Como uma cidade pode sofrer com enchentes e falta d’água ao mesmo tempo?

São Paulo registrou volumes recordes de chuva em setembro, enquanto o Sistema Cantareira permanece em estado de alerta e o Brasil se prepara para possíveis impactos do El Niño sobre os recursos hídricos. O contraste ajuda a explicar por que chover muito não é sinônimo de segurança hídrica.

Uma cidade pode enfrentar ruas alagadas, rios transbordando e grandes volumes de chuva e, ainda assim, continuar preocupada com a disponibilidade de água para abastecimento.

Embora pareçam problemas opostos, enchentes e escassez hídrica podem coexistir. Isso acontece porque segurança hídrica não depende apenas da quantidade de chuva que cai sobre uma região. Importam também a distribuição dessa precipitação ao longo do tempo e do território, a capacidade de infiltração e armazenamento, a qualidade da água, as condições dos mananciais e a infraestrutura disponível para captar, tratar e distribuir o recurso.

Os acontecimentos de setembro de 2026 em São Paulo ajudam a visualizar esse paradoxo.

Nos primeiros 14 dias do mês, diferentes localidades paulistas já haviam registrado acumulados de chuva superiores aos recordes anteriores para setembro. Em Bragança Paulista, foram 273,8 milímetros, volume 160,8% superior ao recorde anterior para o mês. Em Interlagos, na capital, foram registrados 245,8 mm, enquanto a estação do Mirante acumulou 253,8 mm [1].

Ao mesmo tempo, o Sistema Cantareira, principal manancial de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, entrou em setembro permanecendo na Faixa 3 – Alerta [2]. Como é possível ter tanta água caindo do céu e ainda existir preocupação com a disponibilidade hídrica?

Chover muito não significa ter muita água disponível

A primeira explicação está na diferença entre precipitação e disponibilidade hídrica. Quando uma grande quantidade de chuva cai em poucas horas, principalmente sobre áreas urbanizadas, nem toda essa água consegue ser aproveitada ou armazenada.

Asfalto, concreto, telhados, estacionamentos e outras superfícies impermeáveis reduzem a capacidade de infiltração do solo. Parte significativa da água escoa rapidamente pela superfície em direção a galerias de drenagem, córregos e rios. Se o volume de água ultrapassa a capacidade desses sistemas, surgem alagamentos, enxurradas e inundações.

Isso significa que uma cidade pode receber água demais em um intervalo muito curto, sem que esse volume seja convertido proporcionalmente em reserva para os meses seguintes.

É uma diferença fundamental: água que passa pela cidade não é necessariamente água disponível para a cidade.

O problema também é quando a chuva cai

O total acumulado de chuva conta apenas uma parte da história. Imagine duas situações em que uma região recebe 200 milímetros de chuva. Na primeira, o volume se distribui ao longo de várias semanas. Na segunda, grande parte cai durante poucos episódios extremos.

Embora o acumulado possa ser semelhante, os impactos sobre o território e os recursos hídricos são diferentes. Chuvas distribuídas ao longo do tempo podem favorecer a umidade do solo, a infiltração, a recarga subterrânea e a alimentação gradual de rios e reservatórios.

Já volumes muito concentrados podem aumentar o escoamento superficial e provocar enchentes antes que parte dessa água consiga ser incorporada ao sistema hídrico. Por isso, analisar apenas se “choveu muito” pode esconder uma questão fundamental para a segurança hídrica: como essa chuva foi distribuída no tempo?

E também importa onde chove

Outro ponto ajuda a desmontar a aparente contradição: a chuva que alaga uma cidade não necessariamente cai na área que alimenta os reservatórios responsáveis pelo seu abastecimento.

Um sistema de abastecimento depende das condições de sua bacia hidrográfica. Assim, uma tempestade intensa sobre uma região densamente urbanizada pode provocar enchentes sem produzir a mesma quantidade de chuva nas áreas de contribuição dos mananciais.

