Levantamento da Quaest revela uma mudança histórica na percepção da população: eventos climáticos extremos deixam de ser vistos apenas como desastres naturais e passam a ocupar o centro do debate sobre gestão pública, infraestrutura e adaptação climática.
As enchentes passaram a ser a principal preocupação dos moradores do Rio Grande do Sul. O dado, revelado pela pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quinta-feira (30), representa uma mudança significativa na percepção da população sobre os desafios do estado e sinaliza uma transformação que pode influenciar diretamente a agenda pública e o debate eleitoral de 2026.
Segundo o levantamento, 34% dos entrevistados apontaram as enchentes como o maior problema do Rio Grande do Sul atualmente, superando temas que tradicionalmente lideravam esse tipo de pesquisa, como saúde, segurança pública e educação.

Mais do que um retrato da opinião pública, o resultado evidencia uma mudança estrutural na forma como a sociedade compreende os impactos das mudanças climáticas. O que antes era frequentemente tratado como uma pauta ambiental passa a ser percebido como um desafio de gestão pública, planejamento urbano, desenvolvimento econômico, infraestrutura e proteção da população.
Das tragédias à gestão de riscos
As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul nos últimos anos deixaram marcas profundas na economia, na infraestrutura e na vida de milhares de famílias. No entanto, a pesquisa indica que a população passou a enxergar esses eventos de forma diferente.
As enchentes deixaram de ser percebidas apenas como tragédias ocasionais. Hoje, elas são compreendidas como um problema que exige planejamento permanente, investimentos públicos e políticas de prevenção.
Essa mudança de percepção representa uma inflexão importante para a administração pública. Em vez de concentrar esforços apenas na resposta a desastres, cresce a expectativa de que governos municipais e estadual ampliem investimentos em prevenção, adaptação climática e redução de riscos.
Para analisar os impactos da mudança nas prioridades da população, o Portal do ESG ouviu Ricardo Ribeiro Alves, professor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Rio Grande do Sul, e autor do livro ESG na Gestão Pública ¹, obra que discute como princípios de sustentabilidade, governança e gestão de riscos podem ser incorporados às políticas públicas.
De acordo com Ricardo, “a população do Rio Grande está muito assustada com tudo o que aconteceu em 2024. Há pessoas em pânico quando começa a chover ou ventar forte. Adicionalmente, os meios de comunicação têm informado com frequência sobre o clima e as possíveis consequências, por exemplo, do El Niño deste ano. Isso aumenta a consciência das pessoas a respeito da crise climática”.
Mudanças climáticas deixam de ser apenas uma pauta ambiental
O resultado da Quaest reforça uma tendência observada internacionalmente: os efeitos das mudanças climáticas estão migrando do campo ambiental para o centro das decisões de governo.
Questões como drenagem urbana, ocupação do solo, restauração de matas ciliares, proteção de bacias hidrográficas, infraestrutura resiliente, sistemas de alerta e planejamento territorial passam a ser discutidas não apenas como iniciativas ambientais, mas como políticas essenciais para garantir segurança, continuidade dos serviços públicos e estabilidade econômica.
Em outras palavras, adaptar cidades às mudanças climáticas deixa de ser uma opção e passa a integrar o conjunto de responsabilidades básicas da gestão pública.
Na avaliação de Ricardo, esse novo cenário exige que governos priorizem políticas voltadas tanto à prevenção quanto à resposta rápida aos eventos climáticos extremos. “Ações para prevenir ou, pelo menos, minimizar os riscos de inundações; ações rápidas e eficientes da Defesa Civil e de outros órgãos governamentais em situações de calamidade, como enchentes, tornados e ventanias; criação de sistemas de alerta eficazes e instrução da população quanto à sua importância; por fim, apoio à população após os danos provocados pelos eventos, seja por meio de auxílio ou outras medidas”, destaca.
A adaptação climática entra definitivamente na agenda eleitoral
Historicamente, campanhas eleitorais no Rio Grande do Sul concentraram seus debates em áreas como saúde, educação, segurança pública e geração de empregos.
Sem reduzir a importância desses temas, a nova pesquisa indica que uma nova agenda começa a ganhar espaço.
Quando um evento climático extremo passa a ser apontado como o maior problema do estado, aumenta a tendência de que propostas relacionadas à prevenção de desastres, infraestrutura resiliente, gestão das águas e adaptação climática ocupem lugar de destaque nas campanhas eleitorais.
Mais do que prometer reconstruir cidades após uma tragédia, candidatos poderão ser cobrados por apresentar estratégias capazes de reduzir vulnerabilidades antes que novos eventos extremos ocorram.
Esse movimento acompanha uma transformação observada em diversos países, onde a adaptação climática passou a ser tratada como política de desenvolvimento, segurança e competitividade.
