de baixo carbono.
De Relatórios a Impacto Mensurável
A coalizão terá como foco inicial dois eixos principais:
- Desenvolver uma metodologia universal de contabilidade de carbono;
- Definir padrões de intensidade de carbono para produtos industriais como eletricidade, combustíveis, aço, concreto e produtos químicos — que representam a maior parte das emissões industriais globais.
O novo marco metodológico pretende criar um sistema de medição rigoroso e verificável, voltado a investidores e reguladores, promovendo concorrência justa entre produtores que investem em inovação sustentável e permitindo que consumidores e governos avaliem o desempenho climático de forma transparente.
“O cálculo preciso e transparente das emissões de carbono é a base para ações climáticas efetivas”, afirmou Ana Botín, presidente do Banco Santander. “Esta iniciativa cria um método confiável e comparável globalmente para medir a intensidade de carbono em toda a cadeia de valor, acelerando a transição para uma economia de baixo carbono.”
Nova Liderança e Apoio do Setor Industrial
A coalizão será liderada por Amy Brachio, ex-vice-presidente global de Sustentabilidade da EY, nomeada como CEO da Carbon Measures. Durante sua gestão na EY, ela coordenou a estratégia global de sustentabilidade da empresa e liderou uma redução de 40% nas emissões corporativas.
“Dados de qualidade geram decisões de qualidade”, destacou Brachio. “Durante décadas, as empresas dependeram de sistemas baseados em estimativas e compromissos voluntários. O Carbon Measures vai estabelecer uma plataforma capaz de impulsionar mercados, investimentos e reduzir emissões com eficiência.”
O projeto já recebeu forte apoio de líderes empresariais.
François Jackow, CEO da Air Liquide, afirmou que a colaboração entre setores é “essencial para recompensar soluções de baixo carbono e aproveitar o poder dos mercados”.
Darren Woods, presidente e CEO da ExxonMobil, complementou:
“Se você não pode medir, não pode gerenciar. Hoje, não temos um sistema preciso para isso. Um padrão metodológico global é a base para mobilizar as forças de mercado e atender à crescente demanda por energia de forma responsável.”
Para Leon Topalian, CEO da Nucor Corporation, a iniciativa é “crítica para garantir a comparabilidade entre setores e apoiar um progresso confiável rumo à redução de emissões”.
Impactos na Governança Climática Global
O lançamento da Carbon Measures ocorre em um momento em que governos e investidores enfrentam crescente pressão para alinhar os sistemas de dados industriais às metas climáticas globais, como as do Acordo de Paris e do International Sustainability Standards Board (ISSB). Atualmente, os mecanismos de reporte de carbono são fragmentados e voluntários, o que gera resultados inconsistentes e limita sua utilidade para políticas públicas e decisões de investimento.
Um padrão global unificado pode preencher a lacuna entre as regulamentações nacionais e os relatórios corporativos, além de servir de base para ajustes de fronteira de carbono, harmonização comercial e financiamento baseado em desempenho ambiental.
Para executivos, o modelo poderá redefinir como a intensidade de emissões é precificada e gerenciada nas cadeias produtivas. Já para formuladores de políticas públicas, o sistema fornecerá dados comparáveis e confiáveis para embasar novas regulações.
Ao unir a precisão industrial à disciplina financeira, a Carbon Measures pretende estabelecer a infraestrutura necessária para uma economia de carbono transparente, na qual a integridade dos dados impulsione a concorrência, o investimento e a descarbonização global.
Fonte: ESG News

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.