Pesquisadores da USP mobilizam população para proteger coruja-buraqueira ameaçada pela urbanização

Projeto da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto alerta para soterramento de ninhos e destaca papel da espécie no controle de pragas urbanas; pesquisadores criaram formulário on-line para população

Texto: Rose Talamone

O avanço da urbanização sobre áreas rurais e periurbanas, ou seja, zonas de transição entre o espaço urbano consolidado e o meio rural, tem imposto desafios à conservação da fauna brasileira, especialmente na faixa de encontro do Cerrado e Mata Atlântica. Nesse cenário, pesquisadores da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP apostam na participação social como estratégia para sensibilizar a população sobre a preservação da Athene cunicularia, a popular coruja-buraqueira.

Frequentemente considerada adaptada ao ambiente urbano, a espécie já apresentou declínio e até extinção em áreas urbanas consolidadas da América do Norte, além de perda de conectividade genética. Esse cenário motivou políticas de recuperação no Canadá, com meta de ao menos 3 mil pares reprodutores e foco na proteção de habitat e redução de pesticidas. O histórico internacional serve como alerta, já que a presença visível da espécie não garante estabilidade populacional e pode ocultar impactos associados à expansão urbana.

A iniciativa é do Laboratório de Etologia e Bioacústica (Ebac) da FFCLRP e inclui monitoramento de ninhos em Ribeirão Preto e no distrito de Bonfim Paulista, com atenção à região do Parque Olhos d’Água, onde a urbanização substitui rapidamente áreas rurais e plantações de cana-de-açúcar. Nesse contexto, o estudo investiga a plasticidade fenotípica da espécie e seus limites diante das pressões urbanas.

Segundo a professora Patrícia Ferreira Monticelli, coordenadora do laboratório e orientadora do trabalho, “a plasticidade fenotípica é a capacidade de um organismo ajustar comportamento, fisiologia ou morfologia em resposta ao ambiente, sem mudanças genéticas imediatas. Não se trata de um processo evolutivo”. Essa capacidade pode ter valor adaptativo e decorrer de aprendizagem ao longo da vida do indivíduo.

O doutorando do Ebac Mauro Monteiro Cazentine acrescenta que a coruja-buraqueira apresenta mudanças comportamentais em ambientes urbanos, incluindo ajustes nos horários de atividade, aumento da tolerância à presença humana e alterações na dieta conforme a disponibilidade de presas.

Apesar disso, há limites adaptativos. Patrícia destaca que “não há plasticidade que vença a frequência com a qual tocas são soterradas pela construção e não se conhece a possibilidade de criar resistência à contaminação por pesticidas”, indicando que a adaptação comportamental não impede o declínio quando a mortalidade supera a capacidade reprodutiva.

Sinantropia e falsa sensação de segurança

Nesse contexto, a coruja-buraqueira é frequentemente classificada como espécie sinantrópica, associada a ambientes humanos e usuária de áreas abertas urbanas. Cazentine explica que essa classificação pode gerar falsa percepção de segurança populacional, pois a presença visível não garante viabilidade a longo prazo.

Em Ribeirão Preto, ele relata que “a urbanização provoca alterações comportamentais como maior exposição diurna, mais tempo fora do ninho e em vigilância, uso de estruturas artificiais como postes e placas de trânsito e maior tolerância à presença humana”.

Essas mudanças coexistem com ameaças diretas, incluindo atropelamentos, perda de ninhos por obras, redução de áreas de forrageamento e aumento da predação por cães, gatos, gambás e teiús. O pesquisador acrescenta que ainda há mortes associadas a crenças culturais que atribuem mau agouro à espécie.

Casal de corujas e seus filhotes – Foto: José Fonseca/ Wikimedia Commons

Participação social

Entre os riscos menos visíveis está o soterramento de ninhos durante obras civis. Terrenos licenciados podem permanecer vazios por anos e serem ocupados pelas corujas antes do início das construções. “A ausência de nova triagem ambiental faz com que tocas sejam interpretadas como abandonadas. Chega o trator, mexe em toda aquela terra, os filhotes vão ser soterrados vivos e ninguém fica sabendo que animais foram mortos ali por causa dessa falta de informação”, diz Patrícia.

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem instrumentos jurídicos específicos para proteção das tocas, equiparando-as à proteção já existente para árvores ameaçadas. A coordenadora destaca que a espécie presta serviços ecossistêmicos relevantes ao controle de pragas urbanas, alimentando-se de baratas, escorpiões, ratos e camundongos. “A presença de tocas em áreas urbanas pode representar troca de serviços entre espécies, com benefício ao controle biológico natural”, garante.

Ninhos de corujas-buraqueiras são soterrados em obras – Foto: Mr Snrub /Wikimedia Commons

Nesse sentido, a participação social é apontada como eixo central do trabalho. Cazentini explica que a população pode colaborar indicando a localização de tocas por meio de formulário on-line divulgado nas redes do grupo de pesquisa. Patrícia acrescenta que a retomada de placas informativas em áreas de ocorrência e a participação conjunta da população e do poder público são essenciais para monitoramento e comunicação de perturbações às autoridades ambientais.

Os pesquisadores lembram que perturbar, capturar ou causar danos à fauna silvestre constitui crime ambiental passível de punição. Ao integrar monitoramento naturalístico, bioacústica, genética, análise trófica e ações educativas, o estudo busca ampliar a percepção pública sobre a espécie e oferecer subsídios para políticas públicas voltadas à coexistência entre sociedade e fauna silvestre em paisagens urbanizadas.

Dieta e análise isotópica

Como parte da abordagem científica que sustenta as ações de sensibilização, o Ebac utiliza, com a colaboração da ornitóloga Ana Carla Aquino, análise de isótopos estáveis de carbono e nitrogênio, técnica que identifica a dieta dos animais por marcas químicas nos tecidos das corujas. Cazentini explica que “o que a coruja come deixa uma marca isotópica nos tecidos, penas, sangue ou regurgito”, permitindo distinguir presas urbanas, agrícolas e naturais e avaliar mudanças tróficas decorrentes da urbanização.

Outro eixo envolve monitoramento bioacústico. Os pesquisadores afirmam que “as vocalizações indicam defesa territorial, contato entre parceiros, alerta sobre predadores e presença de filhotes, além de fornecer sinais sobre reprodução ativa e níveis de estresse populacional”. Destacam ainda que “o ruído urbano pode interferir na comunicação, dificultar encontros reprodutivos e contribuir para isolamento genético”.

A produtividade reprodutiva e a diversidade genética são parâmetros centrais do estudo. Uma população saudável mantém reprodução frequente, produz cerca de três filhotes por ninhada e garante sobrevivência até a idade reprodutiva. Cazentini alerta que a fragmentação urbana pode aumentar a consanguinidade e tornar a espécie mais vulnerável a doenças, mudanças climáticas e perturbações locais.

Fonte: Jornal da USP