A urgência climática impôs ao mundo uma meta inegociável: a descarbonização da economia. Para limitar o aquecimento global, nações e corporações aceleram a substituição de combustíveis fósseis por fontes de energia renováveis e veículos elétricos. Contudo, essa mudança estrutural esconde uma realidade inconveniente. A transição energética é, fundamentalmente, uma transição material. A dependência global de hidrocarbonetos está sendo rapidamente substituída por uma dependência massiva de minerais críticos. Diante desse cenário, surge um questionamento central: a corrida pelos minerais da transição energética pode criar novos passivos ambientais?
A resposta, embasada em extensa literatura científica e análises de especialistas, indica que sim. O aumento exponencial na extração de lítio, cobre, níquel e terras raras revela o que estudiosos chamam de “paradoxo da transição energética”. Para viabilizar um futuro verde, a humanidade corre o risco de aprofundar a degradação ambiental e as desigualdades sociais, especialmente nos países do Sul Global [1] [2].
O Paradoxo da Transição Energética e a Intensidade Mineral
As tecnologias de energia limpa são significativamente mais intensivas em minerais do que os sistemas baseados em combustíveis fósseis. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), um veículo elétrico requer até seis vezes mais minerais do que um carro convencional, enquanto uma usina eólica offshore pode demandar quinze vezes mais recursos minerais do que uma usina a gás natural de capacidade equivalente [3].
Essa intensidade material projeta um cenário de pressão extrema sobre os recursos naturais. As projeções estimam que a demanda por minerais críticos pode crescer entre 200% e 900% até 2050, dependendo do rigor no cumprimento das metas climáticas globais [2]. O paradoxo reside no fato de que a própria atividade de mineração é altamente intensiva em energia, emissões de carbono e consumo hídrico. Dessa forma, a extração necessária para construir a infraestrutura verde gera impactos ambientais significativos durante sua fase de implantação que desafia a premissa de sustentabilidade do processo [4].

Lítio, Cobre, Níquel e Terras Raras: O Custo Oculto da Extração
A extração de cada mineral essencial para a transição energética carrega consigo passivos ambientais e sociais específicos, frequentemente negligenciados no discurso otimista da “mineração verde”.
O lítio, apelidado de “petróleo branco”, é o coração das baterias modernas. Sua extração concentra-se fortemente no chamado Triângulo do Lítio, composto por Argentina, Bolívia e Chile. A técnica predominante na região, a evaporação de salmouras, consome volumes exorbitantes de água em ecossistemas desérticos extremamente frágeis. Estudos apontam que a mineração de lítio tem causado severo estresse hídrico, afetando diretamente a subsistência de comunidades indígenas e tradicionais, como observado na região de Susques, na Argentina [5].
O cobre e o níquel, fundamentais para a eletrificação e condução de energia, apresentam desafios ligados ao volume de rejeitos e à degradação do solo. A expansão das minas de cobre na América Latina e de níquel no Sudeste Asiático tem sido associada ao desmatamento em larga escala e à perda de biodiversidade. Além disso, o processamento desses metais gera montanhas de rejeitos tóxicos que, quando mal geridos, resultam em desastres ambientais catastróficos e contaminação de bacias hidrográficas [2].
As terras raras, um grupo de 17 elementos químicos vitais para a fabricação de ímãs permanentes usados em turbinas eólicas e motores elétricos, representam talvez o maior risco de contaminação. A extração e o refino desses elementos envolvem o uso intensivo de ácidos fortes, como o ácido sulfúrico. Mais alarmante é o fato de que as terras raras são frequentemente encontradas junto a elementos radioativos, como tório e urânio. O descarte inadequado desses resíduos radioativos já causou graves crises de saúde pública e contaminação de lençóis freáticos em regiões de mineração intensiva na China [6].
Impactos Socioambientais e a Falácia da Mineração Verde
O conceito de “mineração verde” tem sido amplamente promovido por corporações transnacionais como a solução para os dilemas da transição energética. No entanto, uma análise crítica revela que, em alguns casos, o conceito tem sido utilizado de forma que especialistas classificam como greenwashing, , mascarando a reprodução de dinâmicas coloniais de exploração.
