A humanidade enfrenta um momento crítico. A exploração desenfreada dos recursos naturais não apenas ameaça espécies isoladas, mas coloca em risco a própria estabilidade do sistema terrestre. De acordo com um artigo científico recente publicado na Frontiers in Science, intitulado “Nature Positive: halting and reversing biodiversity loss toward restoring Earth system stability“, a solução reside em uma mudança de paradigma: o conceito de Natureza Positiva (Nature Positive).
Neste artigo, exploramos o que significa ser “Natureza Positiva”, por que as metas de 2030 são cruciais e como o Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal serve como nosso roteiro para a sobrevivência.
O que é Natureza Positiva?
O termo Natureza Positiva (Nature Positive) refere-se a um objetivo global de interromper e reverter a perda de natureza até 2030, com foco na recuperação total até 2050. Diferentemente da conservação tradicional, que muitas vezes busca apenas reduzir impactos negativos, a abordagem Nature Positive propõe conservar a natureza intacta, restaurar ecossistemas degradados e manter os processos ecológicos essenciais que sustentam a estabilidade e a resiliência do sistema terrestre.
Por que 2030 é o Prazo Limite?
A ciência é clara. Para evitar o colapso dos sistemas que sustentam a vida, como o ciclo da água, a polinização e a regulação do clima, precisamos agir nesta década. A estabilização biofísica da Terra exige uma integração sem precedentes entre biodiversidade, clima, recursos hídricos e desenvolvimento humano, reconhecendo que esses desafios são interdependentes.
O Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal (GBF)
Adotado em 2022, o Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal é o principal roteiro para alcançar uma natureza positiva. Ele estabelece 23 metas para 2030, entre elas a conservação efetiva de pelo menos 30% das áreas terrestres, das águas interiores e dos oceanos do planeta, a conhecida meta “30×30”.
No entanto, o estudo destaca que apenas ampliar áreas protegidas não é suficiente. É preciso priorizar a integridade dos biomas e dos processos ecológicos. A principal prioridade deve ser evitar a perda de ecossistemas ainda intactos, como a Amazônia, as florestas boreais e outros grandes biomas naturais, pois eles desempenham funções insubstituíveis para a estabilidade climática e dificilmente podem ser recuperados após sua degradação.
Estratégias Fundamentais para um Futuro Nature Positive
Para alcançar esses objetivos, o artigo propõe a utilização do Framework das Três Condições Globais (3Cs), que organiza as paisagens conforme seu grau de intervenção humana.
Cidades e Áreas Agrícolas (Cities and Farms): áreas altamente modificadas, onde o foco deve ser a restauração ecológica, a infraestrutura verde e práticas produtivas mais sustentáveis.
Terras Compartilhadas (Shared Lands): regiões onde atividades humanas e conservação da natureza devem coexistir de forma equilibrada, conciliando produção, conectividade ecológica e manutenção da biodiversidade.
Grandes Áreas Selvagens (Large Wild Areas): ecossistemas amplamente intactos que necessitam de proteção rigorosa para preservar processos ecológicos essenciais e garantir a estabilidade do sistema terrestre.
A Conexão entre Biodiversidade, Clima e Saúde
A perda de biodiversidade não é apenas um problema ambiental. Trata-se também de uma crise de saúde pública. O estudo aponta que a degradação dos ecossistemas aumenta o risco de doenças zoonóticas, como Ebola, mpox e COVID-19, ao favorecer o transbordo de patógenos da fauna silvestre para os seres humanos.
Além disso, alterações nos sistemas hidrológicos e a degradação de turfeiras elevam as emissões de gases de efeito estufa. Enquanto a drenagem das turfeiras libera grandes quantidades de carbono armazenado, mudanças em áreas úmidas podem aumentar as emissões de metano, reforçando a importância da conservação e da restauração desses ecossistemas para o enfrentamento da crise climática.
