Brasil adicionou 3,52 GW de geração solar centralizada à matriz elétrica somente entre janeiro e agosto de 2026. Enquanto as renováveis avançam, baterias de grande porte começam a ganhar espaço como solução para aumentar a flexibilidade e a segurança do sistema elétrico.
O Brasil continua ampliando rapidamente sua capacidade de geração de energia solar. Somente em agosto de 2026, 891 megawatts (MW) de novas usinas fotovoltaicas entraram em operação comercial, segundo dados divulgados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) em 11 de setembro [1].
No acumulado de janeiro a agosto, o avanço é ainda mais expressivo: dos 4.852,78 MW adicionados à matriz elétrica brasileira, 3.520,93 MW vieram de usinas solares fotovoltaicas [1]. Isso significa que a fonte respondeu por aproximadamente 73% de toda a expansão da geração centralizada no país no período.
O crescimento das fontes renováveis, no entanto, traz uma nova questão para o setor elétrico: como aproveitar melhor a eletricidade produzida quando a oferta é elevada, mas o consumo ou a capacidade da rede não acompanham essa geração?
É nesse cenário que o armazenamento de energia por baterias começa a assumir um papel estratégico no Brasil.
O desafio não é apenas produzir mais energia
A energia solar tem uma característica particular: sua geração depende da disponibilidade do recurso solar e, portanto, não pode ser aumentada ou reduzida livremente para acompanhar o consumo de eletricidade.
Em determinados períodos do dia, a produção solar pode ser elevada. Em outros, como no início da noite, ela cai justamente quando o sistema ainda pode enfrentar uma demanda importante por eletricidade.
Por isso, a transição energética não depende apenas da instalação de novas usinas renováveis. Também exige redes de transmissão e distribuição adequadas, maior flexibilidade operacional e tecnologias capazes de ajudar a equilibrar geração e consumo.
Uma dessas tecnologias é o Battery Energy Storage System (BESS), ou sistema de armazenamento de energia por baterias. De forma simplificada, as baterias podem absorver eletricidade da rede em determinados momentos e devolvê-la posteriormente, quando o sistema necessita de potência. A ANEEL explica que uma bateria pode armazenar energia e posteriormente devolvê-la à rede, permitindo uma operação mais flexível dos novos recursos energéticos [2].
Na prática, é como adicionar uma nova ferramenta ao sistema elétrico: em vez de depender apenas da geração naquele exato momento, parte da eletricidade pode ser deslocada no tempo.
E onde entra o curtailment?
Outro conceito que ganha importância com a expansão acelerada das fontes solar e eólica é o curtailment, também chamado de restrição ou corte de geração. Ele ocorre quando uma usina poderia produzir eletricidade, mas precisa reduzir sua geração por determinação do operador do sistema.
Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o curtailment é uma realidade estrutural em sistemas com elevada participação de fontes renováveis variáveis. Isso acontece porque a produção dessas fontes nem sempre coincide com os momentos de maior consumo e porque também podem existir limitações relacionadas à transmissão da energia entre diferentes regiões [3].
Nessas situações, restringir a geração pode ser necessário para preservar a segurança e a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN) [3].
Isso significa que instalar cada vez mais painéis e usinas solares, sozinho, não resolve todos os desafios da transição energética.
É preciso também garantir que o sistema consiga transportar, administrar e aproveitar essa eletricidade.
Baterias podem acabar com os cortes de energia renovável?
Não completamente. Os sistemas de armazenamento podem ajudar a absorver energia em determinados períodos e devolvê-la posteriormente, contribuindo para aumentar a flexibilidade do sistema. Mas o curtailment possui diferentes causas, incluindo restrições de transmissão, requisitos de confiabilidade e situações de excesso de oferta em relação à demanda [3].
Por isso, as baterias fazem parte de um conjunto maior de soluções que inclui expansão da transmissão, modernização das redes, gerenciamento da demanda, maior capacidade de controle do sistema e planejamento da expansão da geração.
Ainda assim, a tecnologia começa a ocupar um espaço cada vez mais relevante no planejamento energético brasileiro.
Brasil prepara seus primeiros grandes leilões de baterias
Em 2026, o Brasil avançou justamente nessa direção. A ANEEL colocou em discussão os primeiros leilões brasileiros voltados à contratação de sistemas de armazenamento de energia por baterias de grande porte. Os certames de Reserva de Capacidade (Armazenamento Nacional e Armazenamento Geral) estão previstos para 2 e 4 de dezembro de 2026 [4].
Os contratos terão prazo de 15 anos, com início de suprimento previsto para agosto de 2028. Os sistemas contratados deverão possuir pelo menos 30 MW de potência e capacidade de fornecimento por quatro horas [4].
A diferença entre os dois certames está, principalmente, na origem dos equipamentos: um deles é destinado a projetos que comprovem o uso de baterias de fabricação nacional, enquanto o outro admite sistemas que não atendam a esse requisito [4].
