Caso Google ilustra como os desafios do escopo 3 continuam elevando a pegada de carbono, apesar dos investimentos em energia limpa e eficiência.
Enquanto empresas globais avançam no uso de energia renovável e otimizam processos internos para reduzir sua pegada de carbono, uma barreira persistente continua dificultando o alcance de metas climáticas: as emissões da cadeia de suprimentos.
O caso da Google, divulgado nesta quarta-feira (10) em seu Relatório Ambiental de 2025, expõe com clareza essa contradição. A gigante da tecnologia conseguiu reduzir em 12% as emissões de seus data centers em 2024, mesmo com um aumento de 27% na demanda de energia impulsionada principalmente pelo crescimento de aplicações em inteligência artificial (IA). No entanto, suas emissões totais continuaram subindo, puxadas por um aumento de mais de 20% nas emissões do escopo 3, que incluem toda a cadeia de suprimentos.
Essa realidade é comum a muitas empresas que, apesar de esforços internos robustos, enfrentam grandes dificuldades para influenciar diretamente fornecedores, parceiros logísticos e fabricantes em diferentes regiões do mundo — especialmente em locais com infraestrutura energética ainda fortemente baseada em combustíveis fósseis.
Avanços internos x barreiras externas
Nos últimos anos, a Google tem se destacado entre as empresas com metas climáticas ambiciosas. Em 2020, lançou seu compromisso “24/7 CFE” (energia livre de carbono 24 horas por dia), com o objetivo de operar 100% com energia limpa até 2030 em todas as regiões onde atua. Em 2024, assinou acordos para adquirir mais de 8 GW de energia limpa, quase quatro vezes a sua necessidade adicional de eletricidade no período.
Essas ações permitiram um avanço expressivo na redução das emissões do escopo 2, que dizem respeito à energia comprada. No entanto, os resultados positivos contrastam com a dificuldade em conter as emissões indiretas da cadeia de valor, que hoje representam 73% da pegada de carbono da empresa e estão 25% acima dos níveis de 2019.
Entre os fatores apontados no relatório, está a localização de fornecedores estratégicos — especialmente de componentes como semicondutores, fabricados em países da Ásia-Pacífico. Nessa região, as redes elétricas ainda dependem fortemente de fontes fósseis, o que encarece e dificulta a transição energética dos fornecedores.
Ferramentas e incentivos para engajar fornecedores
Para tentar enfrentar o problema, a Google tem investido em soluções para influenciar sua cadeia produtiva. Entre as iniciativas, estão:
- Energy Assessment Tool: ferramenta que permite aos fornecedores avaliarem e melhorarem a eficiência energética de suas operações;
- Google Clean Energy Addendum (CEA): aditivo contratual que propõe que fornecedores utilizem eletricidade 100% limpa até o final de 2029;
- Investimentos em infraestrutura energética regional: como o apoio à empresa New Green Power (NGP), do portfólio da BlackRock, para desenvolver 1 GW em energia renovável em Taiwan — um importante polo da indústria de semicondutores.
Apesar desses esforços, a própria empresa admite que os obstáculos são significativos. Segundo Kate Brandt, Chief Sustainability Officer da Google:
“Agora temos uma compreensão mais clara do que é possível em diferentes partes do mundo, e de como podemos aplicar nossos recursos para gerar o maior impacto.”
O desafio do escopo 3 como tendência global
O cenário enfrentado pela Google não é único. Relatórios recentes de organismos internacionais e de auditorias como a CDP mostram que a maior parte das emissões corporativas hoje está concentrada no escopo 3, que inclui:
- Produção e transporte de insumos e materiais;
- Atividades de fornecedores e subcontratados;
- Uso e descarte dos produtos vendidos.
Como essas emissões envolvem terceiros, sua mensuração e controle são mais complexos, exigindo cooperação internacional, transparência nas cadeias e mudanças nos modelos de compra e produção.
Conclusão: a próxima fronteira da ação climática corporativa
Enquanto muitas empresas atingem ou se aproximam de metas de descarbonização em suas operações diretas, o verdadeiro desafio climático está se deslocando para áreas fora de seu controle imediato. A cadeia de suprimentos, com seus riscos regionais, tecnológicos e estruturais, se consolida como a próxima fronteira da ação climática corporativa.
O caso da Google mostra que reduzir as próprias emissões já não basta. Para enfrentar o aquecimento global, será preciso construir alianças mais fortes, repensar modelos de fornecimento e — principalmente — garantir que a transição energética também chegue aos elos mais distantes da cadeia.
Veja o reporte completo clicando aqui.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.