O Brasil enfrenta um cenário crítico em relação a eventos climáticos extremos. Em 2024, o país bateu recordes com mais de 3.600 alertas de desastres naturais, evidenciando a urgência de sistemas de proteção mais eficazes [1]. Nesse contexto, um novo documento técnico lançado pela UNDRR (Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres) e parceiros como a WMO e IFRC, intitulado “After-Event Review (AER) Methodological Guidance“, surge como uma ferramenta estratégica para fortalecer a resiliência brasileira.
A metodologia de Revisão Pós-Evento (AER) propõe uma análise estruturada após cada emergência para identificar falhas, sucessos e, principalmente, como evitar que tragédias se repitam. Para o Brasil, que ainda lida com as cicatrizes das inundações no Rio Grande do Sul e deslizamentos em regiões serranas, a implementação desse guia pode significar a transição de uma gestão reativa para uma cultura de aprendizado contínuo e prevenção.
O que é a Metodologia AER e por que ela é vital?
A After-Event Review (AER) não é apenas um relatório técnico; é um processo investigativo profundo que ocorre após um desastre ou exercício de simulação. O objetivo é dissecar o funcionamento dos Sistemas de Alerta Precoce (EWS) sob pressão real.
De acordo com o guia da ONU, a AER foca em quatro pilares fundamentais:
1. Informações sobre ameaças (monitoramento e previsão): Avaliar se as ameaças foram bem mapeadas.
2. Análise multirriscos e emissão de alertas: Verificar a precisão técnica dos alertas emitidos por órgãos por órgãos nacionais de monitoramento, como o Cemaden, no caso brasileiro.
3. Disseminação e Comunicação: Entender se o alerta chegou à população de forma clara e oportuna.
4. Capacidade de Resposta: Analisar se as comunidades e a Defesa Civil souberam como agir.
“Aprender com os eventos passados é essencial para fortalecer os sistemas de alerta precoce e reduzir os impactos de desastres futuros.” — Trecho do Guia Metodológico AER (2026).
Como a AER pode ajudar o Brasil na prática?
A aplicação sistemática da metodologia AER no território brasileiro oferece benefícios diretos para gestores públicos e cidadãos. A tabela abaixo compara a abordagem tradicional com a nova proposta metodológica:
| Aspecto | Abordagem Tradicional (Reativa) | Abordagem com Metodologia AER (Proativa) |
| Foco da Análise | Danos materiais e número de vítimas. | Causas raiz das falhas no sistema de alerta. |
| Aprendizado | Fragmentado e muitas vezes esquecido. | Institucionalizado e documentado para melhoria. |
| Engajamento | Focado em órgãos governamentais. | Inclusivo, ouvindo as comunidades afetadas. |
| Comunicação | Unidirecional (do governo para o povo). | Avaliada pela eficácia da recepção e ação. |
1. Correção de “Gargalos” na Comunicação
Estudos recentes da Agência Nacional de Águas (ANA) apontaram que a comunicação de risco é uma das maiores fragilidades no Brasil[2]. A AER utiliza a “Análise de Linha do Tempo” para identificar exatamente onde a mensagem parou: foi uma falha na torre de celular? O SMS foi confuso? Ou a população não confiou no alerta?
2. Fortalecimento da Defesa Civil Municipal
Muitos municípios brasileiros não possuem protocolos claros de resposta. O guia AER fornece modelos de entrevistas e pesquisas domiciliares que permitem às prefeituras entender por que certas áreas não evacuaram a tempo, permitindo o ajuste de Planos de Contingência locais.
3. Alinhamento com a Iniciativa “Alertas Precoces para Todos”
O Brasil é signatário de acordos internacionais que buscam proteger 100% da população com alertas eficazes até 2027. A metodologia AER é o “GPS” que indica se o país está no caminho certo para atingir essa meta da ONU.
A metodologia será lançada oficialmente em webinar nesta terça (04/08)
A Organização das Nações Unidas (ONU) realizará, no dia 4 de agosto de 2026, um webinar gratuito para apresentar oficialmente o guia metodológico “After-Event Reviews (AERs) of Early Warning Systems”, desenvolvido para apoiar governos e instituições na avaliação e no fortalecimento dos sistemas de alerta precoce.
O evento é promovido pelo Escritório das Nações Unidas para a Redução do Risco de Desastres (UNDRR), em parceria com a Organização Meteorológica Mundial (WMO), a União Internacional de Telecomunicações (ITU) e a Federação Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho (IFRC).
Durante o webinar, especialistas apresentarão os principais conceitos da nova metodologia, explicarão como as Revisões Pós-Evento (After-Event Reviews – AER) podem ser incorporadas às políticas de gestão de riscos e discutirão como os países podem transformar as lições aprendidas após desastres em ações concretas para fortalecer os sistemas multirriscos de alerta precoce.
Como participar
O webinar será realizado on-line, em inglês, no dia 4 de agosto de 2026, das 14h30 às 15h30 (horário da Europa Central – CET) | das 9h30 às 10h30 (horário de Brasília). A participação é gratuita, mas requer inscrição prévia.
Informações do evento:
- Evento: Launch of the Methodological Guidance on Conducting After-Event Reviews of Early Warning Systems
- Data: 4 de agosto de 2026
- Horário: 14h30 às 15h30 (CET) | 9h30 às 10h30 (horário de Brasília)
- Formato: On-line
- Idioma: Inglês
- Organizadores: UNDRR, WMO, ITU e IFRC
Os interessados podem se inscrever gratuitamente por meio da página oficial do evento da UNDRR. Além de apresentar a nova metodologia, o webinar pretende incentivar governos, órgãos de defesa civil, serviços meteorológicos e demais instituições a incorporarem as Revisões Pós-Evento como uma prática permanente para aprimorar a eficácia dos sistemas de alerta precoce e aumentar a resiliência diante de desastres naturais.
O Caminho para a Resiliência
Com a intensificação das mudanças climáticas, desastres não são mais uma questão de “se”, mas de “quando”. A adoção da metodologia After-Event Review permite que o Brasil transforme cada crise em uma oportunidade de evolução técnica e social.
Para especialistas em Gestão de Riscos de Desastres (GRD), o documento da UNDRR é um chamado à ação: não basta apenas emitir alertas; é preciso garantir que eles salvem vidas. A implementação dessas diretrizes pode colocar o Brasil na vanguarda da segurança climática na América Latina [3].
Referências
[1] BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Cemaden registra recorde de alertas e mais de 1,6 mil ocorrências de desastre no Brasil em 2024. Brasília, DF: MCTI, 10 jan. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/mcti/pt-br/acompanhe-o-mcti/noticias/2025/01/cemaden-registra-recorde-de-alertas-e-mais-de-1-6-mil-ocorrencias-de-desastre-no-brasil-em-2024. Acesso em: 3 ago. 2026.
[2] UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA. Estudo da ANA aponta a comunicação de risco como uma das fragilidades no contexto do desastre climático no RS em 2024. Observatório da Crise, 5 maio 2025. Disponível em: https://www.ufsm.br/projetos/institucional/observatorio-crise/2025/05/05/estudo-da-ana-aponta-a-comunicacao-de-risco-como-uma-das-fragilidades-no-contexto-do-desastre-climatico-no-rs-em-2024. Acesso em: 3 ago. 2026.
[3] WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION (WMO). Early Warnings for All Executive Action Plan 2023-2027. Sharm El-Sheikh: WMO, 2022. Disponível em: https://library.wmo.int/doc_num.php?explnum_id=11391.
Imagem: Raul Arboleda

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.