O Papel do Conhecimento Indígena e a Transformação Econômica
Um futuro Natureza Positiva exige o reconhecimento e a integração dos conhecimentos indígenas e tradicionais. Essas comunidades têm sido guardiãs da biodiversidade por milênios, baseando sua relação com a Terra em princípios de responsabilidade, reciprocidade e manejo sustentável.
Além disso, o estudo defende uma transformação do sistema econômico global para que a economia opere dentro dos limites do sistema terrestre. Os autores argumentam que a natureza não deve ser vista apenas como fonte de recursos, mas como a base que sustenta a sociedade e, consequentemente, toda a atividade econômica.
Mais do que uma agenda ambiental, o artigo propõe uma mudança de perspectiva. A economia existe dentro da sociedade, e a sociedade existe dentro do sistema terrestre. Isso significa que a proteção da natureza deixa de ser um objetivo isolado e passa a ser a base sobre a qual dependem o desenvolvimento, o bem-estar humano e a prosperidade econômica.
Conclusão: Um Chamado à Ação
Reverter a perda de biodiversidade até 2030 é um dos maiores desafios da nossa geração, mas também uma oportunidade para restaurar a estabilidade do planeta. O estudo ressalta, entretanto, que alcançar uma Natureza Positiva depende de ações integradas que conciliem a conservação da biodiversidade, a redução das emissões de gases de efeito estufa e a proteção dos processos naturais que regulam o sistema terrestre. Somente dessa forma será possível garantir um futuro resiliente para as próximas gerações.
Sobre os autores
O artigo “Nature Positive: halting and reversing biodiversity loss toward restoring Earth system stability“ foi publicado em 2026 na revista científica Frontiers in Science e reúne alguns dos principais especialistas mundiais em conservação da natureza, mudanças climáticas e governança ambiental.
O trabalho é liderado por Harvey Locke, estrategista internacional em conservação da biodiversidade e um dos principais defensores da iniciativa Nature Positive. Entre os coautores está Johan Rockström, diretor do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK) e reconhecido mundialmente por desenvolver o conceito dos Limites Planetários (Planetary Boundaries), hoje uma das bases científicas mais influentes para compreender os limites ecológicos do planeta.
O artigo também conta com a participação de dezenas de pesquisadores, especialistas e representantes de organizações internacionais, formando uma equipe multidisciplinar dedicada à integração entre biodiversidade, clima, recursos hídricos, saúde humana e desenvolvimento sustentável.
Sobre o artigo
Publicado na Frontiers in Science, o estudo apresenta uma das análises mais abrangentes já realizadas sobre o conceito de Natureza Positiva (Nature Positive). Os autores defendem que conservar espécies isoladamente já não é suficiente para enfrentar a crise ambiental. Em vez disso, propõem uma abordagem baseada na proteção da integridade dos ecossistemas e na restauração dos processos naturais que sustentam a estabilidade do sistema terrestre.
O trabalho oferece uma estrutura científica para orientar governos, empresas e instituições na implementação do Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, aprovado durante a COP15 da Convenção sobre Diversidade Biológica. Além disso, reforça que a recuperação da biodiversidade deve caminhar lado a lado com o enfrentamento das mudanças climáticas, a proteção dos recursos hídricos, a promoção da saúde humana e o desenvolvimento econômico sustentável.
Ao reunir evidências científicas e recomendações práticas, o artigo consolida o conceito de Natureza Positiva como uma estratégia central para interromper e reverter a perda de biodiversidade até 2030, contribuindo para restaurar a estabilidade do sistema terrestre e garantir um futuro mais resiliente para as próximas gerações.
Palavras-chave principais: Natureza Positiva, Marco Global de Biodiversidade Kunming-Montreal, perda de biodiversidade, metas de 2030, conservação da natureza, sistema terrestre, biodiversidade e clima.
Referência
Locke H, Rockström J, et al. Nature Positive: halting and reversing biodiversity loss toward restoring Earth system stability. Frontiers in Science (2026).

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.