O caso do Cantareira é particularmente interessante. O sistema encerrou agosto de 2026 com apenas 33% do volume útil, dentro da Faixa de Alerta. Segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o armazenamento estava abaixo dos 37% registrados no fim de julho e dos 35% observados no mesmo período de 2025 [3].

As chuvas de setembro devem ajudar na recuperação. Mas isso não significa que o problema seja resolvido imediatamente. O próprio Cemaden projetou que, em um cenário de chuvas dentro da média, o Cantareira poderia terminar setembro com cerca de 36% do volume útil — ainda na Faixa de Alerta [3].

Há uma razão importante para isso: um reservatório carrega a história hidrológica dos meses anteriores. O Cemaden aponta que, entre outubro de 2025 e janeiro de 2026, o Cantareira atingiu os menores níveis de armazenamento desde a crise hídrica de 2014/2015. As chuvas posteriores permitiram uma recuperação parcial, mas o sistema chegou ao período atual ainda com déficits acumulados [3].

Ou seja: uma sequência de dias muito chuvosos não apaga automaticamente meses de baixa disponibilidade de água.

Qualidade da água também faz parte dessa equação

Existe ainda outro aspecto frequentemente esquecido quando se fala em disponibilidade hídrica: não basta a água existir; ela precisa apresentar condições adequadas para ser utilizada. Poluição de rios e mananciais, lançamento inadequado de esgoto, resíduos e sedimentos podem comprometer a qualidade dos recursos hídricos e tornar o tratamento mais complexo.

Chuvas intensas também podem carregar poluentes acumulados nas superfícies urbanas para rios, córregos e outros corpos d’água. Por isso, segurança hídrica não pode ser medida simplesmente pela quantidade de água presente no território.

O Plano Nacional de Segurança Hídrica (PNSH) parte justamente de uma visão mais ampla, associando o planejamento da infraestrutura hídrica à necessidade de assegurar disponibilidade de água às atuais e futuras gerações e de prevenir impactos de eventos hidrológicos críticos [4].

O El Niño deixa esse desafio ainda mais evidente

Enquanto São Paulo enfrenta episódios de chuva intensa, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) se prepara para outro desafio: os impactos do El Niño 2026/2027.

Em 14 de setembro, a Agência apresentou um plano específico para enfrentar os possíveis efeitos do fenômeno sobre os recursos hídricos brasileiros até março de 2027 [5]. As projeções indicam que os impactos não serão iguais em todo o país.

Segundo a ANA, há expectativa de redução das chuvas e aumento das temperaturas no Norte e Nordeste, enquanto o Sul tende a enfrentar aumento das precipitações e vazões. Para o Sudeste e o Centro-Oeste, cresce também o risco associado às ondas de calor [5].

No Nordeste, por exemplo, a ANA trabalha com cenários de possível frustração da estação chuvosa de 2026/2027 e redução da recarga dos açudes, situação que pode afetar irrigação e abastecimento público [5].

Na Região Sul, o problema pode ser exatamente o contrário. A Sala de Crise regional acompanha riscos associados a cheias, inundações, enxurradas e segurança de barragens diante do excesso de chuvas [5].

O mesmo país, portanto, pode precisar administrar simultaneamente escassez em algumas regiões e excesso de água em outras.

Afinal, o que é segurança hídrica?

É justamente nesse ponto que o conceito de segurança hídrica se torna importante. Segurança hídrica vai muito além de perguntar se existe água em determinado território. Ela envolve a capacidade de garantir disponibilidade em quantidade e qualidade adequadas para a população, as atividades econômicas e os ecossistemas, além de aumentar a resiliência diante de eventos críticos.

Por isso, um território que recebe grandes volumes de chuva não é necessariamente um território com elevada segurança hídrica.

É preciso considerar, entre outros fatores:

Essa visão ajuda a explicar por que enchentes e falta d’água não são necessariamente fenômenos contraditórios.