O objetivo é contratar capacidade que possa ser acionada pelo ONS quando necessária, ajudando a reforçar a segurança e a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional [5].
Interesse em baterias surpreende pelo tamanho
Se havia alguma dúvida sobre o interesse do mercado brasileiro pelo armazenamento de energia, os números do cadastramento chamam atenção.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) informou que 6.091 projetos foram cadastrados para participar dos leilões de armazenamento de 2026. Juntos, eles representam impressionantes 296.807 MW, ou 296,8 GW, de potência [5].
Segundo a EPE, trata-se de um recorde de participação em certames do setor elétrico brasileiro [5].
É importante destacar que cadastramento não significa contratação ou construção de todos esses projetos. O número representa o universo de empreendimentos interessados em disputar os leilões. Ainda assim, a dimensão da procura revela que existe uma corrida empresarial para ocupar esse novo mercado.
Baterias também chegam à transmissão
O movimento não termina nos leilões de dezembro. Em 8 de setembro, a ANEEL anunciou outra iniciativa inédita: o primeiro leilão de transmissão do Brasil com previsão de contratação de armazenamento por baterias [6].
O Leilão de Transmissão nº 01/2027 está previsto para 30 de abril de 2027 e inclui um projeto de armazenamento destinado a atender necessidades do sistema elétrico.
A iniciativa mostra que as baterias começam a deixar de ser apenas uma tecnologia associada a residências com painéis solares ou pequenos sistemas isolados para assumir uma função dentro da própria infraestrutura do Sistema Interligado Nacional.
Além disso, a ANEEL abriu, em setembro, uma consulta pública para modernizar as regras de conexão de geração solar distribuída, baterias, veículos elétricos, microrredes e outros recursos energéticos distribuídos [2].
Afinal, onde o Brasil vai guardar tanta energia solar?
A pergunta tem uma resposta mais complexa do que simplesmente instalar grandes baterias ao lado de cada usina solar.
O sistema elétrico não precisa necessariamente armazenar toda a eletricidade renovável produzida. A prioridade é criar uma rede suficientemente flexível para equilibrar, a cada momento, produção, consumo, transmissão e armazenamento.
Nesse contexto, as baterias podem funcionar como uma espécie de amortecedor do sistema: carregam em determinados períodos e fornecem potência quando ela se torna mais necessária.
Mas elas não substituem investimentos em transmissão, planejamento da expansão da geração e modernização das redes.
Os números recentes mostram por que essa discussão se tornou urgente. Quase três quartos da nova capacidade de geração centralizada instalada no Brasil entre janeiro e agosto de 2026 vieram da energia solar [1]. Ao mesmo tempo, o país já convive com restrições de geração renovável e prepara seus primeiros grandes mecanismos de contratação de armazenamento.
A transição energética brasileira, portanto, entra em uma nova fase. Durante anos, uma das principais perguntas foi: como produzir mais energia renovável?
Com solar e eólica ocupando uma parcela cada vez maior do sistema, surge uma segunda questão: como garantir que toda essa geração possa ser integrada à rede de maneira eficiente, flexível e segura?
As baterias podem ser uma parte importante dessa resposta.
Referências
[1] AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Expansão da matriz elétrica em agosto é de quase 2 GW. Brasília, 11 set. 2026. Disponível em: ANEEL – Expansão da matriz elétrica em agosto. Acesso em: 14 set. 2026.
[2] AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). ANEEL propõe novas regras para preparar a rede elétrica para geração solar, baterias e veículos elétricos. Brasília, 8 set. 2026. Disponível em: ANEEL – Novas regras para solar e baterias. Acesso em: 14 set. 2026.
[3] OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA ELÉTRICO (ONS). Curtailment: informações sobre a gestão de excedentes energéticos. Rio de Janeiro: ONS, 2026. Disponível em: ONS – Curtailment. Acesso em: 14 set. 2026.
[4] AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Primeiros leilões de armazenamento de energia do Brasil entram em consulta pública. Brasília, 28 jul. 2026. Disponível em: ANEEL – Primeiros leilões de armazenamento. Acesso em: 14 set. 2026.
[5] EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). LRCAP Armazenamento 2026: EPE registra recorde de projetos cadastrados. Rio de Janeiro, 3 ago. 2026. Disponível em: EPE – Projetos cadastrados no LRCAP Armazenamento 2026. Acesso em: 14 set. 2026.
[6] AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Leilão marcado para abril de 2027, o primeiro com contratação de baterias na transmissão, entra em consulta pública. Brasília, 8 set. 2026. Disponível em: ANEEL – Baterias no leilão de transmissão de 2027. Acesso em: 14 set. 2026.
Este é um conteúdo exclusivo do Portal do ESG. A reprodução total ou parcial sem a devida citação da fonte e atribuição de autoria pode caracterizar violação de direitos autorais.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.