BNDES aprovou R$ 180,7 milhões para duas novas plantas que transformarão o biogás de aterros sanitários em biometano.
O resíduo que chega todos os dias aos aterros sanitários brasileiros pode ganhar uma função cada vez mais estratégica na transição energética. Em vez de deixar o gás produzido pela decomposição dos resíduos ser apenas um problema ambiental a ser controlado, é possível capturá-lo, tratá-lo e transformá-lo em biometano, um combustível renovável com características semelhantes às do gás natural.
Esse mercado acaba de receber um novo impulso. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aprovou R$ 180,7 milhões em financiamentos para a implantação de duas plantas de biometano, uma em Mauá, na Grande São Paulo, e outra em Vila Velha, no Espírito Santo [1].
Juntas, as unidades terão capacidade instalada para produzir cerca de 97 mil metros cúbicos normais (Nm³) de biometano por dia a partir do biogás gerado pela decomposição de resíduos sólidos urbanos em aterros sanitários [1].
A iniciativa conecta alguns dos principais desafios ambientais das cidades: destinação de resíduos, emissões de metano, economia circular e substituição de combustíveis fósseis.
Como o resíduo pode se transformar em combustível?
Quando resíduos orgânicos se decompõem sem a presença de oxigênio, ocorre a formação de biogás, composto principalmente por metano e dióxido de carbono. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) define o biometano como um biocombustível gasoso obtido a partir do processamento do biogás [2].
Depois de passar por processos de purificação, o combustível adquire características semelhantes às do gás natural e pode ser utilizado, por exemplo, no abastecimento de veículos e em processos industriais. Em determinadas condições, também pode aproveitar infraestruturas existentes de gás natural, desde que cumpra as especificações técnicas aplicáveis [3].
A diferença fundamental está na origem. Enquanto o gás natural convencional é um combustível fóssil extraído de reservatórios subterrâneos, o biometano pode ser obtido a partir de resíduos orgânicos de aterros sanitários, atividades agropecuárias, estações de tratamento de esgoto e processos industriais [3].
Na prática, isso abre caminho para substituir parte do consumo de gás fóssil por um combustível produzido a partir de materiais que já fazem parte do fluxo de resíduos da economia.
R$ 245 milhões serão investidos nos dois projetos
Embora o financiamento aprovado pelo BNDES seja de R$ 180,7 milhões, o investimento total previsto para as duas plantas chega a R$ 245 milhões, considerando também recursos próprios [1].
Do crédito concedido pelo banco, R$ 101,9 milhões serão destinados à unidade de Mauá, que terá capacidade para produzir 65 mil Nm³ de biometano por dia. Outros R$ 78,8 milhões irão para Vila Velha, cuja capacidade será de 32 mil Nm³/dia [1].
Os recursos virão do Fundo Clima e da linha BNDES Finem. Os projetos serão desenvolvidos pela GNR Mauá e pela GNR Vila Velha, sociedades constituídas em parceria pelos grupos Lara e MDC Energia [1].
A previsão é que as duas unidades entrem em operação comercial no primeiro semestre de 2027. A produção será comercializada por meio de contratos de longo prazo com a Ultragaz [1].
Por que aproveitar o gás dos aterros é importante para o clima?
A questão vai além de produzir energia a partir do resíduo. A decomposição da matéria orgânica em aterros gera biogás rico em metano. Capturar esse gás e aproveitá-lo energeticamente cria uma oportunidade de transformar um passivo da gestão de resíduos em recurso energético.
O processo também se aproxima do conceito de economia circular: em vez de encerrar a cadeia econômica quando o produto é descartado, parte dos resíduos passa a fornecer matéria-prima para uma nova atividade.
No caso do biometano, há ainda outra possibilidade: deslocar o consumo de gás natural de origem fóssil. A própria ANP classifica os biocombustíveis como derivados de biomassa renovável capazes de substituir parcial ou totalmente combustíveis derivados de petróleo e gás natural [4].
Isso não significa, porém, que transformar biogás de aterro em biometano resolva o problema do lixo. A prioridade continua sendo reduzir a geração de resíduos e ampliar práticas como reutilização, reciclagem e compostagem. O aproveitamento energético pode atuar principalmente sobre a parcela que efetivamente chega à disposição final.
Biometano começa a ganhar espaço na transição energética brasileira
Os novos projetos chegam em um momento de fortalecimento da estrutura regulatória e econômica para o biometano no Brasil.
Em agosto de 2026, a ANP aprovou uma nova resolução que unificou e atualizou as regras de especificação e controle de qualidade do biometano, independentemente de sua origem. A medida busca acompanhar a evolução do mercado e estabelecer parâmetros para a comercialização e utilização do combustível [5].
O BNDES também mantém linhas de financiamento voltadas a empreendimentos relacionados à produção e utilização de biogás e biometano, inserindo essas tecnologias entre os investimentos associados à redução do uso de recursos naturais e de materiais [6].
Esse movimento ajuda a explicar por que resíduos urbanos começam a ser vistos não apenas como um problema de saneamento, mas também como uma possível fonte de energia.
O resíduo pode começar a substituir o gás fóssil?
Em algumas aplicações, sim, mas a tendência é de substituição parcial e progressiva, não de uma troca imediata de todo o gás natural. O biometano possui características que permitem seu uso em aplicações semelhantes às do gás natural, enquanto sua produção pode aproveitar resíduos que já são gerados pelas cidades, pelo agronegócio e pela indústria [3].
O avanço das plantas de Mauá e Vila Velha mostra justamente essa conexão: o mesmo resíduo que representa um desafio ambiental pode gerar um combustível capaz de reduzir a dependência de fontes fósseis.
Com quase 100 mil metros cúbicos de capacidade diária previstos apenas nesses dois projetos, o resíduo urbano começa a entrar de forma mais concreta em uma discussão que até pouco tempo parecia restrita aos setores de saneamento e limpeza pública: de onde virá a energia de uma economia de baixo carbono?
Referências
[1] BNDES. Informações sobre o financiamento de R$ 180,7 milhões para as plantas de biometano GNR Mauá e GNR Vila Velha, divulgadas em setembro de 2026.
[2] Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Biometano. Atualizado em setembro de 2026.
[3] Ministério de Minas e Energia (MME). Biometano: resíduos transformados em energia. 3 jul. 2026.
[4] Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Biocombustíveis. Atualizado em julho de 2026.
[5] Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). ANP aprova resolução sobre especificação e controle da qualidade do biometano. 7 ago. 2026.
[6] BNDES. BNDES Finem – Meio Ambiente – Redução do uso de recursos naturais e materiais.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.