Em um marco histórico para a cooperação climática global, Noruega e Suíça assinaram o primeiro acordo internacional de remoção e armazenamento de carbono sob o Artigo 6.2 do Acordo de Paris, utilizando a estrutura do ambicioso projeto norueguês Longship, considerado o maior empreendimento europeu de captura e armazenamento de carbono (CCS) em escala industrial.
O tratado permite que a Suíça remova legalmente suas emissões de CO₂ por meio de captura e armazenamento em território norueguês, criando um modelo replicável de mercado de carbono bilateral, com foco em alta integridade ambiental e rastreabilidade internacional.
Longship: a base da nova infraestrutura climática da Europa
O Longship é um megaprojeto norueguês que já movimenta bilhões em investimentos públicos e privados. Lançado oficialmente em junho de 2025, o projeto iniciou o transporte marítimo de CO₂ a partir da fábrica de cimento da Heidelberg Materials, na cidade de Brevik, no sul da Noruega. O carbono capturado será injetado em reservatórios geológicos no Mar do Norte a partir de agosto de 2025, por meio do consórcio Northern Lights (Equinor, Shell e TotalEnergies).
Nos próximos anos, o projeto deverá armazenar até 5 milhões de toneladas de CO₂ por ano, incluindo emissões industriais da própria Noruega e, agora, de países parceiros como a Suíça.
“Este acordo é um passo pioneiro. Estamos testando, na prática, como a cooperação internacional em CCS e CDR pode funcionar com integridade ambiental e benefício mútuo”, afirmou Terje Aasland, ministro da Energia da Noruega.
Artigo 6.2: cooperação climática em ação
A assinatura do acordo com a Suíça marca a primeira aplicação prática do Artigo 6.2 do Acordo de Paris, que autoriza transações entre países de créditos de carbono e a transferência oficial de resultados de mitigação. A Suíça utilizará os créditos para cumprir parte de suas metas de neutralidade climática, mesmo sendo um país sem litoral, o que impossibilita soluções próprias de armazenamento geológico.
“O armazenamento de CO₂ é importante para que a Suíça atinja a meta de emissões. Essa parceria fortalece a inovação, a economia e a cooperação com a Noruega”, afirmou Albert Rösti, ministro suíço do Meio Ambiente, Energia e Comunicações.
Empresas e tecnologias envolvidas
Várias companhias suíças e europeias já estão participando de projetos-piloto no novo modelo de mercado climático:
- Startups climáticas: Climeworks, Neustark (Suíça), Inherit e Carbon Centric (Noruega), ClimeFi (França) e Carbonfuture (Alemanha);
- Empresas apoiadoras: SwissRe, UBS, Swiss Post, Swiss International Air Lines, Zürcher Kantonalbank, SIX, Cidade de Zurique e Industrielle Werke Basel.
Além do projeto da fábrica de cimento, o Longship também vai incorporar, até 2029, as emissões de uma usina de resíduos urbanos em Oslo.
Subsídios e ambições estratégicas
O projeto Longship terá custo estimado de US$ 3,4 bilhões nos primeiros 10 anos, sendo cerca de 65% financiado pelo governo norueguês. O objetivo é tornar o armazenamento de carbono comercialmente viável até 2040, à medida que o preço do carbono na União Europeia aumente e novas rotas de transporte sejam desenvolvidas.
“A transição verde não é fácil, mas é possível”, disse o ministro Aasland. “Estamos prontos para apoiar a Europa como um centro de armazenamento de carbono com integridade e segurança.”

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.