A geografia da extração mineral demonstra que a maior parte dos minerais críticos está localizada no Sul Global — África, América Latina e Ásia. Nesses territórios, governos frequentemente flexibilizam regulamentações ambientais e trabalhistas para atrair investimentos estrangeiros [2]. O resultado é a transferência dos passivos ambientais para as nações em desenvolvimento, enquanto os benefícios tecnológicos e econômicos concentram-se nos países industrializados.
“A transição energética não é apenas um debate técnico ou econômico, mas uma disputa geopolítica profunda que redefine o papel do Sul Global como mero fornecedor de matérias-primas, perpetuando ciclos históricos de espoliação socioambiental.” [7]
A República Democrática do Congo (RDC), responsável por mais de 70% da produção global de cobalto, ilustra o extremo dessa dinâmica. Relatórios de direitos humanos documentam sistematicamente o uso de trabalho infantil, condições análogas à escravidão, exposição a metais tóxicos e despejos forçados de comunidades inteiras para a expansão de minas industriais [8].
No Brasil, a crescente demanda por minerais críticos coloca o país em posição estratégica na transição energética global. O Vale do Jequitinhonha (MG) concentra a expansão da mineração de lítio, Goiás reúne importantes projetos voltados às terras raras e o Pará mantém posição de destaque na produção de cobre e níquel. Ao mesmo tempo, o avanço da atividade mineral em áreas sensíveis do Cerrado e os projetos previstos para a Amazônia reacendem debates sobre licenciamento ambiental, consulta prévia às comunidades tradicionais e proteção da biodiversidade. O desafio brasileiro é transformar sua riqueza mineral em vantagem competitiva sem reproduzir modelos de exploração que gerem novos passivos ambientais e sociais [9].
Caminhos para uma Transição Energética Justa
A constatação de que a corrida pelos minerais da transição energética gera novos passivos ambientais não deve servir como argumento para a inação climática ou para a manutenção dos combustíveis fósseis. Pelo contrário, exige uma reformulação radical de como a transição é conduzida.
Para evitar que a solução para a crise climática crie uma nova crise socioambiental, especialistas apontam diretrizes fundamentais:
- Economia Circular e Reciclagem:É imperativo investir maciçamente em tecnologias de reciclagem de baterias e painéis solares. A recuperação de minerais de equipamentos em fim de vida útil pode reduzir significativamente a necessidade de novas minas. No entanto, especialistas alertam que, embora a reciclagem desempenhe um papel cada vez mais importante, ela não será suficiente para suprir sozinha a crescente demanda por minerais críticos nas próximas décadas. Assim, a abertura de novas minas continuará sendo necessária, reforçando a importância de práticas de mineração mais sustentáveis e de uma governança robusta do setor.
- Inovação Tecnológica: O desenvolvimento de baterias que utilizem materiais mais abundantes e menos tóxicos, como as baterias de íon de sódio, é crucial para diminuir a pressão sobre o lítio e o cobalto.
- Mineração Alternativa: Pesquisas em biomining (uso de microrganismos para extrair metais) e agromining (uso de plantas hiperacumuladoras) oferecem perspectivas promissoras para uma extração com menor impacto ambiental [6].
- Governança e Direitos Humanos: A “licença social para operar” deve ser rigorosamente exigida. Isso implica garantir transparência em todas as etapas do empreendimento, respeito aos direitos das comunidades locais e responsabilização das corporações ao longo de toda a cadeia de suprimentos, além do cumprimento do direito à consulta prévia, livre e informada dos povos indígenas e comunidades tradicionais, conforme estabelece a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A Dimensão Geopolítica dos Minerais Críticos
A corrida pelos minerais críticos também representa uma profunda disputa geopolítica. Embora diversos países concentrem importantes reservas minerais, poucas nações dominam as etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva. A China consolidou uma posição estratégica ao liderar o refino de terras raras, o processamento de lítio e grafite e a fabricação de baterias e ímãs permanentes utilizados em veículos elétricos e turbinas eólicas. Essa concentração confere ao país significativa influência sobre cadeias globais de suprimentos consideradas essenciais para a transição energética. Como consequência, Estados Unidos, União Europeia, Japão e outras economias vêm ampliando investimentos para diversificar fornecedores, reduzir dependências estratégicas e fortalecer suas políticas de segurança mineral.
