Um artigo publicado na revista Nature Climate Change, intitulado “Cities need robust carbon dioxide removal strategies to meet net-zero targets”, analisa os desafios enfrentados pelas cidades europeias que pretendem alcançar emissões líquidas zero. Os autores alertam que as metas de neutralidade climática podem perder credibilidade quando dependem excessivamente de capacidades limitadas de remoção de dióxido de carbono, especialmente quando envolvem formas temporárias de armazenamento de carbono.
O estudo, apresentado num policy brief baseado na análise dos planos climáticos de 103 cidades europeias, defende que a remoção de CO₂ deve ser tratada como parte de uma estratégia rigorosa para lidar com as emissões residuais. A prioridade, no entanto, deve continuar a ser a redução direta das emissões.
A mensagem central é clara: as cidades precisam de reduzir as emissões, estabelecer regras transparentes para a remoção de carbono e garantir uma contabilização robusta. Sem critérios rigorosos, as metas de neutralidade podem favorecer acusações de greenwashing, adiar transformações estruturais e aumentar a pressão sobre áreas urbanas, periurbanas e rurais utilizadas para a remoção de carbono.
Mais de 100 cidades europeias que integram a iniciativa Mission Cities comprometeram-se a atingir emissões líquidas zero até 2030. O objetivo é ambicioso, mas a credibilidade dessas metas depende de critérios claros para distinguir a redução de emissões da compensação das emissões que permanecem.
O que são emissões residuais?
As emissões residuais são uma questão central nas estratégias para alcançar o net zero. No entanto, o próprio estudo chama atenção para a ausência de uma definição clara e de critérios analíticos consistentes sobre quais emissões devem ser consideradas realmente residuais.
Por isso, os autores defendem uma análise rigorosa e iterativa para identificar essas emissões. Sem essa distinção, uma cidade pode depender excessivamente da remoção de carbono para atingir uma meta contabilística de emissões líquidas zero sem demonstrar reduções suficientemente profundas nas suas emissões.
A neutralidade climática torna-se mais robusta quando as reduções de emissões e as estratégias utilizadas para compensar emissões residuais são claramente identificadas e contabilizadas.
O estudo analisou os planos climáticos de 103 cidades europeias
A análise examinou os Planos de Ação para a Neutralidade Climática apresentados por 103 cidades europeias. Uma equipe de 61 especialistas realizou uma análise sistemática de textos, figuras e outros materiais, utilizando definições padronizadas para identificar informações sobre emissões residuais e estratégias de compensação.
A investigação também distinguiu opções temporárias e permanentes de remoção de CO₂ e acompanhou a consideração de créditos de carbono nas estratégias municipais.
Os autores criaram o Residual Emissions Strategy Robustness Index, ou RESRI, um índice destinado a comparar a robustez das estratégias municipais. O indicador reúne seis dimensões: quantificação das emissões residuais, opções de compensação, potencial de compensação, calendário, MRV (monitoramento, reporte e verificação) e governança.
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| Dimensão avaliada pelo RESRI | O que é avaliado |
| Quantificação | A identificação e quantificação das emissões residuais |
| Opções de compensação | As alternativas consideradas para compensar emissões |
| Potencial | A capacidade de compensação considerada nas estratégias |
| Calendário | A relação entre o momento da compensação e as metas de neutralidade |
| MRV | Os sistemas de monitoramento, reporte e verificação |
| Governança | As condições institucionais e estruturas de governança |
Energia e transportes continuam a concentrar as emissões residuais
O estudo mostra que as emissões residuais das cidades estão estruturalmente concentradas nos setores da energia estacionária e dos transportes. Os autores destacam que esses setores são frequentemente considerados mais fáceis de reduzir do que outros, o que levanta questões sobre a forma como as emissões residuais estão a ser definidas.
A permanência de uma parcela significativa dessas emissões pode aumentar a dependência de estratégias de remoção de CO₂ e contribuir para maiores gastos no longo prazo.
Por isso, os investigadores recomendam que os municípios priorizem reduções contínuas de emissões e considerem metas quantitativas distintas para os cortes de emissões e para a compensação das emissões residuais.
A remoção de CO₂ não deve obscurecer a diferença entre a redução efetiva das emissões e a compensação das emissões que permanecem.
A remoção baseada no uso do solo pode criar novos conflitos ambientais
As estratégias analisadas são fortemente marcadas por opções de remoção de carbono baseadas no uso do solo. Entre as alternativas consideradas pelas cidades estão o reflorestamento e melhoria da gestão florestal, o sequestro de carbono no solo, a restauração de zonas húmidas, a revegetação e a arborização urbana, além da agrofloresta.
Estas soluções podem desempenhar um papel nas estratégias climáticas, mas não são ilimitadas. O estudo alerta que uma forte dependência da remoção baseada no solo pode aumentar a pressão sobre terras já escassas.
Essa competição pode afetar a biodiversidade, a segurança alimentar e a justiça social. Os autores também chamam atenção para o risco de transferir a responsabilidade pela remoção de carbono para áreas rurais próximas das cidades.
Outra questão é a permanência. O estudo destaca riscos associados às formas temporárias de remoção de CO₂ e alerta que benefícios climáticos adiados ou temporários podem comprometer a credibilidade das metas de neutralidade.
Por isso, a duração e a robustez do armazenamento de carbono precisam de ser consideradas nas estratégias de compensação.
Cidades precisam de portefólios diversificados de remoção de carbono
O policy brief recomenda que os municípios diversifiquem os seus portfólios de remoção de CO₂. Segundo os autores, essa diversificação pode ajudar a lidar com riscos relacionados à permanência, flutuações de mercado, competição por terras, escassez de oferta e questões de justiça distributiva.
