A restauração da Caatinga começa a ganhar uma dimensão que vai muito além da conservação da biodiversidade. Em uma região onde a disponibilidade de água já é um dos principais desafios para populações, agricultura e atividades econômicas, recuperar áreas degradadas pode se tornar parte da estratégia de adaptação às mudanças climáticas e de fortalecimento da segurança hídrica no Nordeste.
A discussão ganhou força durante a COP17 da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação, realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia. Representantes dos nove estados do Nordeste apresentaram projetos para atrair investimentos para três frentes consideradas estratégicas para a região: segurança hídrica, transição energética e restauração da Caatinga [1].
A proposta chama atenção porque coloca a restauração ecológica dentro de uma agenda tradicionalmente associada a obras de infraestrutura, financiamento climático e desenvolvimento regional.
O problema não é apenas a falta de chuva
A Caatinga é um bioma adaptado a condições de altas temperaturas e disponibilidade limitada de água. O problema é que a degradação do solo e da vegetação pode reduzir a capacidade dos ecossistemas de suportar períodos prolongados de seca e de se recuperar depois deles.
O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) destaca a importância da Caatinga para aproximadamente 27 milhões de pessoas e ressalta que parte significativa da população que vive no bioma depende diretamente de seus recursos naturais [2].
Por isso, discutir segurança hídrica no Nordeste não significa olhar apenas para reservatórios, adutoras, cisternas, barragens ou sistemas de dessalinização. É preciso considerar também a capacidade dos territórios de conservar solo, vegetação e água. Esse é um dos pontos que tornam a restauração da Caatinga especialmente relevante.
Restaurar a vegetação também é uma estratégia de água
A lógica é relativamente simples: ecossistemas degradados podem perder parte de sua capacidade de regular processos hidrológicos, proteger o solo e sustentar serviços ecossistêmicos.
Isso não significa que restaurar a Caatinga vá, sozinho, resolver a crise hídrica do Nordeste. A disponibilidade de água depende de fatores climáticos, infraestrutura, gestão dos recursos hídricos, demanda, armazenamento e uso do solo.
Mas a restauração pode funcionar como uma infraestrutura natural complementar às soluções tradicionais. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), por exemplo, aponta que o cenário de segurança hídrica para 2035 apresenta predominância de áreas com menor segurança hídrica no Nordeste. O índice considera a combinação entre disponibilidade de água, demandas e infraestrutura existente [3].
Nesse contexto, recuperar áreas degradadas pode contribuir para aumentar a resiliência dos territórios diante de secas e extremos climáticos.
A ciência da restauração da Caatinga está avançando
Um dos avanços importantes nessa agenda é a construção de referências técnicas específicas para restaurar o bioma.
A Rede para Restauração da Caatinga (ReCaa), com apoio do projeto GEF Terrestre, coordenado tecnicamente pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, gerenciado pelo Funbio e executado tecnicamente pelo Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan), desenvolveu o “Referencial Teórico para a Restauração e Protocolo de Monitoramento da Restauração da Caatinga”.
A publicação foi apresentada em 2026 como um protocolo de monitoramento da restauração da Caatinga construído coletivamente. O objetivo é qualificar a coleta de dados, fortalecer o trabalho de campo e oferecer subsídios técnicos para políticas públicas e projetos de restauração no semiárido [4].
Esse ponto é importante porque restauração não significa simplesmente plantar árvores. Em um bioma como a Caatinga, as estratégias precisam considerar as características ecológicas do semiárido, a vegetação nativa, os solos, a disponibilidade de água, a resiliência dos ecossistemas e as condições socioeconômicas das comunidades.
A própria ReCaa coloca entre seus objetivos a geração de renda e de novas atividades laborais associadas à cadeia produtiva da restauração [5].
E a restauração pode gerar emprego e renda
É aqui que a agenda ambiental começa a se conectar diretamente com a economia regional.
Restaurar áreas degradadas exige coleta e produção de sementes, viveiros, plantio, manejo, assistência técnica, monitoramento, pesquisa, logística e acompanhamento dos resultados. Ou seja: existe uma cadeia econômica por trás da restauração.
A ReCaa estabelece, inclusive, como uma de suas metas converter 250 mil hectares de áreas degradadas em Caatinga restaurada. A rede relaciona essa agenda à criação de oportunidades de trabalho e geração de renda no território [5]. O próprio modelo de financiamento começa a incorporar essa lógica.
Investimentos já começam a conectar restauração, água e economia
Um exemplo é o edital Caatinga Viva, do programa Floresta Viva. A iniciativa reúne recursos do BNDES, Banco do Nordeste e KfW e tem como objetivo apoiar projetos de restauração ecológica e fortalecimento da cadeia produtiva da restauração em unidades de conservação da Caatinga, áreas de influência e municípios com clima árido.
São mais de R$ 23,2 milhões destinados a 11 projetos, com previsão de restauração de 1.632,1 hectares. O edital estabelece que os projetos devem conciliar benefícios ecológicos e manutenção dos serviços ecossistêmicos com geração de emprego, renda, segurança hídrica e segurança alimentar [6].
