A dinamarquesa Ørsted se tornou a primeira empresa global do setor de energia a completar integralmente sua transformação verde, cumprindo sua meta de descarbonização baseada na ciência para 2025. A companhia alcançou uma redução de 98% nas emissões de Escopos 1 e 2 e 99% de participação em energia renovável.
Após mais de uma década de transformação, a Ørsted passou de uma das empresas mais intensivas em combustíveis fósseis da Europa para uma líder mundial em energia eólica offshore. Essa conquista, confirmada enquanto líderes globais se reúnem no Brasil para a COP30, posiciona a empresa como referência mundial em transição energética completa.
De gigante fóssil a pioneira em energia renovável
A transição da Ørsted começou em 2009, quando a empresa decidiu mudar seu modelo de negócios (abandonando petróleo, gás e carvão) e focar em energia eólica, solar e bioenergia.
Em 2017, a companhia se comprometeu a eliminar totalmente o uso de carvão, e em 2021 tornou-se a primeira empresa de energia com meta de emissões líquidas zero em toda a cadeia de valor, validada pela Science Based Targets initiative (SBTi).
Desde então, a Ørsted instalou mais de 18 GW de capacidade renovável, encerrou ou converteu todas as usinas a carvão, vendeu ativos de petróleo e gás, eletrificou sua frota de veículos e passou a operar 100% com energia elétrica proveniente de fontes renováveis.
O resultado é uma das maiores reduções de emissões do setor elétrico global, com intensidade operacional de cerca de 4 gramas de CO₂ por quilowatt-hora, um marco histórico na descarbonização da energia.
Governança, capital e alinhamento climático
A transformação da Ørsted foi sustentada por uma governança corporativa sólida, estratégia de investimento coerente e metas climáticas claras.
A responsabilidade da alta liderança pela descarbonização foi incorporada às métricas de desempenho corporativo, enquanto o capital passou a ser direcionado para a expansão da energia eólica offshore e o fortalecimento da sustentabilidade na cadeia de suprimentos.
A empresa financiou essa transição por meio de títulos verdes (green bonds) e parcerias público-privadas, tornando-se um exemplo para investidores que buscam evidências de que grandes corporações podem lucrar com modelos de negócios de baixo carbono.
Os executivos da Ørsted reforçam a importância de políticas públicas estáveis e previsíveis para garantir investimentos privados em larga escala, tema que está no centro das discussões da COP30.
Além dos Escopos 1 e 2: o desafio da cadeia de suprimentos
Embora tenha concluído a descarbonização operacional, o próximo desafio da Ørsted está nas emissões do Escopo 3, relacionadas à sua cadeia de fornecimento.
A empresa se comprometeu com uma meta de emissões líquidas zero até 2040, incluindo reduções significativas nas emissões associadas ao aço, cobre e combustíveis marítimos.
Um novo roteiro estratégico define parcerias com fornecedores e empresas do setor para desenvolver materiais de baixo carbono e soluções logísticas mais limpas.
Essas iniciativas visam descarbonizar todas as etapas da energia eólica offshore, abordando o carbono incorporado nas infraestruturas, tema cada vez mais relevante no cenário global.
Lições para executivos e investidores
Para líderes empresariais e investidores, a trajetória da Ørsted mostra que é possível realizar uma transformação rápida e alinhada à ciência climática, quando estratégia, incentivos e políticas públicas caminham juntas.
A empresa alcançou, em apenas 15 anos, o que muitas concessionárias previam levar meio século.
O avanço também redefine os parâmetros da credibilidade climática: conquistas em Escopos 1 e 2 são agora o ponto de partida, não o de chegada.
O verdadeiro desafio está em reduzir as emissões embutidas na cadeia de suprimentos e nos materiais, que será o diferencial de liderança até 2040 e além.
Um modelo para a COP30 e para o futuro da energia limpa
Durante a COP30, a transição da Ørsted serve como inspiração e referência global.
Ela comprova que a descarbonização completa da geração de energia pode ser alcançada em um único ciclo corporativo, quando há sinergia entre regulação, financiamento e tecnologia.
A evolução da Ørsted, de uma tradicional empresa fóssil a líder mundial em energia renovável, fornece um modelo para países e empresas da Ásia, América Latina e África ainda dependentes do carvão.
O sucesso da empresa reforça uma mensagem clara e urgente: a eletrificação acelerada por meio de fontes renováveis é viável técnica e economicamente, desde que os governos ofereçam estabilidade regulatória e segurança ao investimento privado.
Com 98% de redução nas emissões e quase 100% de energia renovável, a Ørsted conclui com êxito sua transição verde completa.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.