Entre as opções consideradas no estudo estão a revegetação e a arborização urbana, a restauração de zonas húmidas, a gestão de carbono azul e a revegetação marinha. Também aparecem materiais de construção de base biológica, bioenergia com captura e armazenamento de carbono, biochar, captura direta do ar e outras formas de captura e armazenamento de carbono.
Uma oportunidade destacada pelos autores é o potencial do ambiente construído para funcionar como um sumidouro distribuído de carbono, incluindo o armazenamento de carbono em edifícios por meio de materiais de base biológica. No entanto, essas alternativas ainda são consideradas apenas por uma minoria das cidades analisadas.
O papel dos créditos de carbono continua controverso
O estudo indica que os créditos de carbono são amplamente vistos com desconfiança pelas cidades analisadas. Os autores alertam para problemas relacionados à dupla contagem e à necessidade de garantir que a contabilização da compensação seja compatível com os prazos das metas de neutralidade.
Os riscos associados a formas temporárias de remoção também exigem atenção. Sem sistemas robustos de monitoramento, reporte e verificação, pode ser difícil avaliar adequadamente as emissões residuais, o potencial de remoção e a contribuição efetiva das estratégias de compensação.
Para melhorar a integridade das metas climáticas, o policy brief recomenda estruturas contabilísticas transparentes que minimizem a dupla contagem e alinhem o momento da compensação aos prazos estabelecidos para alcançar a neutralidade.
Cinco prioridades para uma política climática urbana mais robusta
A primeira prioridade é manter a redução das emissões no centro da política climática. Os autores recomendam uma análise iterativa das emissões residuais e consideram importante estabelecer metas quantitativas distintas para a redução das emissões e para a compensação.
A segunda é diversificar as opções de remoção de CO₂, reduzindo os riscos relacionados à permanência, às flutuações de mercado, à competição por terras, à escassez e à justiça distributiva.
A terceira é desenvolver acordos entre os níveis supranacional, nacional e local para criar clareza regulatória, desenvolver infraestruturas e oferecer apoio previsível às opções permanentes de remoção de CO₂.
A quarta prioridade é criar estruturas contabilísticas robustas e transparentes, capazes de minimizar a dupla contagem, alinhar a compensação aos prazos das metas de neutralidade e incorporar salvaguardas sociais e ecológicas.
A quinta é integrar o planeamento das emissões residuais numa governança multinível e participativa, coordenando objetivos relacionados ao uso do solo, ao clima e ao desenvolvimento.
| Prioridade | Objetivo climático |
| Reduzir antes de compensar | Manter a redução das emissões como prioridade |
| Diversificar as soluções | Lidar com riscos de permanência, mercado, terras e disponibilidade |
| Coordenar governos | Criar clareza regulatória, infraestrutura e apoio para remoções permanentes |
| Reforçar a contabilização | Minimizar a dupla contagem e alinhar a compensação às metas |
| Fortalecer a governança | Coordenar objetivos climáticos, territoriais e de desenvolvimento |
A neutralidade climática urbana depende de governança
A principal conclusão do estudo é que a remoção de dióxido de carbono nas cidades não é apenas uma questão de escolher tecnologias ou projetos. A robustez das estratégias também depende da forma como as emissões residuais são definidas, quantificadas e compensadas.
As cidades podem desempenhar um papel pioneiro na transição climática, mas as suas metas de emissões líquidas zero precisam de critérios claros e estruturas transparentes de contabilização. Uma estratégia robusta exige reduções contínuas das emissões, identificação rigorosa das emissões residuais, avaliação das opções de compensação e sistemas adequados de monitoramento, reporte e verificação.
Para que o conceito de net zero mantenha credibilidade, a remoção de CO₂ deve ser tratada como um recurso limitado e estrategicamente gerido. A prioridade continua a ser reduzir as emissões, enquanto a compensação das emissões residuais deve seguir regras claras, transparentes e compatíveis com a integridade climática.
Perguntas frequentes sobre remoção de CO₂ nas cidades
O que significa remoção de dióxido de carbono?
A remoção de dióxido de carbono, ou CDR, refere-se às estratégias utilizadas para retirar CO₂ da atmosfera e armazená-lo. O estudo analisou diferentes opções, incluindo alternativas temporárias e permanentes.
A remoção de carbono substitui a redução de emissões?
Não. O policy brief recomenda priorizar a redução contínua das emissões e utilizar análises rigorosas para identificar as emissões residuais que precisam de ser consideradas nas estratégias de compensação.
Quais são os riscos da remoção de CO₂ baseada no uso do solo?
Uma forte dependência dessas soluções pode aumentar a pressão sobre terras escassas e criar conflitos com outros usos, afetando a biodiversidade, a segurança alimentar e a justiça social. O estudo também alerta para o risco de transferir a responsabilidade pela remoção para áreas rurais próximas das cidades.
O que é o índice RESRI?
O RESRI é um índice criado para comparar a robustez das estratégias municipais relacionadas às emissões residuais. Ele considera seis dimensões: quantificação das emissões residuais, opções de compensação, potencial de compensação, calendário, MRV (monitoramento, reporte e verificação) e governança.
Como as cidades podem evitar o greenwashing climático?
O estudo recomenda critérios mais rigorosos e transparentes para definir e compensar emissões residuais. Entre as medidas estão priorizar reduções de emissões, criar estruturas contabilísticas que minimizem a dupla contagem, alinhar a compensação às metas de neutralidade e fortalecer os sistemas de monitoramento, reporte e verificação.
Referências
[1] Ulpiani, G. et al. “Cities need robust carbon dioxide removal strategies to meet net-zero targets”. Nature Climate Change (2026).
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.