O Debate Sobre a Mineração em Águas Profundas
Outro tema que ganha relevância no contexto da transição energética é a mineração em águas profundas. Depósitos ricos em níquel, cobalto, manganês e cobre localizados no fundo dos oceanos têm despertado interesse crescente por seu potencial para abastecer a demanda por minerais críticos. No entanto, cientistas alertam que os impactos dessa atividade sobre ecossistemas marinhos ainda são pouco conhecidos e podem ser irreversíveis, afetando habitats de elevada biodiversidade e processos ecológicos fundamentais. Diante dessas incertezas, diversos pesquisadores, organizações ambientais e alguns governos defendem a adoção de uma moratória internacional até que existam evidências científicas suficientes para avaliar os riscos ambientais dessa nova fronteira mineral.
A Transição Energética Continua Sendo a Melhor Alternativa
Apesar dos impactos associados à mineração de minerais críticos, é importante contextualizar que a transição energética continua sendo uma estratégia fundamental para o enfrentamento das mudanças climáticas. Estudos de avaliação do ciclo de vida demonstram que veículos elétricos, sistemas de geração eólica e energia solar tendem a emitir significativamente menos gases de efeito estufa ao longo de sua vida útil do que tecnologias baseadas em combustíveis fósseis.
O desafio, portanto, não consiste em substituir um problema ambiental por outro, mas em conduzir a transição energética de forma que reduza simultaneamente as emissões de carbono e os impactos socioambientais associados à extração de minerais críticos.
Referências
[1] CASTRO, F. F. et al. Transição energética para fontes de energia renováveis e sua dependência por minerais críticos: aspectos geoeconômicos. Ipea, 2024. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/10885032-dcb7-4075-827b-fde4586dba70/content
[2] STACCIARINI, R.; GONÇALVES, R. J. A. F. Transição Energética e Mineração no Sul Global. Mercator, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/mercator/a/PsCPtRVr4rMDv63yxXHMB6f/?lang=pt
[3] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). The Role of Critical Minerals in Clean Energy Transitions. 2021. Disponível em: https://www.iea.org/reports/the-role-of-critical-minerals-in-clean-energy-transitions
[4] UNTERSTELL, N. Como o Brasil vai enfrentar o paradoxo dos minérios da transição energética? Capital Reset, 2024. Disponível em: https://capitalreset.uol.com.br/opiniao/como-o-brasil-vai-enfrentar-o-paradoxo-dos-minerios-da-transicao-energetica/
[5] INTERNATIONAL FEDERATION FOR HUMAN RIGHTS (FIDH). In South America’s lithium triangle, the scramble for transition minerals endangers human rights. 2025. Disponível em: https://www.fidh.org/en/issues/business-human-rights-environment/lithium-triangle-scramble-transition-minerals-endangers-human-rights-south-america
[6] CHO, R. The Energy Transition Will Need More Rare Earth Elements. Can We Secure Them Sustainably? Columbia Climate School, 2023. Disponível em: https://news.climate.columbia.edu/2023/04/05/the-energy-transition-will-need-more-rare-earth-elements-can-we-secure-them-sustainably/
[7] PENHA, G. B. R. Marco regulatório brasileiro das eólicas offshore e transição energética justa. Repositório UFC, 2026. Disponível em: https://repositorio.ufc.br/handle/riufc/85027
[8] AMNESTY INTERNATIONAL. Forced evictions at industrial cobalt and copper mines in the DRC. 2023. Disponível em: https://www.amnesty.org/en/latest/news/2023/09/drc-cobalt-and-copper-mining-for-batteries-leading-to-human-rights-abuses/
[9] ARTICULAÇÃO DOS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL (APIB). Mineração em Terras Indígenas: o que está em jogo para o Brasil. 2025. Disponível em: https://apiboficial.org/files/2025/06/MINERAC%CC%A7A%CC%83O_EM_TERRAS_INDI%CC%81GENAS_o_que_esta%CC%81_em_jogo_para_o_Brasil.pdf

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.