Durante anos, boa parte das discussões sobre financiamento ambiental esteve concentrada no carbono. Créditos de carbono, redução de emissões e projetos de remoção de CO₂ ajudaram a aproximar conservação ambiental e mercado financeiro. Agora, outro componente da natureza começa a ganhar espaço nessa discussão: a biodiversidade.
Um mercado ainda emergente de créditos de biodiversidade busca criar mecanismos capazes de direcionar recursos financeiros para projetos que gerem resultados positivos e mensuráveis para espécies, habitats e ecossistemas.
Embora esse mercado ainda seja pequeno e enfrente desafios importantes de mensuração, transparência e integridade, estimativas indicam um potencial expressivo de crescimento. Em um cenário de desenvolvimento efetivo da governança, a demanda global voluntária por créditos de biodiversidade poderia alcançar US$ 2 bilhões por ano em 2030 e US$ 69 bilhões em 2050, segundo análise divulgada pelo Fórum Econômico Mundial. [1]
O movimento faz parte de uma transformação maior no mercado financeiro: investidores e empresas começam a olhar não apenas para as emissões de gases de efeito estufa, mas também para sua relação com florestas, água, solo, espécies e serviços ecossistêmicos.
O que são créditos de biodiversidade?
Os créditos de biodiversidade são instrumentos que buscam representar resultados positivos, mensuráveis e adicionais para a biodiversidade, associados, por exemplo, à conservação ou restauração de ecossistemas. Na prática, a proposta é criar uma forma de direcionar recursos de empresas, investidores e outras organizações para ações capazes de gerar ganhos comprovados para a natureza.
A lógica possui algumas semelhanças com o mercado de carbono, mas existe uma diferença fundamental. Uma tonelada de dióxido de carbono equivalente pode funcionar como uma unidade relativamente padronizada.
A biodiversidade é muito mais complexa. Uma floresta, uma área de Cerrado, um manguezal e uma restinga podem apresentar espécies, funções ecológicas e condições completamente diferentes. Por isso, estabelecer metodologias capazes de medir e comparar ganhos de biodiversidade é um dos principais desafios para o desenvolvimento desse mercado.
Mercado de biodiversidade pode movimentar bilhões de dólares
O mercado voluntário de créditos de biodiversidade ainda está em estágio inicial. Em relatório publicado em 2023, o Fórum Econômico Mundial estimava seu tamanho em aproximadamente US$ 8 milhões. [1]
O potencial, entretanto, é muito maior. Segundo o mesmo estudo, se houver avanços efetivos em governança e condições capazes de gerar confiança, a demanda global por créditos voluntários de biodiversidade poderia chegar a US$ 2 bilhões em 2030. Em 2050, esse valor poderia alcançar US$ 69 bilhões anuais. [1]
Esses números não representam uma previsão de que o mercado necessariamente alcançará esse tamanho. São estimativas baseadas em cenários e dependem da construção de padrões confiáveis, demanda empresarial, metodologias de mensuração e regras claras para utilização dos créditos.
Ainda assim, mostram por que biodiversidade começou a chamar a atenção de empresas, governos e investidores.
Por que o dinheiro está começando a olhar para a biodiversidade?
Um dos principais fatores é a crescente percepção de que a perda da natureza também representa risco econômico.
Empresas dependem dos ecossistemas para obter água, matérias-primas, alimentos, fibras e diversos outros recursos. Agricultura, mineração, alimentos e bebidas, cosméticos, papel e celulose, energia e infraestrutura estão entre os setores cuja relação com a natureza pode ter implicações financeiras significativas.
Essa discussão ganhou força com a adoção, em 2022, do Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal. O acordo estabelece, entre seus objetivos, a mobilização de pelo menos US$ 200 bilhões por ano para biodiversidade até 2030 e menciona instrumentos financeiros inovadores, incluindo créditos de biodiversidade, entre os mecanismos que podem contribuir para ampliar os recursos destinados à natureza. [1]
A partir daí, o debate deixou de ser apenas sobre como proteger espécies ameaçadas e passou também a envolver uma pergunta econômica: como mobilizar capital suficiente para financiar a conservação e a restauração da natureza em grande escala?
TNFD aproxima biodiversidade das decisões financeiras
Outra iniciativa ajuda a explicar por que biodiversidade e natureza estão entrando no radar das empresas: a Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD).
A iniciativa desenvolveu recomendações para que empresas e instituições financeiras identifiquem, avaliem e divulguem suas dependências, impactos, riscos e oportunidades relacionados à natureza.
Isso amplia significativamente o olhar que ganhou força com a agenda climática.
A pergunta deixa de ser apenas: “Quanto carbono uma empresa emite?”
E passa a incluir questões como:
“Quanto essa empresa depende da natureza?”
“Qual é seu impacto sobre os ecossistemas?”
“A perda de biodiversidade representa um risco para suas operações?”
“Existem oportunidades econômicas associadas à conservação e à restauração?”
