Extremos climáticos causam R$ 12,6 bilhões em prejuízos no Brasil; El Niño deve ganhar força

Secas, ondas de calor, vendavais e inundações afetaram 6,9 milhões de pessoas entre julho e setembro; novo boletim aponta 95% de probabilidade de El Niño muito forte entre outubro e dezembro

Eventos climáticos como secas, ondas de calor, vendavais e inundações provocaram R$ 12,6 bilhões em prejuízos no Brasil entre 1º de julho e 30 de setembro de 2026. No período, 6,9 milhões de brasileiros foram afetados e 1.035 municípios decretaram situação de emergência ou estado de calamidade pública.

Os números fazem parte da segunda edição do Boletim El Niño 2026/2027, divulgado nesta terça-feira (6) pela Confederação Nacional de Municípios (CNM).

Além das perdas econômicas, os desastres provocaram 25 mortes e fizeram 87,7 mil pessoas deixarem suas casas.

Os dados ganham ainda mais relevância diante do cenário previsto para os próximos meses. O mais recente Painel El Niño 2026-2027, elaborado por instituições federais, aponta 95% de probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte no trimestre entre outubro e dezembro.

Caso a previsão se confirme, o episódio poderá estar entre os mais intensos registrados desde 1950.

Prejuízos públicos chegam a R$ 3,6 bilhões

Do total de R$ 12,6 bilhões em perdas econômicas contabilizadas pela CNM, R$ 3,6 bilhões correspondem a prejuízos no setor público.

O maior impacto está justamente em um recurso essencial diante do agravamento das secas: a água. Somente os prejuízos relacionados ao abastecimento de água potável chegaram a R$ 1,8 bilhão. Outros R$ 557,8 milhões foram registrados em obras de infraestrutura pública, enquanto os prejuízos relacionados à assistência médica, saúde pública e atendimento de emergências chegaram a R$ 562,8 milhões.

Os números ajudam a dimensionar um aspecto cada vez mais presente no debate sobre adaptação climática: eventos extremos não produzem apenas impactos ambientais e sociais. Eles também geram custos diretos para municípios, empresas, infraestrutura e serviços públicos.

El Niño deve ficar muito forte entre outubro e dezembro

O cenário para os próximos meses exige atenção. Segundo o quarto boletim do Painel El Niño 2026-2027, divulgado em 1º de outubro, o fenômeno está em processo de intensificação.

As condições de El Niño foram confirmadas em junho e, no final de setembro, as anomalias de temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial já haviam superado 2°C em regiões monitoradas.

Os modelos indicam 95% de probabilidade de um El Niño muito forte entre outubro, novembro e dezembro, com possibilidade de permanência do fenômeno pelo menos até o primeiro trimestre de 2027.

Isso não significa, porém, que todas as regiões brasileiras enfrentarão os mesmos problemas.

El Niño pode trazer seca e enchentes ao mesmo tempo?

Sim. Um dos desafios do El Niño é justamente a diferença de seus impactos pelo território brasileiro.

Para o trimestre entre outubro e dezembro, as previsões indicam chuvas acima da média no Sul, aumentando a preocupação com cheias e outros eventos relacionados ao excesso de precipitação.

Já grande parte do Norte e áreas do Nordeste e Centro-Oeste apresentam tendência de chuvas abaixo da média.

As temperaturas devem permanecer acima do normal em grande parte do país. No Norte e Nordeste, a combinação entre menos chuva e temperaturas elevadas pode contribuir para o agravamento da seca e o aumento do risco de incêndios. Na Região Sul, o problema pode ser o oposto: chuvas excessivas, tempestades e inundações.

O cenário mostra por que o Brasil pode enfrentar, simultaneamente, escassez de água em determinadas regiões e excesso de chuva em outras.

Agricultura, energia e abastecimento de água também estão expostos

Os efeitos podem ultrapassar os danos imediatos provocados por um desastre. O Painel El Niño aponta que, no centro-norte do país, menos chuva e temperaturas elevadas podem afetar a germinação e o estabelecimento da soja da safra 2026/2027, as pastagens e a disponibilidade de água para os rebanhos.

Na Amazônia, a redução dos níveis dos rios também pode provocar dificuldades logísticas para comunidades que dependem do transporte fluvial.

A situação dos reservatórios é outro ponto de atenção. No Nordeste, 96 açudes monitorados pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) estavam com menos de 20% de sua capacidade.

Água, produção agrícola, energia, logística, saúde e infraestrutura acabam, portanto, conectadas ao mesmo risco climático.

Quanto custa não se adaptar às mudanças climáticas?

Os R$ 12,6 bilhões contabilizados em apenas três meses ajudam a colocar a adaptação climática em perspectiva econômica.

Investimentos em sistemas de alerta, drenagem urbana, prevenção de enchentes, segurança hídrica, infraestrutura resiliente, combate a incêndios, restauração de ecossistemas e planejamento territorial exigem recursos públicos.

Mas não investir em prevenção também tem custo. Quando um evento extremo destrói uma estrada, interrompe o abastecimento de água, prejudica uma lavoura ou obriga famílias a deixarem suas casas, parte desse impacto aparece posteriormente como perda econômica e aumento dos gastos públicos.

Essa conta tende a ganhar importância à medida que governos e empresas discutem quanto investir em adaptação às mudanças climáticas.

O novo cenário do El Niño torna essa discussão ainda mais urgente. Com 95% de probabilidade de um evento muito forte nos próximos meses, as instituições responsáveis pelo Painel recomendam que estados e municípios acompanhem os alertas oficiais e revisem seus planos de contingência.

Os R$ 12,6 bilhões registrados entre julho e setembro não representam uma estimativa do que o próximo trimestre poderá custar. Tampouco podem ser atribuídos integralmente ao El Niño.

Mas mostram o tamanho da exposição econômica que o país já enfrenta diante de secas, inundações, ondas de calor, vendavais e outros eventos extremos.

A pergunta deixa, então, de ser apenas quanto custa se adaptar às mudanças climáticas. É preciso calcular também quanto o Brasil já está pagando por seus impactos.

Leia o boletim completo: https://cnm.org.br/storage/noticias/2026/10/06102026_boletim%20el%20nino.jpeg

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