Para Ricardo, essa mudança tende a se consolidar nos próximos anos. “É o que o cidadão espera, principalmente o do Rio Grande do Sul, já que vivenciamos mais de perto as crises climáticas. Esperamos que os candidatos tenham um mínimo de conhecimento sobre o assunto, mas, principalmente, vontade política para realizar as prevenções necessárias. Para isso, é importante ter assessores que os auxiliem, caso sejam eleitos, e também buscar parcerias com institutos de pesquisa e universidades, ouvindo sempre o que diz a ciência”, afirma.
Gestão integrada dos recursos hídricos ganha protagonismo
Entre as estratégias apontadas por especialistas para reduzir os impactos das enchentes está a gestão integrada dos recursos hídricos.
Esse modelo considera que rios, bacias hidrográficas, áreas urbanas, uso do solo e ocupação do território fazem parte de um mesmo sistema e precisam ser planejados de forma articulada.
Nesse contexto, investir em obras de drenagem sem recuperar áreas de preservação, controlar a expansão urbana ou fortalecer a governança das bacias hidrográficas tende a produzir resultados limitados.
Da mesma forma, sistemas de monitoramento, protocolos de emergência, planejamento urbano baseado em risco climático e soluções baseadas na natureza passam a integrar uma abordagem mais ampla de prevenção.
Para quem deseja aprofundar esse tema, o Portal do ESG divulgou nesta semana um curso gratuito da ONU sobre gestão integrada dos recursos hídricos. A capacitação apresenta ferramentas e conceitos essenciais para compreender como o planejamento das bacias hidrográficas pode contribuir para reduzir os impactos de enchentes, secas e outros eventos climáticos extremos. Clique aqui para saber mais.
ESG na gestão pública: uma agenda que ganha força
A mudança registrada pela pesquisa também fortalece a discussão sobre ESG na administração pública.
Embora o conceito seja frequentemente associado ao setor privado, seus princípios podem orientar governos na construção de políticas mais resilientes, transparentes e voltadas à gestão de riscos.
No eixo ambiental, isso significa incorporar critérios climáticos ao planejamento das cidades.
No aspecto social, envolve proteger populações vulneráveis e reduzir desigualdades diante dos eventos extremos.
Já a governança exige planejamento de longo prazo, integração entre órgãos públicos, uso de dados para tomada de decisão e transparência na execução das políticas públicas.
À medida que eventos extremos se tornam mais frequentes, essas dimensões deixam de representar diferenciais administrativos e passam a compor requisitos fundamentais para uma gestão pública preparada para os desafios do século XXI.
De acordo com Ricardo, “os eventos climáticos podem ser categorizados como um risco com potencial de estragos para os cidadãos, as empresas e os governos. Algumas regiões, como o Rio Grande do Sul, são mais afetadas em termos de chuvas na época do El Niño, mas outras regiões também sofrem os seus efeitos como seca ou calor extremo. Quando pensamos em ESG vemos que uma crise climática, seja qual for, diz respeito ao E do ESG (ambiental), atingindo pessoas, sejam elas cidadãos, empresários ou governantes (S do ESG – social), e necessitando ações de prevenção, atuação no momento da crise climática e, por fim, reação após os danos sofridos, como vimos nos casos de reconstrução das cidades após as enchentes. Ou seja, no “antes”, no “durante” e no “depois” do evento. Esta última etapa representa a Governança, ou seja, o G do ESG”.
O desafio já não é reconhecer o problema
A principal conclusão da pesquisa da Quaest vai além do ranking de preocupações da população.
Ela indica que os gaúchos passaram a reconhecer que enchentes e eventos climáticos extremos não são apenas consequências da natureza, mas desafios que exigem planejamento, coordenação institucional e políticas públicas permanentes.
A discussão, portanto, deixa de ser se a adaptação às mudanças climáticas é necessária.
O debate passa a ser com que velocidade estados e municípios conseguirão transformar esse diagnóstico em ações concretas, capazes de reduzir riscos, proteger vidas e aumentar a resiliência das cidades diante de um cenário climático cada vez mais desafiador.
¹ Os desafios da adaptação climática, da prevenção de desastres e da incorporação dos princípios ESG na administração pública são abordados com mais profundidade por Ricardo Ribeiro Alves no livro “ESG na Gestão Pública“. Na obra, o autor discute como governos podem integrar sustentabilidade, governança e responsabilidade social ao planejamento e à formulação de políticas públicas, destacando a importância da gestão de riscos climáticos, da transparência e da tomada de decisões baseada em evidências para fortalecer a resiliência dos municípios e melhorar a prestação de serviços à sociedade.
Leia a pesquisa completa clicando aqui.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.