Plano prevê investimentos em segurança alimentar, saúde, monitoramento hidrológico, prevenção de incêndios florestais e resposta a desastres causados pelas mudanças climáticas.
O Governo Federal anunciou um plano de preparação para enfrentar os impactos do El Niño e de possíveis eventos climáticos extremos nos próximos meses. A estratégia prevê R$ 1,335 bilhão em investimentos voltados à prevenção, monitoramento e resposta a riscos relacionados às mudanças climáticas, incluindo ações de segurança alimentar, saúde pública, monitoramento hidrológico, fiscalização ambiental e combate a incêndios florestais.
O planejamento é coordenado pela Sala de Situação do El Niño, que reúne representantes de 24 ministérios e instituições federais responsáveis pelo acompanhamento das condições climáticas, gestão de riscos, defesa civil, segurança hídrica, energia, abastecimento e prevenção de desastres.
Recursos serão destinados à prevenção e resposta aos impactos do El Niño
Do total previsto, R$ 998 milhões serão aplicados em ações de abastecimento de alimentos, segurança alimentar, saúde e monitoramento hidrológico. Outros R$ 337 milhões correspondem ao crédito extraordinário autorizado pela Medida Provisória nº 1.367/2026 para fortalecer a fiscalização ambiental e as ações de prevenção e combate aos incêndios florestais.
Entre as principais medidas anunciadas estão:
- aquisição de 180 mil toneladas de milho e 310 mil toneladas de arroz para reforçar os estoques públicos;
- distribuição de 350 mil cestas de alimentos destinadas a povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares;
- fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), beneficiando cerca de 21,6 mil agricultores da Região Norte;
- ampliação das ações dos Centros de Informação em Saúde e Clima e da Força Nacional do SUS (ForSUS);
- investimentos para monitoramento contínuo do nível dos rios e das condições hidrológicas.
Além disso, o governo acompanhará permanentemente a infraestrutura logística, as cadeias de suprimento, a navegabilidade dos rios, o abastecimento de água e energia e a evolução dos cenários climáticos para ajustar as medidas sempre que necessário.
Monitoramento climático orienta ações preventivas
As decisões são baseadas em informações produzidas por órgãos especializados, como o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e a Defesa Civil Nacional.
Esses dados permitem identificar áreas mais vulneráveis aos impactos climáticos, subsidiando estados e municípios na elaboração de estratégias de preparação e resposta a secas, enchentes, incêndios e outros desastres naturais.
Governo reforça combate aos incêndios florestais
Dos recursos anunciados, R$ 337 milhões serão destinados especificamente às ações de fiscalização ambiental e de prevenção e combate aos incêndios florestais.
Os investimentos contemplam monitoramento ambiental, mobilização de brigadas, aquisição de equipamentos, apoio logístico e fortalecimento das operações realizadas pelos órgãos federais responsáveis pela proteção ambiental.
Também foram definidas áreas prioritárias para atuação intensificada nos estados do Pará, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Tocantins, onde serão instalados postos de comando equipados com helicópteros, aeronaves para lançamento de água, aviões de transporte e veículos especializados.
As ações incluem ainda iniciativas voltadas aos assentamentos rurais com maior risco de incêndios, como capacitação de agentes territoriais, elaboração de mapas locais de risco, mecanização do preparo do solo e incentivo a atividades produtivas sustentáveis apoiadas pelo Fundo Amazônia.
Investimentos estruturantes ampliam adaptação às mudanças climáticas
Segundo o governo, o plano integra um conjunto de investimentos estruturantes realizados desde 2023 para aumentar a resiliência do país frente aos impactos das mudanças climáticas.
Entre as principais iniciativas destacam-se:
- R$ 521 milhões do Fundo Amazônia destinados à aquisição de equipamentos para prevenção e combate aos incêndios florestais na Amazônia, Cerrado e Pantanal;
- atuação de 4.410 brigadistas federais e capacitação de cerca de cinco mil bombeiros, brigadistas e representantes de povos e comunidades tradicionais;
- R$ 10,2 bilhões previstos pelo Novo PAC para obras de segurança hídrica no Nordeste e R$ 582,5 milhões para a Região Norte;
- R$ 2,1 bilhões destinados à Operação Carro-Pipa desde 2023, beneficiando aproximadamente 1,6 milhão de pessoas por mês;
- R$ 8,9 bilhões aplicados entre 2023 e 2026 em ações da Defesa Civil para atendimento humanitário, recuperação de infraestrutura e restabelecimento de serviços essenciais após desastres.
Na área da saúde, oito Centros de Informação em Saúde e Clima acompanharão os impactos epidemiológicos relacionados a ondas de calor, secas, incêndios, enchentes e chuvas intensas. Já a Força Nacional do SUS contará com nove bases regionais para ampliar a capacidade de resposta em situações de emergência.
O que é o fenômeno El Niño?
O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Esse fenômeno altera os padrões climáticos em diversas regiões do planeta e provoca efeitos distintos no Brasil.
Entre os principais impactos esperados estão:
- estiagem mais intensa na Região Norte;
- ondas de calor e atraso das chuvas no Centro-Oeste e Sudeste;
- redução dos níveis dos rios, afetando a geração de energia, a navegação e o abastecimento de água;
- aumento do risco de incêndios florestais nas regiões Norte e Centro-Oeste;
- chuvas intensas, enchentes e deslizamentos de terra na Região Sul.
Diante desse cenário, especialistas destacam que ações preventivas e investimentos em adaptação climática são fundamentais para reduzir riscos à população, proteger ecossistemas e minimizar impactos econômicos provocados pelos eventos climáticos extremos.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.