É justamente essa integração que pode mudar a escala da restauração. Em vez de tratar a recuperação ambiental como uma ação isolada, o território passa a ser visto como um sistema no qual água, biodiversidade, produção, renda e adaptação climática estão conectados.
Nordeste quer transformar essa agenda em investimento
Na COP17, o Consórcio Nordeste apresentou justamente uma estratégia baseada nessa integração.
Entre as propostas estão iniciativas de segurança hídrica, como cisternas, barragens subterrâneas, sistemas de reúso e dessalinização descentralizada, ao lado de projetos de transição energética e ações de restauração da Caatinga, incluindo o chamado “recaatingamento” [1].
O Consórcio também busca recursos para o Fundo Caatinga, pensado como instrumento para centralizar recursos e reduzir custos de transação dos projetos desenvolvidos na região [7]. A estratégia é importante porque um dos maiores desafios da restauração não é apenas saber como restaurar, mas conseguir financiar a recuperação em escala.
A Caatinga pode entrar na agenda da adaptação climática
A discussão ocorre em um momento em que a degradação da terra, a seca e as mudanças climáticas estão cada vez mais relacionadas.
Durante a COP17, o Brasil apresentou sua primeira meta nacional de Neutralidade da Degradação da Terra para 2030, incluindo a previsão de recuperar ou restaurar mais de 163 mil km² de áreas degradadas e outras ações de prevenção, conservação e manejo sustentável que, somadas, abrangem cerca de 3,67 milhões de km² [8].
A agenda brasileira também ganhou relevância diante da expansão das condições semiáridas. Estudos apresentados no contexto da COP17 apontam que áreas semiáridas brasileiras cresceram aproximadamente 75 mil km² por década desde a década de 1960 [8].
Nesse cenário, restaurar a Caatinga deixa de ser apenas uma questão de biodiversidade. Passa a ser também uma estratégia para aumentar a capacidade dos territórios de enfrentar secas, proteger serviços ecossistêmicos, sustentar atividades produtivas e reduzir vulnerabilidades sociais.
O desafio agora é transformar projetos em escala
A grande questão é que iniciativas pontuais não serão suficientes diante da dimensão do problema.
A restauração da Caatinga precisa de financiamento de longo prazo, conhecimento técnico, participação das comunidades locais, monitoramento e modelos econômicos capazes de manter os projetos depois do investimento inicial.
Também será necessário integrar diferentes fontes de recursos: orçamento público, bancos de desenvolvimento, fundos climáticos, investimento privado, filantropia, mecanismos de pagamento por serviços ambientais e, quando houver integridade ambiental e viabilidade econômica, mercados associados à agenda de carbono e biodiversidade.
O avanço da agenda técnica e dos mecanismos de financiamento mostra que essa transformação já começou. A questão agora é saber se a restauração conseguirá ganhar escala suficiente para produzir impacto sobre os territórios.
Restaurar a Caatinga é investir em resiliência
Durante muito tempo, a Caatinga foi associada principalmente à seca e à escassez. Hoje, uma nova visão começa a ganhar espaço: a de que seus ecossistemas podem ser parte da solução para tornar o Nordeste mais resiliente.
Restaurar a Caatinga não significa criar uma fonte artificial de água nem substituir investimentos em infraestrutura hídrica. Significa recuperar a capacidade dos ecossistemas de prestar serviços essenciais, fortalecer comunidades, proteger o solo, sustentar a biodiversidade e aumentar a resiliência dos territórios diante de um clima mais extremo.
E isso muda a pergunta. Em vez de perguntar apenas quanto custa restaurar a Caatinga, começa a fazer sentido perguntar quanto custa não restaurá-la.
Para o Nordeste, essa pode ser uma das discussões mais importantes da próxima década: transformar restauração ecológica em investimento em segurança hídrica, adaptação climática, geração de renda e desenvolvimento regional.
A Caatinga pode deixar de ser vista apenas como um bioma que precisa ser protegido e passar a ser encarada também como parte da infraestrutura natural necessária para construir um Nordeste mais resiliente.
Referências
[1] FOLHA DE PERNAMBUCO. Estados do Nordeste tentam atrair investimentos para Caatinga na COP17. 2026.
[2] ICMBio. Caatinga. Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Governo Federal.
[3] ANA. Índice de Segurança Hídrica – Plano Nacional de Segurança Hídrica. Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico.
[4] RECAA/CEPAN. Referencial Teórico para a Restauração e Protocolo de Monitoramento da Restauração da Caatinga. 2025/2026.
[5] RECAA. Rede para Restauração da Caatinga. Informações institucionais, metas e cadeia produtiva da restauração.
[6] FUNBIO. Floresta Viva – Edital Caatinga Viva. Fundo Brasileiro para a Biodiversidade.
[7] CBN RECIFE. Estados do Nordeste negociam investimentos para Caatinga na COP17. 2026.
[8] FOLHA DE S.PAULO. Em cúpula da ONU, Brasil apresenta meta para conter degradação de terras. 2026.
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.