A seca no Brasil continua exigindo atenção no último trimestre de 2026. Um boletim publicado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), identificou aumento do número de municípios em situação de seca severa em uma escala de monitoramento de seis meses. O cenário preocupa especialmente pela relação entre a disponibilidade de água, a produção agropecuária e o abastecimento hídrico.
De acordo com o levantamento, o número de municípios classificados em seca severa passou de 51 para 80 entre julho e agosto de 2026, uma alta de aproximadamente 57%. No mesmo período, os municípios em seca moderada aumentaram de 533 para 586.
Os dados fazem parte do Boletim de Impactos de Extremos de Origem Hidro-Geo-Climático em Atividades Estratégicas para o Brasil, publicado em 8 de outubro. O documento reúne informações sobre a situação hídrica e apresenta cenários para diferentes setores econômicos no trimestre de outubro, novembro e dezembro.
Seca severa avança em diferentes regiões do Brasil
O Cemaden utiliza o Índice Integrado de Seca (IIS) para acompanhar as condições de seca em diferentes escalas temporais. A análise de três meses ajuda a identificar condições mais recentes, enquanto a escala de seis meses permite observar a persistência do fenômeno.
Na escala de três meses, o número de municípios em seca extrema chegou a quatro em agosto. As condições mais intensas estavam concentradas na Bahia, enquanto a seca moderada predominava na Bahia, no Tocantins e em Alagoas.
Já na escala de seis meses, o aumento da seca severa indica que os efeitos da falta de chuva podem se acumular ao longo do tempo, mesmo quando há mudanças nas condições meteorológicas de curto prazo.
Para o fim de setembro, as projeções apresentadas no boletim indicavam redução das condições de seca extrema, severa e moderada na escala de três meses. Essa estimativa, contudo, não deve ser interpretada como uma confirmação de recuperação hídrica em todas as regiões, pois os indicadores consideram períodos diferentes.
Como a seca pode afetar a agricultura e a economia?
A persistência da seca pode afetar atividades econômicas que dependem diretamente da disponibilidade de água. Entre elas estão a agricultura de sequeiro, a pecuária, a irrigação e determinadas etapas do processamento de produtos agropecuários.
A falta de chuva durante fases importantes do ciclo das culturas pode comprometer o desenvolvimento das plantas e reduzir a produtividade. Na pecuária, a escassez hídrica pode dificultar o acesso à água e reduzir a disponibilidade de pastagens.
Os efeitos econômicos, entretanto, variam conforme a região, o tipo de cultivo, o calendário agrícola, as condições do solo e a capacidade de irrigação. O boletim consultado não permite afirmar que uma cultura específica sofrerá perdas no trimestre, mas evidencia a necessidade de acompanhar as condições de seca e seus possíveis desdobramentos.
A disponibilidade hídrica também influencia atividades industriais, o abastecimento das cidades e a geração de eletricidade em usinas hidrelétricas. Em situações de restrição prolongada, diferentes setores podem disputar recursos hídricos, ampliando a importância do planejamento e do monitoramento.
Recursos hídricos: situação varia entre as regiões
O diagnóstico hidrológico do Cemaden mostra que a situação dos rios e das bacias hidrográficas não é uniforme no país.
Na avaliação de agosto, o boletim identificou condições de seca hidrológica entre fracas e moderadas no Sudeste. O Sistema Cantareira passou de uma condição considerada normal em julho para seca fraca em agosto.
No Centro-Oeste, o documento apontou condições críticas nos rios Tocantins, Araguaia e Paraguai, com seca severa a extrema. Na Região Norte, predominavam condições próximas da normalidade, embora os rios Negro e Xingu apresentassem seca moderada.
No Sul, as condições hidrológicas melhoraram e permaneceram próximas da normalidade, associadas às chuvas e à elevação das vazões em áreas monitoradas.
Para outubro, a previsão sazonal citada pelo Cemaden indicava possibilidade de vazões acima da média no Sudeste e no norte da Região Sul, especialmente nas bacias do Paraná e do alto Uruguai. Em contrapartida, eram previstas vazões abaixo ou muito abaixo da média na Região Norte, em grande parte do Centro-Oeste e no interior do Nordeste.
Essas projeções se referem às condições hidrológicas e não representam, isoladamente, uma previsão de perdas agrícolas ou de desabastecimento.
Sistema Cantareira encerrou agosto com 33% do volume útil
Um dos pontos de atenção do relatório é o Sistema Cantareira, responsável pelo abastecimento de parte da Região Metropolitana de São Paulo.
Segundo o boletim, o sistema encerrou agosto de 2026 com 33% do volume útil, dentro da faixa operacional de alerta, que corresponde a níveis entre 30% e 40%.
O percentual era inferior aos 37% registrados no fim de julho e aos 35% observados no mesmo período de 2025. O relatório também destaca que, em 14 de janeiro de 2026, o armazenamento havia atingido 19%, o menor valor registrado desde a crise hídrica de 2014 e 2015, segundo a série apresentada no documento.
Para o fim de novembro, as projeções do modelo hidrológico do Cemaden consideravam cenários de precipitação entre 25% abaixo e 25% acima da média histórica. Nessas condições, as vazões afluentes poderiam variar entre 99% e 176% da média histórica, com armazenamento projetado entre 36% e 50% do volume útil.
Os valores são cenários condicionais, e não garantias de recuperação dos reservatórios. A evolução dependerá das chuvas, das vazões e das demais condições consideradas no modelo.
Monitoramento será importante até dezembro
O último trimestre do ano reúne mudanças sazonais nas chuvas e condições hídricas distintas entre as regiões brasileiras. Por isso, o acompanhamento da seca exige observar tanto os indicadores meteorológicos quanto os níveis dos rios, o armazenamento dos reservatórios e as condições de produção agropecuária.
Para produtores rurais, gestores públicos e empresas dependentes de água, essas informações podem ajudar no planejamento de plantio, irrigação, manejo de rebanhos e gestão do abastecimento. A interpretação deve considerar as características locais e as atualizações dos órgãos responsáveis.
O boletim do Cemaden não estabelece que todo o país enfrentará agravamento da seca até dezembro. Os dados apontam situações distintas entre regiões e escalas de monitoramento, reforçando a importância de acompanhar as atualizações ao longo do trimestre.
Fonte: Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI). Consulte o boletim publicado em 8 de outubro de 2026.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.