2026 marca a virada do “S” do ESG: as cinco tendências que vão redefinir a sustentabilidade social no Brasil

Nos últimos anos, o debate sobre sustentabilidade foi amplamente dominado pelas mudanças climáticas. No entanto, tudo indica que 2026 será o ano em que o “S” do ESG (a dimensão social) ganhará protagonismo definitivo, inclusive no Brasil. Temas como transparência em dados sociais, diligência em direitos humanos, justiça na transição verde e digital e o uso responsável da inteligência artificial passam a ocupar o centro da agenda corporativa, regulatória e de investimentos.

No contexto brasileiro, marcado por desigualdades históricas, cadeias produtivas complexas e forte presença de setores intensivos em recursos naturais, essa virada é ainda mais relevante. A seguir, apresento cinco grandes tendências que devem moldar a agenda de sustentabilidade social em 2026.

Da narrativa aos dados: a consolidação do reporte social obrigatório

Até pouco tempo atrás, muitas organizações conseguiam comunicar impacto social com base em narrativas pouco verificáveis. Esse cenário está mudando rapidamente. O movimento global é de padronização, comparabilidade e auditabilidade dos dados sociais, e o Brasil não está à margem desse processo.

Embora ainda não exista uma exigência nacional equivalente à Diretiva Europeia de Relato de Sustentabilidade Corporativa (CSRD), o país sente os efeitos indiretos dessas regulações. Empresas brasileiras que integram cadeias globais, captam recursos no exterior ou têm investidores internacionais já são pressionadas a reportar informações sociais alinhadas a padrões como os do ISSB, que incluem indicadores sobre força de trabalho, relações trabalhistas, diversidade e impactos sobre comunidades.

Além disso, o debate regulatório no Brasil avança em temas como transparência socioambiental, mercado de capitais sustentável e responsabilidade corporativa. A tendência é clara: estratégias limitadas ao cumprimento mínimo de exigências não serão suficientes. O reporte social passa a ser entendido como uma forma de “contabilidade social”, integrada à gestão financeira, de riscos e à tomada de decisão.

Organizações da sociedade civil que não conseguem medir e demonstrar impacto tendem a perder espaço. Consultorias encontram um campo crescente de atuação em sistemas de mensuração, indicadores e asseguração externa. Para as empresas, a área social deixa de ser apenas comunicação e passa a dialogar diretamente com finanças, riscos e governança. Já o poder público tem o desafio de alinhar marcos regulatórios nacionais a padrões internacionais para atrair investimentos responsáveis.

Da boa vontade à diligência obrigatória em direitos humanos

Outra mudança estrutural é a transição da responsabilidade social voluntária para a diligência obrigatória em direitos humanos e condições de trabalho, especialmente nas cadeias de valor. Embora a legislação brasileira ainda não imponha obrigações amplas nesse sentido, o efeito extraterritorial de normas europeias e a pressão de investidores internacionais tornam o tema inevitável.

Empresas brasileiras fornecedoras de grandes grupos globais já são cobradas a demonstrar como identificam, previnem e mitigam riscos sociais, como trabalho análogo ao escravo, informalidade, discriminação e violações de direitos em territórios vulneráveis. Casos ligados à mineração, ao agronegócio, à indústria têxtil e à economia digital mostram que o risco não é apenas reputacional, mas também financeiro e contratual.

Cada vez mais organizações passam a estruturar processos formais de diligência, com políticas, monitoramento, canais de denúncia e envolvimento da alta administração. Ignorar esse movimento pode significar perder acesso a mercados, crédito e investidores. Para o Estado brasileiro, incorporar a diligência em direitos humanos a políticas públicas, compras governamentais e empresas estatais é um passo estratégico para alinhar o país às expectativas globais.

Da filantropia ao valor social mensurado e estratégico

Outra tendência clara é a profissionalização da geração de valor social. A lógica da filantropia pontual perde espaço para estratégias estruturadas, com metas claras, indicadores e avaliação de resultados. Não basta afirmar que uma comunidade foi apoiada; é preciso demonstrar o que mudou, para quem e com que eficiência.

Metodologias como as desenvolvidas pela rede Business for Societal Impact (B4SI) ajudam empresas a organizar seus investimentos sociais em termos de recursos aplicados, atividades, resultados e mudanças geradas. No Brasil, observamos também o uso do Social Return on Investment (SROI), que traduz impactos sociais em valor para diferentes públicos, fortalecendo decisões estratégicas.

Para organizações da sociedade civil, falar a linguagem do valor social mensurado torna-se um diferencial competitivo. Para empresas, a área social evolui de executora de projetos para gestora de portfólios de investimento com retorno social e estratégico. Para governos, essas ferramentas oferecem base técnica para justificar políticas públicas e parcerias com o setor privado.

A transição justa como eixo da sustentabilidade social

A quarta grande tendência é a consolidação da ideia de transição justa. A agenda climática e a transformação digital deixam de ser tratadas apenas como temas ambientais ou tecnológicos e passam a ser avaliadas pelo seu impacto sobre pessoas, empregos e territórios.

No Brasil, essa discussão é central. A descarbonização da economia, a expansão das energias renováveis, a automação e o uso de inteligência artificial afetam diretamente trabalhadores, comunidades e regiões inteiras. Fechar uma atividade intensiva em carbono ou automatizar processos não é apenas uma decisão técnica: envolve requalificação profissional, novos modelos econômicos locais e diálogo social.

Investidores e consumidores começam a perguntar não apenas o que as empresas fazem pelo clima, mas como cuidam das pessoas afetadas pelas mudanças. Para o poder público, o desafio é garantir que a transição verde e digital não amplie desigualdades, incorporando o conceito de transição justa a planos de desenvolvimento, políticas de emprego, capacitação profissional e proteção social.

Inteligência artificial: oportunidade e risco para a agenda social

A inteligência artificial desponta como um dos vetores mais ambíguos da sustentabilidade social. De um lado, já contribui para avanços em saúde, educação, inclusão financeira e gestão de cadeias produtivas. De outro, pode reforçar vieses, discriminações e exclusões, especialmente em processos de recrutamento, crédito e avaliação de desempenho.

No Brasil, onde desigualdades estruturais são profundas, o uso indiscriminado de IA pode ampliar assimetrias. Por isso, cresce a necessidade de tratar a governança da inteligência artificial como um tema de direitos humanos e sustentabilidade social, e não apenas de eficiência operacional.

Organizações da sociedade civil precisam desenvolver capacidade crítica e técnica para avaliar impactos. Consultorias encontram espaço na construção de frameworks de IA ética com foco social. Empresas devem reconhecer que qualquer aplicação de IA que afete pessoas envolve riscos sociais. E o Estado tem a oportunidade de regular a tecnologia incorporando critérios de equidade, não discriminação e justiça social.

2026 como ano de virada para o “S” do ESG

O que conecta todas essas tendências é uma mensagem clara: a sustentabilidade social deixa de ser voluntária e discursiva para se tornar estratégica, regulada e mensurável. Dados sociais entram nos relatórios obrigatórios, a diligência em direitos humanos se aproxima da exigência legal, o valor social passa a ser gerido com método, a transição justa se consolida como critério ético e a inteligência artificial se torna um novo campo de disputa social.

Para o Brasil, esse contexto representa uma grande oportunidade. Organizações que se anteciparem a essas transformações não apenas estarão em conformidade, mas poderão liderar, influenciar políticas públicas, atrair investimentos responsáveis e fortalecer um modelo de desenvolvimento mais justo e sustentável.