Este texto NÃO nasceu das minhas próprias vivências, mas de um olhar atento sobre o que acontece ao redor. É fruto da observação de histórias que se repetem, de trajetórias marcadas por esforço que nem sempre encontra retorno. Aqui, apesar dos desafios e de um caminho longe de ser fácil, as coisas deram certo. Mas é justamente por enxergar além da própria realidade que se torna impossível ignorar que, para a maioria, o percurso tem sido bem mais duro do que deveria ser. Boa leitura!
Dizem que a geração Z não quer trabalhar. Que é desinteressada, impaciente, difícil. Mas quase ninguém para para perguntar: quem criou esse cenário?
A verdade é desconfortável: a raiz disso está nas gerações anteriores, especialmente na geração millennial, que foi moldada por uma promessa que nunca se cumpriu.
Disseram a eles que bastava estudar. Que o esforço seria recompensado. Que o diploma abriria portas. E eles acreditaram. Foram em massa para universidades, se especializaram, fizeram tudo “certo”. Só que o mundo real não seguiu o roteiro.
Muitos não conseguiram sequer atuar na própria área. Outros entraram em empregos precários, mal remunerados, distantes de qualquer ideia de realização. E havia algo ainda mais cruel: quem “deu certo”, muitas vezes, não foi apenas por mérito; foi por indicação, por influência, por acesso. Para quem nasceu sem esses privilégios, a caminhada continuou sendo dura, desigual e, muitas vezes, humilhante.
As exigências do mercado cresceram de forma quase absurda. Pedem experiência para quem nunca teve oportunidade. Cobram qualificações que ninguém ensina na prática. Criaram um sistema onde conseguir o primeiro emprego já é, por si só, uma barreira quase intransponível.
E foi nesse ambiente que a geração Z cresceu.
Cresceu vendo pais frustrados, que fizeram tudo o que mandaram e, ainda assim, não alcançaram a estabilidade prometida. Cresceu observando, lado a lado, pessoas conquistando tudo com facilidade, não pelo esforço, mas pelas conexões. Cresceu entendendo, desde cedo, que o jogo nunca foi exatamente justo.
Então não, a geração Z não é “ruim de serviço”.
Ela é resultado.
Resultado de um sistema que perdeu credibilidade. Resultado de promessas quebradas. Resultado de um modelo que cobra muito, entrega pouco e distribui oportunidades de forma desigual.
O que muitos interpretam como desinteresse é, na verdade, recusa. Recusa em aceitar qualquer condição. Recusa em repetir um caminho que já mostrou não funcionar. Recusa em se sacrificar por uma recompensa que pode nunca vir.
A geração Z não está quebrando o sistema por acaso. Ela está reagindo ao que viu.
E talvez o incômodo que isso causa seja justamente porque, no fundo, todos sabem: o problema nunca foi falta de vontade de trabalhar.
Foi falta de justiça no próprio trabalho.
Recorte honesto: se você conseguiu alcançar os objetivos profissionais que traçou, é fundamental reconhecer que sua trajetória, embora válida, não representa a realidade da maioria. Você é exceção. Esse texto não se baseia em casos isolados de sucesso, mas em um cenário amplo, sustentado por dados que refletem a vivência da maior parte da população. Aquela que enfrentou barreiras, frustrações e desigualdades no caminho profissional.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.