O Banco Africano de Desenvolvimento (AfDB) anunciou o pagamento de US$ 2 milhões a Moçambique referente ao seguro contra seca para a safra agrícola de 2025–2026, reforçando a preparação nacional frente aos impactos climáticos crescentes.
O pagamento faz parte do Programa Africano de Financiamento de Riscos de Desastres (ADRiFi), que já mobilizou mais de US$ 150 milhões em 16 países africanos, beneficiando mais de seis milhões de pessoas. A iniciativa integra seguros soberanos de risco climático aos marcos de políticas públicas, fortalecendo a capacidade dos governos de agir de forma preventiva diante de secas e inundações.
Finanças climáticas e segurança alimentar no centro do debate
O anúncio foi feito durante o Fórum de Financiamento de Riscos Climáticos e de Desastres de 2025, realizado em Maputo, entre 14 e 16 de outubro, com o tema “Construindo a Resiliência da África por meio do Financiamento Transformador de Riscos Climáticos e de Desastres”.
O evento reuniu autoridades do governo moçambicano, representantes do AfDB, doadores internacionais e organizações regionais, com o objetivo de ampliar a cobertura do ADRiFi e consolidar a cooperação entre países africanos na gestão de riscos climáticos.
ADRiFi: um modelo continental de resiliência climática
Lançado em 2018, o ADRiFi foi criado para aumentar a resiliência financeira dos países africanos, apoiando seguros soberanos contra riscos climáticos e incorporando o financiamento de desastres nas políticas orçamentárias nacionais.
O programa ajuda os governos a substituir respostas reativas por estratégias antecipatórias e baseadas em dados, oferecendo financiamento direto, subsídios a prêmios de seguros e capacitação técnica em modelagem de riscos e planejamento fiscal.
A African Risk Capacity (ARC) é responsável pela cobertura e pela liberação rápida dos recursos quando índices de seca ou enchente ultrapassam os limites estabelecidos. O financiamento vem de um Fundo Fiduciário Multidoadores apoiado pelo Reino Unido, Suíça, Canadá, Noruega e Países Baixos.
Seguro climático como instrumento de proteção social
Durante o fórum, Albertina Fruquia Fumane, secretária permanente do Ministério das Finanças de Moçambique, recebeu simbolicamente o cheque do novo pagamento do seguro. Ela destacou que o mecanismo é “um instrumento estratégico de antecipação que permite proteger os mais vulneráveis, preservar a estabilidade social e reduzir impactos econômicos de choques climáticos recorrentes.”
Já Andrew Mude, líder do AfDB em Financiamento Agrícola e Resiliência Climática, afirmou que o crescimento do ADRiFi reflete a urgência de escalar mecanismos preventivos.
“Os impactos climáticos estão se intensificando em toda a África. O ADRiFi já mobilizou mais de US$ 150 milhões e protegeu milhões de pessoas — uma prova de que soluções financeiras estratégicas podem salvar vidas e meios de subsistência”, destacou Mude.
Liderança africana e impacto em campo
A embaixadora Elsbeth Akkerman, representante dos doadores do ADRiFi, reforçou que o protagonismo dos governos africanos tem sido essencial para o sucesso do programa.
Delegações também visitaram comunidades afetadas pela seca no distrito de Magude, em Maputo, observando como os pagamentos de seguro possibilitam ações rápidas, como a distribuição de sementes, rações e proteção social para famílias com perda de safra.
Segundo Gabriel Belem Monteiro, vice-presidente do Instituto Nacional de Gestão e Redução de Riscos de Desastres (INGD), o fórum representou uma oportunidade estratégica para fortalecer capacidades, alinhar políticas e consolidar a liderança africana em gestão de riscos de desastres.
Anthony Mothae Maruping, presidente do conselho da ARC, destacou que a participação contínua de Moçambique serve como exemplo regional:
“Quando a África lidera com visão e unidade, a África vence.”
Seguro paramétrico e ação antecipada: o futuro da adaptação climática
Para Claire Conan, diretora do Programa Mundial de Alimentos (PMA) em Moçambique, o seguro paramétrico representa mais do que uma ferramenta financeira — é um compromisso com a ação antecipada baseada em evidências.
“Agir cedo, com eficiência e base em dados é não apenas uma boa prática — é um imperativo moral e econômico”, afirmou.
Com perdas anuais estimadas entre US$ 7 e 15 bilhões devido a secas, enchentes e ciclones, expandir a cobertura de seguros climáticos soberanos é um pilar central das estratégias de adaptação da África.
O modelo ADRiFi, que combina financiamento multilateral, recursos de doadores e execução local, torna-se uma referência global para o gerenciamento de riscos climáticos.
Integração de finanças climáticas na governança africana
À medida que o continente avança na Estratégia da União Africana para Mudanças Climáticas e Desenvolvimento Resiliente (2022–2032), o ADRiFi ganha relevância como instrumento de proteção fiscal e estabilidade econômica.
Ao integrar o financiamento de riscos climáticos aos marcos de governança nacional, os países africanos constroem respostas mais previsíveis, autossuficientes e sustentáveis às mudanças climáticas, reforçando a resiliência socioeconômica do continente.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.