Reino Unido gera US$ 1,5 bilhão com mercados de carbono, mas relatório alerta para risco de perda de liderança

A economia de créditos de carbono do Reino Unido já movimenta cerca de £1,2 bilhão (US$ 1,5 bilhão) por ano e sustenta mais de 11 mil empregos, consolidando o país como um dos principais polos globais desse mercado. Os dados fazem parte de um novo relatório publicado pela City of London Corporation em parceria com o UK Carbon Markets Forum, que também alerta que essa liderança pode estar ameaçada sem uma ação coordenada do governo.

O estudo dimensiona pela primeira vez o impacto econômico do setor no país e aponta que os créditos de carbono estão se consolidando como uma classe de ativos em rápida expansão, diretamente ligada às metas de neutralidade climática. Em um cenário de aumento da demanda por créditos de alta integridade, impulsionado inclusive por tecnologias emergentes intensivas em energia, o desafio passa a ser como direcionar capital em escala para esses mercados. Nesse contexto, o Reino Unido já conta com um ecossistema financeiro e de serviços profissionais sofisticado, capaz de sustentar o crescimento do setor, desde que haja um arcabouço regulatório adequado para impulsionar impacto climático real e geração de valor no longo prazo.

Crescimento depende de políticas e demanda global

Atualmente avaliados em cerca de US$ 1,4 bilhão, os mercados globais de carbono podem atingir entre US$ 15,8 bilhões e US$ 267,9 bilhões até 2050, dependendo do alinhamento de políticas públicas e da evolução da demanda corporativa.

Entre os principais vetores desse crescimento estão a expansão de data centers e da inteligência artificial, as exigências regulatórias da aviação internacional, mecanismos previstos no Acordo de Paris, metas corporativas de descarbonização e a integração de créditos de carbono em sistemas regulados de comércio de emissões no Reino Unido e na União Europeia.

Infraestrutura financeira sustenta protagonismo

A posição de destaque do Reino Unido está fortemente ligada à sua infraestrutura financeira. O país lidera globalmente o mercado de seguros de carbono, com mais de £380 milhões em ativos segurados em 2025, e projeções que indicam crescimento significativo nas próximas décadas, refletindo a necessidade crescente de gestão de riscos associados a esses ativos.

Empresas britânicas também ocupam posição relevante nos serviços de classificação e verificação, enquanto Londres concentra uma robusta infraestrutura de negociação. Em 2025, plataformas sediadas na cidade movimentaram cerca de US$ 1,4 trilhão, abrangendo mercados regulados internacionais, incluindo sistemas europeus e programas da aviação global.

Além disso, o país se destaca como um dos principais polos de empresas de remoção de carbono por engenharia, atraindo bilhões em investimentos recentes e reforçando o interesse crescente por soluções de longo prazo para a descarbonização.

Impacto econômico se espalha pelo território

Embora Londres concentre grande parte das atividades financeiras, os benefícios econômicos dos mercados de carbono se distribuem por diferentes regiões do país. A maior parte dos projetos baseados na natureza está localizada em áreas rurais, apoiando práticas de conservação, agricultura e gestão sustentável da terra.

Entre 2023 e 2025, cerca de US$ 3,5 bilhões foram investidos em projetos e negócios ligados ao carbono no Reino Unido. Iniciativas de reflorestamento e recuperação de turfeiras têm papel central, protegendo mais de 100 mil hectares e gerando aproximadamente £500 milhões por ano em serviços ecossistêmicos, como mitigação de enchentes, restauração da biodiversidade e melhoria da qualidade do ar.

Falta de coordenação pode comprometer liderança

Apesar da posição atual favorável, o relatório reforça que essa vantagem não é garantida. A análise indica que os mercados de carbono já representam uma parcela relevante dos serviços financeiros do país, gerando valor econômico expressivo, criando empregos e atraindo investimentos internacionais. Ao mesmo tempo, destaca-se que o avanço acelerado da demanda global, impulsionado inclusive pelo crescimento da inteligência artificial, coloca o Reino Unido em uma posição estratégica, mas vulnerável sem políticas claras.

Há uma avaliação de que o país tem potencial para se consolidar como principal centro global desse mercado, mas isso dependerá de decisões governamentais que tratem o tema como prioridade estratégica. Entre as recomendações estão maior clareza sobre o uso de créditos de carbono, definição de padrões de qualidade, combate ao greenwashing e criação de incentivos para destravar investimentos, especialmente em soluções baseadas na natureza.

Implicações para o futuro

Para investidores e empresas, os créditos de carbono deixam de ser apenas uma ferramenta de conformidade e passam a representar uma oportunidade estratégica dentro da transição para uma economia de baixo carbono.

Já para formuladores de políticas públicas, o alerta é direto. Sem coordenação entre áreas como finanças, energia, comércio e relações exteriores, o Reino Unido pode perder espaço em um mercado que deve crescer rapidamente nas próximas décadas. O resultado desse processo será decisivo tanto para o papel do país na economia global de carbono quanto para a efetividade na mobilização de capital rumo às metas climáticas internacionais.