O governo britânico lançou seu primeiro Plano Nacional de Empregos em Energia Limpa, que prevê a criação de 400 mil novas vagas até 2030. A medida faz parte da meta de transformar o país em uma “superpotência da energia limpa”.
A estratégia detalha como governo, indústria e sindicatos trabalharão juntos para desenvolver uma força de trabalho capaz de construir, operar e manter a crescente infraestrutura de energia renovável e de baixo carbono do país.
Atualmente, cerca de 440 mil pessoas atuam em setores de energia limpa. O plano prevê que esse número chegue a 860 mil até o fim da década, refletindo o avanço contínuo da energia eólica, solar, nuclear, captura de carbono e eficiência energética. Essas áreas já oferecem salários médios superiores a £50 mil, cerca de 35% acima da média nacional.
Formação e capacitação para a transição energética
Para atender à nova demanda, o governo criará cinco Colégios Técnicos de Excelência em Energia Limpa, com investimento superior a £100 milhões em formação de engenheiros.
Além disso, £1,2 bilhão por ano será destinado à formação de 1,3 milhão de jovens, incluindo 65 mil novos alunos por ano até 2028–2029.
O plano identifica 31 ocupações prioritárias — entre elas encanadores, soldadores, gerentes de projeto e engenheiros elétricos — que deverão representar quase 40% das funções diretas no setor até 2030.
Regiões como Cheshire, Lincolnshire e Pembrokeshire receberão £2,5 milhões em programas de capacitação e centros de carreira, enquanto trabalhadores do setor de petróleo e gás da Escócia e do Mar do Norte terão £20 milhões em apoio para requalificação profissional.
O Energy Skills Passport, iniciativa criada para ajudar engenheiros offshore a migrar para o setor renovável, será ampliado para as áreas nuclear e de redes elétricas.
Investimentos regionais e geração de empregos
Segundo o Departamento de Segurança Energética e Emissões Líquidas Zero (DESNZ), a demanda por profissionais será mais alta na Escócia, Leste da Inglaterra e Noroeste, com previsão de 50 a 60 mil empregos diretos em cada região até 2030.
Projetos emblemáticos já impulsionam o crescimento regional: a usina nuclear Sizewell C, em Suffolk, empregará 10 mil pessoas no pico da construção, enquanto os projetos de captura de carbono Acorn e Viking devem gerar 35 mil empregos combinados.
Desde julho de 2024, investimentos em energia limpa somam £50 bilhões em todo o Reino Unido.
Trabalho justo e qualidade no emprego
O plano britânico destaca não apenas a criação de empregos, mas também a garantia de condições dignas e salários justos. A legislação será atualizada para alinhar a proteção de trabalhadores offshore do setor renovável com a do setor de petróleo e gás, expandindo a cobertura do salário mínimo nacional para além das águas territoriais.
Uma nova Carta de Trabalho Justo, desenvolvida em parceria com sindicatos e o setor eólico, vinculará o financiamento público a remuneração justa, negociação coletiva e direitos trabalhistas fortalecidos.
Critérios de trabalho digno também serão incorporados em subsídios do setor energético, incluindo o Bônus da Indústria Limpa, para assegurar que empresas beneficiadas com recursos públicos adotem práticas de trabalho justo e sustentável.
Crescimento inclusivo e mobilidade social
O plano prevê ações específicas para veteranos, jovens e ex-detentos, reconhecidos por possuírem habilidades transferíveis para o setor de energia limpa.
Na região Leste da Inglaterra, onde mais de 60 mil pessoas devem ingressar no setor até 2030, serão implementados programas-piloto de reintegração para veteranos.
Para os jovens, os empregos iniciais em energia limpa oferecem salários 23% mais altos do que cargos equivalentes em outros setores, abrindo caminho para melhores rendas e segurança profissional de longo prazo.
Contexto global e econômico
Atualmente, o Reino Unido ainda está atrás da Alemanha e dos países escandinavos em número de empregos por habitante no setor de energia renovável — até cinco vezes menos vagas por capita.
Com o novo plano, o país busca reduzir essa diferença por meio de uma política industrial e de qualificação integrada, supervisionada pelo Escritório de Empregos em Energia Limpa, responsável por alinhar dados, políticas e diálogo sindical.
Para investidores e empresas, o plano oferece previsibilidade na formação da força de trabalho até 2030 e sinais claros de cofinanciamento governamental. Já para formuladores de políticas, representa um modelo replicável de governança trabalhista na transição para o net zero.
Uma transição justa e sustentável
O objetivo central do plano é garantir que os benefícios da descarbonização sejam distribuídos de forma justa, abrangendo regiões, faixas de renda e gerações.
Ao incorporar negociação coletiva, acesso à capacitação e padrões de remuneração justa, o Reino Unido posiciona a transição energética não apenas como uma necessidade ambiental, mas como pilar de um novo modelo de crescimento inclusivo.
Como afirmou o secretário de Energia Ed Miliband, “os empregos em energia limpa estão em todos os lugares — em cada comunidade costeira e industrial, em cada cidade e região. Este plano levará novas oportunidades diretamente às portas das pessoas.”

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.