No Brasil, empresas e instituições como Aegea, AMAGGI, BTG Pactual, Caixa, Grupo Boticário, JGP, Klabin, Natura, Neoenergia, Suzano e Vale aparecem entre as organizações que assumiram compromissos de iniciar divulgações alinhadas às recomendações da TNFD. [2]
Isso não significa que todas estejam comprando créditos de biodiversidade. Significa, porém, que riscos e oportunidades relacionados à natureza estão sendo incorporados de maneira mais estruturada ao universo corporativo e financeiro.
Biodiversidade pode ser o próximo carbono?
A comparação é inevitável, mas precisa ser feita com cautela. O mercado de carbono possui uma unidade central relativamente clara: uma tonelada de dióxido de carbono equivalente.
Para biodiversidade, criar uma unidade universal é muito mais difícil. Como comparar a recuperação de uma população de determinada espécie com a restauração de um manguezal? Um ganho de biodiversidade em um local pode compensar a destruição de um ecossistema completamente diferente em outra região?
Essas questões estão no centro do debate internacional. Em 2025, o Fórum Econômico Mundial, a Biodiversity Credit Alliance e o International Advisory Panel on Biodiversity Credits publicaram princípios de alto nível destinados a orientar o desenvolvimento de um mercado de créditos de biodiversidade com maior integridade. [3]
Os princípios abrangem aspectos relacionados à qualidade dos projetos, resultados ambientais, participação de povos indígenas e comunidades locais, governança e utilização dos créditos.
O próprio Fórum Econômico Mundial alerta que o uso inadequado desses instrumentos pode causar danos à natureza e às comunidades, além de gerar riscos estratégicos e reputacionais para os compradores. [1]
Por isso, a expansão do mercado dependerá não apenas de dinheiro, mas de credibilidade.
O Brasil pode se beneficiar do mercado de biodiversidade?
Poucos países possuem uma posição tão estratégica nessa discussão quanto o Brasil. O país reúne alguns dos maiores patrimônios naturais do planeta e possui seis biomas terrestres: Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pampa e Pantanal, além de uma extensa zona costeira e marinha.
Isso significa que o avanço da chamada “nature finance” pode criar oportunidades para direcionar novos recursos para conservação, restauração ecológica, bioeconomia e desenvolvimento de comunidades que protegem esses territórios.
Mas existe uma questão fundamental. O potencial brasileiro não deveria ser analisado apenas pela capacidade de gerar e vender ativos ambientais. A discussão envolve também a possibilidade de transformar biodiversidade em desenvolvimento econômico, ciência, tecnologia, inovação e geração de renda associada à floresta e aos ecossistemas conservados.
Nesse sentido, créditos de biodiversidade são apenas uma das ferramentas possíveis dentro de um universo muito maior de financiamento da natureza.
O mercado ainda está sendo construído
Os créditos de biodiversidade estão em uma fase muito diferente daquela vivida atualmente pelos mercados de carbono. Ainda existem debates sobre metodologias, adicionalidade, permanência, monitoramento, direitos das comunidades, transparência e, principalmente, sobre quais alegações uma empresa poderá fazer depois de adquirir um crédito.
A experiência acumulada pelos mercados voluntários de carbono também funciona como alerta. Criar um ativo ambiental sem regras robustas pode gerar problemas de credibilidade, greenwashing e projetos que existem no papel, mas entregam benefícios ambientais menores do que os anunciados.
É justamente por isso que organizações internacionais estão tentando estabelecer princípios de integridade antes que esse mercado alcance uma escala muito maior. [3]
Carbono pode ter sido apenas o começo
O avanço dos créditos de biodiversidade revela uma transformação mais ampla no financiamento sustentável.
Durante muito tempo, o carbono funcionou como a principal ponte entre meio ambiente e mercado financeiro. Agora, empresas e investidores começam a perceber que mudanças climáticas representam apenas uma parte dos riscos associados à degradação da natureza.
Florestas, água, solo, biodiversidade e serviços ecossistêmicos também sustentam cadeias produtivas e atividades econômicas. Isso não significa que cada elemento da natureza precise necessariamente se transformar em uma commodity negociável. Significa que conservar ecossistemas começa a ser visto não apenas como uma obrigação ambiental, mas também como uma questão econômica e financeira.
Se o mercado de créditos de biodiversidade conseguirá alcançar os bilhões de dólares projetados ainda é uma pergunta em aberto. Mas uma mudança já está em curso: o carbono deixou de ser o único componente da natureza observado pelo mercado financeiro.
Referências
[1] World Economic Forum. Biodiversity Credits: Demand Drivers and Guidance on Early Use. 2023.
[2] Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD). TNFD Adopters. Base atualizada periodicamente.
[3] World Economic Forum; Biodiversity Credit Alliance; International Advisory Panel on Biodiversity Credits. High-Level Principles to Guide the Biodiversity Credit Market. 2025.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.