Novo relatório aponta déficit de US$ 1,3 trilhão no financiamento da biodiversidade

Quanto dinheiro seria necessário para financiar adequadamente a conservação e a recuperação da biodiversidade no mundo? Um novo relatório elaborado pelo Paulson Institute, pela The Nature Conservancy (TNC) e pelo World Wildlife Fund (WWF) estima que a diferença entre os recursos disponíveis e o volume necessário chegou a cerca de US$ 1,317 trilhão por ano [1].

O dado faz parte do Financing Nature 2026: A Mid-Decade Update – From Isolated Progress to Implementation at Scale, divulgado em 23 de setembro. O estudo analisa a evolução do financiamento global da biodiversidade e apresenta caminhos para ampliar os recursos destinados à conservação e à recuperação dos ecossistemas [1].

O relatório mostra um aparente paradoxo: o financiamento destinado à biodiversidade cresceu nos últimos anos, mas os recursos continuam insuficientes diante do tamanho do desafio.

Segundo dados da BloombergNEF utilizados no estudo, o financiamento global da biodiversidade superou US$ 300 bilhões em 2024. Ainda assim, a lacuna anual estimada permanece em US$ 1,317 trilhão [1].

E há outro número que ajuda a dimensionar a importância econômica do tema: aproximadamente US$ 58 trilhões do Produto Interno Bruto (PIB) mundial apresentam dependência moderada ou alta da natureza [1]. Ou seja, financiar a biodiversidade não é apenas uma questão ambiental. Também é uma questão econômica.

Déficit de US$ 1,3 trilhão exige uma ressalva importante

A primeira edição do Financing Nature, publicada em 2020, estimava uma lacuna de aproximadamente US$ 711 bilhões por ano.

Na atualização de 2026, o valor apresentado chega a US$ 1,317 trilhão. Mas os dois números precisam ser comparados com cautela. O próprio relatório explica que a estimativa atual da BloombergNEF utiliza uma estrutura mais nova e abrangente. Portanto, não é possível atribuir toda a diferença entre os dois valores simplesmente a uma piora ocorrida nos últimos seis anos [1].

Ainda assim, o diagnóstico dos pesquisadores é claro: o mundo continua destinando recursos muito abaixo do necessário para os sistemas naturais dos quais a sociedade e a economia dependem.

US$ 7,3 trilhões fluem para atividades negativas para a natureza

O problema não está apenas na quantidade de dinheiro destinada à conservação. Enquanto o financiamento positivo para a biodiversidade permanece insuficiente, grandes volumes de recursos continuam associados a atividades que pressionam os ecossistemas.

Segundo estimativa do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) citada pelo relatório, os chamados fluxos financeiros negativos para a natureza chegaram a US$ 7,3 trilhões em 2023. Esse valor equivale a aproximadamente 30 vezes o investimento destinado a soluções baseadas na natureza [1].

Entre os fatores analisados pelo Financing Nature 2026 estão subsídios e incentivos públicos prejudiciais ao meio ambiente. As estimativas sobre esses subsídios variam de acordo com a metodologia utilizada, mas o relatório aponta valores entre US$ 800 bilhões e US$ 2,6 trilhões por ano.

Mesmo a estimativa mais conservadora supera amplamente os cerca de US$ 300 bilhões anuais atualmente destinados ao financiamento da biodiversidade [1].

Por que a biodiversidade é uma questão econômica?

A relação entre economia e biodiversidade é um dos pontos centrais do relatório. Água, produção de alimentos, polinização, pesca, madeira, regulação climática e proteção contra eventos extremos são exemplos de serviços fornecidos pelos ecossistemas e utilizados pelas sociedades e pelas atividades econômicas.

Uma análise da PwC citada no documento estima que mais da metade do PIB global, equivalente a aproximadamente US$ 58 trilhões, apresenta dependência moderada ou alta da natureza [1].

O Banco Mundial, por sua vez, estima que o colapso de apenas alguns serviços ecossistêmicos — como polinização, pesca e produção de madeira, poderia provocar perdas de US$ 2,7 trilhões por ano para a economia mundial até 2030 [1].

É nesse contexto que o relatório propõe uma mudança importante: deixar de enxergar a natureza como um recurso gratuito e passar a considerá-la parte da infraestrutura econômica essencial.

Financiamento público ainda é fundamental

Apesar do crescimento do interesse de empresas e investidores pelo tema, o setor público continua sendo a principal fonte de financiamento da biodiversidade no mundo. Segundo o relatório, os orçamentos públicos domésticos representam a maior parcela desses recursos.

O financiamento oficial para o desenvolvimento destinado à biodiversidade também apresentou crescimento nos últimos anos. O volume aumentou 42% em cinco anos, alcançando US$ 11,9 bilhões em 2023, último ano com dados específicos disponíveis no levantamento [1].

