
O ano de 2024 marcou o Rio Grande do Sul com uma série de eventos climáticos extremos, deixando um rastro de destruição e afetando milhares de famílias. Em meio a essa adversidade, o Sistema Nacional de Fomento (SNF), liderado pela Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE), emergiu como um pilar fundamental na reconstrução e na construção de um futuro mais resiliente e sustentável para o estado.
Esta reportagem explora a atuação estratégica do SNF e de suas instituições financeiras de desenvolvimento (IFDs) na mobilização de recursos e na implementação de projetos que visam não apenas a recuperação imediata, mas também a adaptação do Rio Grande do Sul às novas realidades climáticas.
O SNF e a ABDE como motores do Desenvolvimento
O Sistema Nacional de Fomento (SNF) é uma rede robusta de 34 instituições financeiras, incluindo bancos públicos federais, bancos de desenvolvimento regionais e agências de fomento estaduais. Sua missão é impulsionar o desenvolvimento econômico e social do Brasil, atuando em diversas frentes, desde grandes projetos de infraestrutura até o apoio a micro e pequenas empresas e o agronegócio.
Em 2024, o SNF demonstrou seu compromisso com a sustentabilidade ao direcionar mais de R$ 652,5 bilhões em financiamentos para projetos alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU [1]. As IFDs do SNF integram políticas de responsabilidade socioambiental e climática, oferecendo linhas de crédito “verdes” e “sustentáveis” para iniciativas que promovem a agricultura de baixo carbono, cidades resilientes, eficiência energética e energias renováveis. Essa atuação contribui diretamente para o progresso de ODS como o ODS 9 (Indústria, Inovação e Infraestrutura), ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e ODS 8 (Trabalho Decente e Crescimento Econômico).
A Associação Brasileira de Desenvolvimento (ABDE) desempenha um papel crucial na articulação e fortalecimento do SNF. A associação promove debates, estudos e capacitação, além de atuar na atração de recursos internacionais. Um exemplo notável é a emissão de mais de R$ 1,9 bilhão em títulos verdes e sustentáveis por instituições de fomento, como BNDES, BDMG, Banco do Brasil e Sicredi [1].
Investimentos no Rio Grande do Sul: A Resposta do Fomento Pós-Desastre
Diante dos desastres climáticos, o SNF, por meio de suas IFDs, tornou-se indispensável para a recuperação do Rio Grande do Sul. Os investimentos são abrangentes, focando na reconstrução da infraestrutura, no apoio à população e na promoção de um desenvolvimento resiliente.
O Papel Estratégico do Badesul
O Badesul Desenvolvimento tem sido protagonista na concessão de crédito para o estado. Em 2024, a instituição concedeu R$ 758,3 milhões em crédito, superando a meta inicial de R$ 535 milhões [2]. Esse montante foi direcionado para os setores público, empresarial e rural, impulsionando a recuperação econômica. O Badesul prorrogou prazos de pagamento, disponibilizou linhas de crédito emergenciais e renegociou contratos com prefeituras afetadas. A distribuição dos créditos em 2024 foi:
- Negócios Empresariais: R$ 251,6 milhões
- Agronegócio: R$ 232,6 milhões
- Setor Público: R$ 206,8 milhões
- Micro e Pequenas Empresas (MPEs): R$ 67,1 milhões
Para 2025, o Badesul planeja ampliar os recursos para projetos com soluções baseadas na natureza e fortalecer o ecossistema de inovação, com R$ 117,1 milhões via Finep para projetos inovadores [2].
O Programa TrilhaRS: Matchfunding para a Regeneração
Uma iniciativa inovadora é o programa TrilhaRS, lançado pelo RegeneraRS em parceria com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Este programa de matchfunding visa apoiar soluções transformadoras para os desafios da transição climática no estado. Com um aporte financeiro que pode chegar a R$ 1 milhão, o TrilhaRS seleciona projetos em áreas como habitação, soluções urbanas, saúde mental, educação e negócios regenerativos [3].
O mecanismo de matchfunding triplica as doações: para cada R$ 1 arrecadado por um projeto, o TrilhaRS investe mais R$ 2 (R$ 1 do RegeneraRS e R$ 1 do BRDE), podendo mobilizar até R$ 1,5 milhão em apoio direto aos projetos. O programa fortalece a sociedade civil, incentivando a cocriação de soluções inovadoras para um Rio Grande do Sul mais resiliente e inclusivo [3].
