Edital federal recebeu 402 propostas de 388 municípios para ampliar a arborização urbana e enfrentar o calor extremo; demanda apresentada chegou a R$ 676 milhões, enquanto R$ 19 milhões estão disponíveis nesta etapa
Quanto as cidades brasileiras estão dispostas a investir para ter mais árvores e enfrentar os efeitos do calor extremo? Um edital do governo federal ajuda a dimensionar essa demanda e revela uma diferença expressiva entre os projetos apresentados e os recursos disponíveis.
A Iniciativa ArborizaCidades, do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), recebeu 402 propostas de 388 municípios dos 26 estados, que, juntas, solicitaram aproximadamente R$ 676,2 milhões. O edital, porém, dispõe inicialmente de R$ 19 milhões para financiar projetos de arborização urbana e redução do calor urbano extremo [1].
Na prática, o valor solicitado nas propostas foi mais de 35 vezes superior ao orçamento atualmente disponível no edital. Dos 402 projetos apresentados, 146 foram classificados de acordo com os critérios do chamamento e, no resultado preliminar, dez propostas foram selecionadas para receber os recursos disponíveis [1].
Os números ajudam a colocar em evidência uma questão que tende a ganhar importância à medida que as cidades enfrentam temperaturas mais altas: como financiar a adaptação climática no ambiente urbano?
R$ 676 milhões em propostas para plantar mais árvores nas cidades
O Edital FNMA nº 1/2026 – Iniciativa ArborizaCidades foi criado para apoiar financeiramente municípios em ações de fortalecimento da arborização urbana voltadas à redução do calor urbano extremo [2].
Cada proposta pode solicitar entre R$ 1 milhão e R$ 2 milhões, sem considerar a contrapartida municipal. Os recursos disponíveis somam R$ 19 milhões, sendo R$ 18 milhões provenientes do Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA) e R$ 1 milhão do Fundo Nacional sobre Mudança do Clima (Fundo Clima) [2].
O próprio edital prevê a possibilidade de ampliação desse montante caso haja disponibilidade orçamentária, respeitando a ordem de classificação e os critérios de distribuição regional [2].
O resultado preliminar divulgado pelo MMA mostra, entretanto, que a procura foi muito superior ao orçamento inicialmente reservado. Foram solicitados exatamente R$ 676.187.515,36 pelas 402 propostas apresentadas [1]. Comparado aos R$ 19 milhões disponíveis, isso significa que o edital conta inicialmente com recursos equivalentes a cerca de 2,8% do valor total demandado pelos projetos submetidos.
Essa comparação não significa que todos os R$ 676 milhões correspondam a projetos aprovados ou considerados aptos ao financiamento. Dos 402 projetos apresentados, 146 foram classificados. Ainda assim, o volume de propostas evidencia o interesse dos governos municipais por recursos destinados à arborização e à adaptação ao calor.
Por que árvores estão entrando na agenda de adaptação climática?
A arborização urbana vai muito além da estética das cidades. Árvores e áreas verdes podem contribuir para reduzir temperaturas locais, ampliar áreas sombreadas e melhorar as condições ambientais dos espaços urbanos.
É justamente essa relação entre vegetação e temperatura que está no centro do ArborizaCidades. O edital integra o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU) e o Programa Cidades Verdes Resilientes (PCVR) e foi estruturado para financiar ações de arborização destinadas ao enfrentamento do calor urbano [1][2].
O documento do edital contextualiza a iniciativa diante da intensificação das mudanças climáticas e do aumento das temperaturas, tratando a arborização como parte das estratégias para reduzir os impactos do calor nas cidades [2].
Isso aproxima uma pauta tradicionalmente associada ao paisagismo e à qualidade ambiental de outro debate: o financiamento da adaptação climática.
Adaptar as cidades ao calor também exige dinheiro
O resultado do edital oferece uma dimensão concreta desse desafio. Se centenas de municípios estão apresentando projetos que, somados, chegam a R$ 676 milhões apenas em uma chamada específica para arborização, ampliar a infraestrutura verde das cidades exige não apenas planejamento ambiental, mas também capacidade de investimento e acesso a financiamento.
O próprio desenho do edital mostra a escala financeira dos projetos: cada município pode pleitear de R$ 1 milhão a R$ 2 milhões [2]. E arborizar uma cidade não significa simplesmente comprar e plantar mudas. Projetos estruturados envolvem planejamento, escolha adequada das espécies, preparação dos locais, implantação, manejo e manutenção, além da integração das áreas verdes ao planejamento urbano.
Nesse contexto, as árvores passam a ser vistas também como parte da infraestrutura de adaptação das cidades às mudanças climáticas.
Demanda foi apresentada por municípios de todos os estados
Outro dado chama atenção: as 402 propostas vieram de 388 municípios distribuídos pelos 26 estados brasileiros [1]. O edital é destinado a municípios com população entre 20 mil e 750 mil habitantes, observados os demais critérios de elegibilidade [1].
A abrangência territorial das propostas indica que o interesse por investimentos em arborização não está restrito às grandes capitais. Ao mesmo tempo, a diferença entre a quantidade de projetos apresentados e os inicialmente contemplados mostra os limites da atual rodada de financiamento: dez propostas foram selecionadas preliminarmente para os R$ 19 milhões disponíveis [1].
Resultado ainda é preliminar
O resultado divulgado pelo MMA ainda não é definitivo. Após a publicação da classificação preliminar, foi aberto prazo de cinco dias úteis para apresentação de recursos. A homologação e a publicação do resultado definitivo da fase de seleção estão previstas para ocorrer até 20 de outubro de 2026 [1][3].
Portanto, a relação final de projetos contemplados ainda pode sofrer alterações. Independentemente do resultado definitivo, os números do ArborizaCidades colocam uma questão relevante para o debate sobre adaptação climática no Brasil: se as cidades precisam de mais áreas verdes para enfrentar temperaturas cada vez mais elevadas, de onde virão os recursos para transformar essa necessidade em infraestrutura urbana?
Referências
[1] Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Divulgado resultado preliminar do Edital ArborizaCidades. Publicado em 22 de setembro de 2026.
[2] Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima/Fundo Nacional do Meio Ambiente. Edital de Chamamento Público nº 1/2026 – Iniciativa ArborizaCidades.
[3] Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Cronograma do Edital ArborizaCidades tem datas atualizadas. Publicado em 11 de setembro de 2026.
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.