A biodiversidade está no centro das atenções globais — dos ecossistemas à economia, das cadeias de valor aos relatórios ESG. No meio desse cenário, surge a norma ISO 17298:2025, que pela primeira vez oferece um padrão internacional para que organizações de todos os tipos e tamanhos incorporem a biodiversidade em sua estratégia, operações e cadeia de valor.
Neste artigo, explicamos o que a norma exige, por que ela importa, e como sua organização ou cliente pode caminhar da intenção à ação.
O que é a ISO 17298:2025?
A ISO 17298:2025 — “Biodiversity — Considering biodiversity in the strategy and operations of organizations — Requirements and guidelines” — é o resultado do trabalho do comitê técnico ISO/TC 331 (Biodiversidade) da International Organization for Standardization (ISO).
Ela foi publicada em outubro de 2025. Seu objetivo é oferecer uma estrutura prática, escalável, voluntária, que permita às organizações:
- entender suas dependências e impactos em biodiversidade;
- avaliar riscos e oportunidades relacionados à natureza;
- definir objetivos, monitorar progresso e integrar biodiversidade à governança e operações.
Em resumo: a norma transforma a biodiversidade de um tema “ambiental isolado” para uma peça estratégica da governança corporativa.
Por que essa norma importa?
1. Dependência econômica da natureza
Estima-se que mais da metade do PIB mundial — cerca de USD 44 trilhões — está moderada ou altamente dependente da natureza. Portanto, a perda de biodiversidade representa risco real para negócios, cadeias de suprimento, operações e reputação.
2. Lacuna de padronização
Antes da ISO 17298, embora existissem normas ambientais e de responsabilidade social (como ISO 14001 ou ISO 26000), não havia um padrão internacional dedicado especificamente à biodiversidade nas organizações. Com a ISO 17298, surge uma linguagem comum, um “checklist” global para biodiversidade.
3. Alinhamento com agendas globais
A norma está alinhada com o Kunming‑Montreal Global Biodiversity Framework (GBF) e com estruturas emergentes como Taskforce on Nature‑related Financial Disclosures (TNFD). Isso aumenta sua relevância para governos, investidores, reguladores e sociedade.
4. Oportunidades estratégicas
Integrar biodiversidade abre portas para financiamento verde, inovação de produtos, melhor relacionamento com stakeholders, e resiliência frente a riscos de natureza.
Principais elementos da ISO 17298:2025
Aqui está uma explicação dos principais componentes da norma (não replicando cada cláusula técnica, mas oferecendo visão prática).
Contexto da organização
A norma exige que a organização compreenda o contexto interno e externo influenciando sua relação com biodiversidade: ecossistemas locais, marcos regulatórios, partes interessadas, cadeia de valor, entre outros.
Liderança e governança
É fundamental que a alta direção se envolva, que haja clareza de papéis, responsabilidades e integração da biodiversidade na política organizacional e nos objetivos estratégicos.
Identificação de dependências e impactos
A norma orienta a mapear como a organização depende de serviços ecossistêmicos (água, solo, polinização, biodiversidade genética) e quais impactos gera (uso de recursos naturais, perda de habitat, poluição, etc.).
Avaliação de riscos e oportunidades
Aqui entram os chamados “nature-related risks” — riscos físicos (por exemplo, interrupção de cadeia de suprimento por perda de habitat), riscos regulatórios, reputacionais — e as oportunidades de negócio ligadas à natureza.
Planejamento e definição de objetivos
Após mapear dependências, impactos, riscos e oportunidades, a organização define objetivos mensuráveis, metas, e programas de ação coerentes. A norma incentiva o alinhamento com metas internacionais (como GBF).
Implementação operacional
Isso envolve implementar ações práticas: por exemplo, medidas de mitigação, restauração de ecossistemas, critérios de biodiversidade na cadeia de fornecedores, due diligence de projetos, cláusulas contratuais relacionadas à biodiversidade.
Monitoramento, medição e avaliação
A norma exige que a organização monitore e avalie seu desempenho em biodiversidade, com indicadores claros, revisões periódicas, registros documentados e transparência.