O Plano Rio Grande: Um Mapa de Bilhões para a Reconstrução
O Governo do Estado do Rio Grande do Sul elaborou um abrangente Plano de Investimentos, com um montante total de R$ 14.393.141.533,04, provenientes da postergação da dívida do Estado com a União [4]. O plano visa não apenas a reconstrução, mas também a adaptação do estado a eventos climáticos extremos. Os investimentos estão distribuídos em seis eixos estratégicos:
| Eixo de Investimento | Valor (R$) |
| Governança | 169.000.000,00 |
| Diagnóstico | 139.758.785,26 |
| Emergencial | 686.426.651,52 |
| Resiliência | 1.574.414.507,89 |
| Preparação | 1.298.226.594,63 |
| Recuperação | 10.424.784.935,10 |
| TOTAL | 14.292.611.474,40 |
O Eixo Recuperação concentra a maior parte dos recursos, totalizando mais de R$ 10,4 bilhões. Ele foca na reconstrução de infraestruturas e serviços essenciais, como escolas, pontes, prédios públicos e rodovias. Programas habitacionais como o “A Casa é Sua” são cruciais para a construção de moradias dignas para as famílias desabrigadas [4].
Desafios e Oportunidades: Forjando um Futuro Resiliente
A reconstrução do Rio Grande do Sul é um desafio histórico, mas também uma oportunidade para construir um futuro mais resiliente e inovador. Os desafios incluem a escala da destruição, a crescente vulnerabilidade climática, a gestão transparente dos recursos, a coordenação entre os níveis de governo e os impactos sociais e psicológicos dos desastres.
No entanto, a crise impulsiona a inovação em infraestrutura, com a adoção de soluções de engenharia verde e tecnologias avançadas para sistemas de drenagem e captação de água. O fortalecimento da governança climática, com plataformas de integração de dados, é crucial. A mobilização de recursos e parcerias estratégicas, como a atuação do SNF e o programa TrilhaRS, demonstram a capacidade de atrair investimentos e engajar a sociedade civil. A promoção da economia verde e da bioeconomia pode gerar novos empregos e diversificar a base econômica do estado. A capacitação e o engajamento da população são fundamentais para construir uma cultura de resiliência.
Nesse contexto, programas educacionais sobre mudanças climáticas e gestão de riscos, integrados aos currículos escolares, são essenciais. Campanhas de conscientização pública informam sobre riscos e medidas de prevenção, capacitando os cidadãos a agir proativamente. A conscientização também se estende aos tomadores de decisão, que devem priorizar investimentos em resiliência e adaptação, integrando a gestão de riscos climáticos nas políticas de planejamento urbano.
O Legado da Resiliência
A experiência do Rio Grande do Sul, com seus desafios e a notável resposta do Sistema Nacional de Fomento, oferece lições valiosas para o desenvolvimento sustentável e a construção de resiliência. O SNF, por meio de instituições como Badesul e BRDE, demonstrou ser um ator insubstituível na mobilização de recursos e no direcionamento estratégico de investimentos para a recuperação e adaptação do estado. O Plano de Investimentos, com seus bilhões de reais, reflete um compromisso inequívoco em restaurar a infraestrutura, as moradias e a vitalidade econômica.
No entanto, a magnitude dos desafios climáticos exige uma abordagem contínua e proativa. A reconstrução é um processo dinâmico que demanda planejamento estratégico, governança transparente e participação social. É imperativo investir em infraestruturas mais resilientes, sistemas de alerta precoce e soluções baseadas na natureza. A tragédia pode ser transformada em um catalisador para uma transformação profunda e duradoura, construindo um legado de sustentabilidade para as próximas gerações. O futuro do Rio Grande do Sul, e do Brasil, dependerá da nossa capacidade de aprender com a experiência, inovar nas soluções e promover uma colaboração efetiva entre todos os atores envolvidos.
Referências
[1] ABDE. (2024, 5 de junho). O Papel Vital do Sistema Nacional de Fomento (SNF) no Desenvolvimento Sustentável do Brasil. Recuperado de https://abde.org.br/o-papel-vital-do-sistema-nacional-de-fomento-snf-no-desenvolvimento-sustentavel-do-brasil/
[2] ABDE. (2025, 4 de fevereiro). Badesul concede R$ 758,3 milhões em crédito para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul em 2024. Disponível em: https://abde.org.br/badesul-concede-r-7583-milhoes-em-credito-para-o-desenvolvimento-do-rio-grande-do-sul-em-2024/
[3] ABDE. (2025, 22 de julho). BRDE e RegeneraRS lançam programa de matchfunding para acelerar reconstrução no Rio Grande do Sul. Disponível em: https://abde.org.br/brde-e-regenerars-lancam-programa-de-matchfunding-para-acelerar-reconstrucao-no-rio-grande-do-sul/
[4] Governo do Estado do Rio Grande do Sul. (2025, 31 de janeiro). Plano de Investimentos (Versão 03). Secretaria da Reconstrução Gaúcha. Disponível em: https://admin.planoriogrande.rs.gov.br/upload/arquivos/202504/22144200-serg-plano-de-investimentos-v3-1.pdf

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.