Plano reúne 181 ações até 2029 para prevenir enchentes, deslizamentos, secas e ondas de calor. Nova operação prevê monitoramento diário e ampliação dos alertas à população.
O governo de São Paulo anunciou um pacote de aproximadamente R$ 29 bilhões em investimentos para enfrentar os impactos das mudanças climáticas e se preparar para os possíveis efeitos do El Niño em 2026 e 2027. A estratégia reúne 181 iniciativas do Plano Estadual de Resiliência às Mudanças Climáticas (PEARC), com ações previstas até 2029 para reduzir riscos e ampliar a capacidade de resposta a eventos climáticos extremos.
Entre as medidas estão obras de drenagem, desassoreamento de rios e córregos, ampliação da segurança hídrica, monitoramento meteorológico e ações para proteger moradores de áreas vulneráveis. O plano também inclui iniciativas relacionadas à saúde pública, à agricultura e à infraestrutura urbana.
O anúncio foi acompanhado pelo lançamento da operação SP Sempre Alerta – El Niño 2026/2027, que substitui a tradicional Operação Chuvas e amplia o monitoramento dos riscos climáticos para além do período chuvoso.
El Niño aumenta a preocupação com eventos climáticos extremos
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial, capaz de alterar os padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, seus efeitos variam conforme a região e a época do ano. Dependendo da intensidade e da configuração atmosférica, o fenômeno pode contribuir para períodos de chuva intensa em algumas áreas e estiagem em outras. Também pode agravar o calor e aumentar a pressão sobre os sistemas de abastecimento de água.
Em São Paulo, a preparação anunciada pelo governo considera diferentes cenários de risco, incluindo tempestades, enchentes, deslizamentos, ondas de calor, estiagens e incêndios florestais.
O objetivo é antecipar medidas de prevenção e melhorar a coordenação entre órgãos públicos, concessionárias de serviços essenciais e equipes de emergência.
R$ 29 bilhões: onde serão concentrados os investimentos?
O pacote reúne iniciativas de infraestrutura, adaptação climática e prevenção de desastres. Parte das ações já vinha sendo desenvolvida desde 2023 e deverá ser intensificada nos próximos anos.
Entre os principais investimentos divulgados estão:
- R$ 1 bilhão: construção de piscinões e reservatórios para auxiliar na prevenção de enchentes.
- R$ 1,7 bilhão: desassoreamento de rios e córregos por meio dos programas IntegraTietê e Rios Vivos.
- R$ 9,5 bilhões: parceria público-privada prevista para o desassoreamento contínuo de trechos dos rios Tietê e Pinheiros, além de manutenção e conservação associadas.
- R$ 1,7 bilhão: construção das barragens de Pedreira e Duas Pontes, voltadas à segurança hídrica.
- R$ 9 bilhões: investimentos da Sabesp para reduzir perdas de água, ampliar a disponibilidade hídrica e modernizar sistemas de abastecimento até 2030.
- R$ 2,76 bilhões: iniciativas habitacionais para reduzir vulnerabilidades e reassentar famílias em áreas de risco.
Os valores correspondem a diferentes programas e projetos que compõem a estratégia estadual, com horizontes de execução distintos. Portanto, o montante total anunciado não deve ser interpretado como dinheiro integralmente novo ou já desembolsado: há iniciativas em execução, previstas e em estruturação.
Prevenção de enchentes e segurança hídrica
Uma das frentes do plano é reduzir os impactos das chuvas intensas. Os investimentos em piscinões, reservatórios e desassoreamento buscam melhorar a capacidade de drenagem e o escoamento da água, diminuindo a exposição de áreas urbanas a alagamentos e inundações.
O desassoreamento consiste na retirada de sedimentos e outros materiais acumulados no leito de rios e córregos. Quando realizado de forma adequada e acompanhado de outras medidas de gestão das bacias hidrográficas, pode contribuir para melhorar o escoamento e a manutenção dos cursos d’água.
A segurança hídrica também é uma prioridade. As barragens de Pedreira e Duas Pontes, na região de Campinas, têm capacidade projetada conjunta de aproximadamente 85 bilhões de litros de água e devem beneficiar cerca de 5,5 milhões de pessoas em mais de 20 municípios, segundo informações divulgadas pelo governo estadual.
O conjunto de medidas busca enfrentar dois problemas relacionados aos extremos climáticos: o excesso de água durante chuvas intensas e a escassez durante períodos de estiagem.
Nova operação prevê monitoramento diário e alertas
A operação SP Sempre Alerta – El Niño 2026/2027 prevê monitoramento contínuo dos riscos climáticos até o final de 2027, com a participação de órgãos estaduais, concessionárias de água, energia e gás, forças de segurança e equipes de Defesa Civil.
Também foi anunciada a criação de um gabinete especial para coordenar as ações. O Centro de Gerenciamento de Emergências da Defesa Civil deverá produzir boletins diários com previsões meteorológicas e classificações de risco para os municípios, com horizonte de acompanhamento de três dias.
O sistema prevê quatro níveis operacionais:
- Verde: observação.
- Amarelo: atenção.
- Laranja: alerta.
- Vermelho: emergência.
Em situações de risco iminente, poderão ser emitidos alertas diretamente nos celulares por meio da tecnologia Cell Broadcast e mensagens SMS para pessoas cadastradas no serviço estadual.
A ampliação do monitoramento busca dar mais tempo para que as autoridades municipais organizem equipes, preparem abrigos, orientem moradores e adotem medidas preventivas antes que os eventos extremos provoquem danos maiores.
Adaptação climática precisa ir além das obras
O pacote de São Paulo evidencia o peso crescente da adaptação climática no planejamento público. Além das obras de infraestrutura, a prevenção de desastres depende de sistemas de alerta eficientes, planejamento urbano, proteção de áreas ambientalmente sensíveis e políticas habitacionais que reduzam a exposição da população aos riscos.
A ocupação de encostas e margens de rios, a impermeabilização do solo e a perda de vegetação podem ampliar os impactos de chuvas intensas. Da mesma forma, a conservação de mananciais, a recuperação de ecossistemas e o uso eficiente da água são importantes para enfrentar períodos de estiagem.
Por isso, a efetividade dos investimentos também dependerá da execução dos projetos, da transparência sobre os recursos aplicados e da capacidade de integrar políticas ambientais, urbanas, habitacionais e de proteção e defesa civil.
O que o pacote de São Paulo representa para a adaptação climática no Brasil?
A iniciativa abre espaço para um debate nacional sobre quanto os estados brasileiros investem na prevenção de desastres e na adaptação às mudanças climáticas.
Embora os recursos anunciados por São Paulo sejam expressivos, a avaliação da preparação climática exige observar não apenas o valor total dos investimentos, mas também a execução orçamentária, a distribuição dos recursos entre os municípios, a redução efetiva das áreas de risco e os resultados alcançados após a implementação das medidas.
O acompanhamento desses indicadores pode ajudar a identificar quais políticas públicas funcionam melhor e quais regiões ainda enfrentam lacunas de infraestrutura e prevenção.
Com eventos climáticos extremos impondo desafios crescentes às cidades brasileiras, planejamento de longo prazo, transparência e investimento em resiliência serão fundamentais para reduzir prejuízos econômicos, proteger ecossistemas e preservar vidas.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.