Comunicação e reporte
A transparência é peça-chave: comunicar abordagens, impactos, progresso para stakeholders, alinhando-se a relatórios ESG e exigências emergentes de divulgação relacionadas à natureza.
Melhoria contínua
Como qualquer sistema de gestão eficaz, a ISO 17298 adota o ciclo contínuo (plan-do-check-act) para revisar e aprimorar a abordagem de biodiversidade com o tempo.
Como aplicar a norma na prática (organização ou cliente)
Passo 1 – Diagnóstico rápido
- Identifique quais partes da empresa ou projetos têm maior interação com ecossistemas ou biodiversidade.
- Mapeie dependências críticas e impactos potenciais (ex: agricultura depende de polinização; construção impacta habitats; etc.).
Passo 2 – Engajamento de liderança e governança
- Garanta o apoio da alta direção.
- Nomeie uma “unidade biodiversidade” ou responsável que reporte à diretoria.
- Atualize a política de sustentabilidade/integridade para incluir biodiversidade.
Passo 3 – Estabelecimento de objetivos e programas
- Defina 2-3 objetivos prioritários de biodiversidade (curto/médio prazo) — por exemplo: “reduzir a área de habitat impactada em X% até ano Y”.
- Desenhe programa de ações com responsáveis, prazos, recursos.
Passo 4 – Integração operacional
- Incorpore critérios de biodiversidade nos processos de compras, fornecedores e licenciamento.
- Realize due diligence de projetos para avaliar biodiversidade.
- Considere alianças com ONGs, institutos de pesquisa ou parceiros locais para ação conjunta.
Passo 5 – Monitoramento e reporte
- Selecione indicadores (ex: hectares restaurados, número de habitats preservados, volume de água economizado, biodiversidade de espécies nativas) — o importante é mensurar.
- Estabeleça rotina de monitoramento (anual ou semestral) e revisão.
- Divulgue resultados em relatório de sustentabilidade ou “relatório biodiversidade”.
Passo 6 – Aprender e melhorar
- Revisite o plano regularmente, aprenda com os resultados, ajuste metas e escopo.
- Identifique novos riscos ou oportunidades à medida que o contexto muda (por exemplo: regulação, expectativas de investidores, tecnologias).
Benefícios para o seu negócio ou para seus clientes
Adotar a ISO 17298:2025 traz vários ganhos práticos:
- Fortalecimento da resiliência operacional e da cadeia de valor frente a riscos de natureza.
- Maior confiança de investidores e stakeholders que exigem reporte e ações concretas em biodiversidade.
- Alinhamento com exigências regulatórias emergentes (ex: divulgação de natureza, requisitos de financiamento).
- Diferenciação competitiva — empresas que integram biodiversidade se posicionam como líderes de sustentabilidade.
- Contribuição para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e para a meta global de conservação da natureza.
Cuidados e limitações
- Importante destacar: a ISO 17298 é voluntária, e não necessariamente um padrão de certificação obrigatório (embora possa servir de base para sistemas de certificação ou auditoria).
- Estar preparado para dedicar recursos (tempo, pessoas, sistemas) — implementação superficial pode gerar “greenwashing” ou expectativas não atendidas.
- Necessidade de adaptação local: biodiversidade tem forte componente geográfico/ecossistêmico. A norma exige que os locais de operação, prioridades e contexto sejam considerados.
- Indicadores quantitativos e de qualidade de biodiversidade ainda são um desafio para muitas organizações — será importante criar ou adotar boas métricas adaptadas ao contexto brasileiro/latino-americano.
- Como norma recente, a ISO 17298 ainda exigirá que organizações líderes façam “early adopters” e compartilhem boas práticas — ou seja, há menos casos de uso maduros para se inspirar.
Conclusão
A ISO 17298:2025 marca um divisor de águas para a biodiversidade no universo corporativo e institucional — ao elevar o tema de “bom-desejo” a algo estruturado, comparável e integrável à estratégia e operações. Para organizações que trabalham com ESG, sustentabilidade ou governança, não é mais suficiente dizer que se preocupam com a natureza: trata-se de agir de forma sistemática, mensurável e transparente.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.