Mas há uma diferença importante dentro desses recursos. O financiamento que tinha a biodiversidade como objetivo principal caiu 17% ao longo do período de oito anos analisado, chegando a US$ 3,8 bilhões em 2023. Além disso, a biodiversidade representava apenas 7% de todo o financiamento para o desenvolvimento [1].

Capital privado cresce, mas ainda representa parcela pequena

O setor privado também começa a ganhar espaço no financiamento da natureza. O relatório mostra que os instrumentos financeiros disponíveis se diversificaram desde 2020, com expansão de fundos voltados à natureza, títulos temáticos, mecanismos de blended finance, mercados de carbono, pagamentos por serviços ecossistêmicos e operações relacionadas à dívida soberana [1].

Apesar dos avanços, o capital privado ainda representa uma parcela relativamente pequena do total destinado à natureza.

Isso ajuda a explicar por que uma das propostas centrais do Financing Nature 2026 é utilizar recursos públicos, bancos multilaterais de desenvolvimento e instrumentos de redução de risco para mobilizar mais investimentos privados.

O que precisa mudar?

O relatório não se limita a calcular quanto dinheiro falta. Ele procura identificar como recursos públicos e privados podem ser direcionados em maior escala para a biodiversidade. Uma das prioridades é reformar subsídios e incentivos que contribuem para a degradação ambiental.

Outra é incorporar a natureza às decisões econômicas. Isso significa considerar riscos relacionados à biodiversidade em políticas públicas, infraestrutura, concessão de crédito, investimentos e estratégias empresariais.

O estudo também defende maior integração entre clima e biodiversidade. Na prática, governos, empresas e investidores deveriam alinhar seus planos climáticos, ambientais, econômicos e de desenvolvimento antes da aplicação dos recursos, evitando que investimentos destinados a resolver um problema criem outro.

Um exemplo está na própria transição energética: a expansão de infraestrutura e a demanda por minerais críticos podem gerar novas pressões sobre ecossistemas se a biodiversidade não for considerada desde o planejamento.

Não faltam instrumentos financeiros

Um dos diagnósticos mais interessantes do Financing Nature 2026 é que o problema já não é simplesmente a ausência de mecanismos para financiar a biodiversidade.

Desde 2020, houve expansão significativa das ferramentas disponíveis. O relatório analisa mecanismos como blended finance, pagamentos por serviços ecossistêmicos, títulos relacionados à natureza, mercados de carbono, instrumentos de dívida soberana, financiamento de infraestrutura verde e azul e fundos voltados à conservação [1].

Também apresenta estudos de caso para mostrar como diferentes modelos já estão sendo aplicados. Entre eles estão iniciativas de financiamento de bacias hidrográficas, operações que combinam dívida e conservação, planejamento territorial para reduzir impactos sobre a biodiversidade e mecanismos destinados a atrair capital privado.

A questão passa, portanto, de “como criar mecanismos para financiar a biodiversidade?” para “como ampliar mecanismos que já demonstraram funcionar?”.

Biodiversidade precisa entrar nas decisões de empresas e investidores

O relatório também dedica atenção especial ao papel das empresas e do sistema financeiro. A recomendação é que riscos e dependências relacionados à natureza deixem de aparecer apenas em iniciativas específicas de sustentabilidade e passem a integrar decisões rotineiras de estratégia, operações, crédito e investimento.

Isso inclui melhorar a divulgação de informações corporativas relacionadas à natureza e utilizar novas tecnologias para medir e acompanhar impactos ambientais.

O Financing Nature 2026 chega, assim, a uma conclusão que vai além da conservação ambiental: a perda da biodiversidade também representa um risco econômico e financeiro sistêmico.

Com cerca de US$ 58 trilhões do PIB mundial moderada ou altamente dependentes da natureza e uma lacuna anual de financiamento estimada em US$ 1,317 trilhão, colocar biodiversidade no centro das decisões econômicas deixa de ser apenas uma agenda ambiental.

O desafio agora é fazer com que os recursos financeiros acompanhem a dimensão dessa dependência.

Leia o relatório completo : https://www.conservationgateway.org/content/dam/tnc/nature/en/documents/f/i/FinancingNature2026MidDecadeUpdate-d2.pdf

Referências

[1] Zhu, Li; Townshend, Terry; Niu, Rose; Krueger, Linda; Deutz, Andrew; Bender, Kevin. Financing Nature: A Mid-Decade Update: From Isolated Progress to Implementation at Scale. Paulson Institute, The Nature Conservancy e World Wildlife Fund, 2026.

[2] The Nature Conservancy. New Financing Nature 2026 Report Offers Playbook for Financing Nature Protection at Scale. 23 de setembro de 2026.

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