As cidades precisam aprender a guardar melhor a água da chuva?

Em parte, sim. Mas a resposta não está simplesmente em construir mais reservatórios. O desafio passa por pensar o ciclo da água de forma integrada.

Nas cidades, uma das estratégias é aumentar a capacidade do território de absorver, reter e retardar a água da chuva, reduzindo a velocidade com que ela chega aos sistemas de drenagem.

Áreas verdes, recuperação de rios e áreas úmidas, jardins de chuva, parques inundáveis e outras soluções baseadas na natureza podem complementar a infraestrutura convencional. O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima destaca que essas soluções utilizam processos naturais para enfrentar desafios urbanos e climáticos e podem incluir restauração, infraestrutura ecológica e manejo de águas pluviais [6].

Preservar vegetação e áreas permeáveis também ajuda a recuperar parte da capacidade natural do solo de absorver água. Mas segurança hídrica exige ações em várias frentes. Proteção de mananciais, redução das perdas nas redes de abastecimento, reúso da água, aproveitamento de água da chuva, saneamento, planejamento urbano, monitoramento climático e diversificação das fontes de abastecimento podem fazer parte da estratégia.

O objetivo não é apenas retirar a água das ruas durante uma tempestade. É pensar para onde essa água vai e como o território pode administrá-la melhor.

O desafio das cidades será lidar com água demais e água de menos

As chuvas recordes registradas em São Paulo enquanto o Cantareira permanece em Faixa de Alerta oferecem uma fotografia clara de um problema que tende a ganhar importância no planejamento urbano brasileiro.

Uma cidade pode receber água demais no lugar errado, no momento errado e durante um período curto e ainda não possuir água suficiente armazenada onde precisa.

Por isso, a pergunta central da segurança hídrica não é simplesmente quanto chove.

É quanto dessa chuva pode ser infiltrada, armazenada e transformada em água disponível; em que condições ela chega aos mananciais; quanto se perde antes de chegar ao consumidor; e se a infraestrutura está preparada tanto para períodos de excesso quanto de escassez.

Em um país que pode enfrentar simultaneamente cheias no Sul e redução das chuvas em partes do Norte e Nordeste sob influência do El Niño [5], preparar as cidades para apenas um dos extremos já não é suficiente.

O desafio é construir sistemas capazes de conviver com os dois: água demais quando ela chega e água de menos quando ela faz falta.

Referências

[1] INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET). São Paulo registra recordes de chuva nos primeiros 14 dias de setembro. Brasília, DF: INMET, 14 set. 2026. Disponível em: portal.inmet.gov.br. Acesso em: 15 set. 2026.

[2] AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Sistema Cantareira continuará a operar na Faixa de Alerta em setembro. Brasília, DF: ANA, 31 ago. 2026. Disponível em: gov.br/ana. Acesso em: 15 set. 2026.

[3] CENTRO NACIONAL DE MONITORAMENTO E ALERTAS DE DESASTRES NATURAIS (CEMADEN). Situação Atual e Projeção Hidrológica para o Sistema Cantareira – 10/09/2026 – Ano 12, nº 120. São José dos Campos: Cemaden/MCTI, 10 set. 2026. Disponível em: gov.br/cemaden. Acesso em: 15 set. 2026.

[4] AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Plano Nacional de Segurança Hídrica. Brasília, DF: ANA. Disponível em: gov.br/ana. Acesso em: 15 set. 2026.

[5] AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). ANA apresenta Plano de Preparação para o enfrentamento dos impactos do El Niño 2026-2027 sobre os recursos hídricos do Brasil. Brasília, DF: ANA, 14 set. 2026. Disponível em: gov.br/ana. Acesso em: 15 set. 2026.

[6] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Soluções Baseadas na Natureza. Brasília, DF: MMA. Disponível em: gov.br/mma. Acesso em: 15 set. 2026.

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