Um casal de idosos comemorando a descoberta de água durante a perfuração de um poço no Sertão chamou atenção nas redes sociais nos últimos dias. No vídeo, os dois celebram o momento em que a água começa a surgir do solo, após a perfuração. Segundo informações publicadas pelo Agora Alagoas, a cena ocorreu em uma região que enfrentava um longo período de estiagem [1].
A felicidade registrada nas imagens ajuda a dimensionar o valor de algo que, para parte da população, faz parte da rotina de maneira quase automática: abrir uma torneira e encontrar água.
Mas essa experiência está longe de ser universal. Dados oficiais mostram que, apesar dos avanços no abastecimento, o Brasil ainda convive com diferenças expressivas no acesso à água, especialmente quando se comparam áreas urbanas e rurais e as diferentes regiões do país.
Acesso à água ainda é desigual no Brasil
Os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico (SINISA 2025), referentes a 2024, mostram que 84,1% da população brasileira, ou aproximadamente 174 milhões de pessoas, eram atendidas por redes de abastecimento de água [2].
O percentual, porém, muda significativamente quando o território é analisado com mais detalhes.
Nas áreas urbanas, 92,3% da população era atendida por rede de abastecimento. Nas áreas rurais, o índice era de apenas 22,9% [2]. Isso não significa que os demais moradores rurais não tenham acesso à água, já que poços, nascentes, cisternas e outras soluções também são utilizadas. O dado, entretanto, evidencia a enorme diferença na presença da infraestrutura convencional de abastecimento.
As desigualdades também aparecem entre as regiões brasileiras. Enquanto o atendimento total por rede alcançava 92,1% da população no Sudeste, o percentual era de 62,8% no Norte e 73,7% no Nordeste [2].
É justamente nesse contexto que uma cena aparentemente simples, como a de uma família comemorando a descoberta de água em um poço, ganha outra dimensão.
Ter água não significa necessariamente ter água pela rede
Os números do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ajudam a compreender melhor essa realidade.
Naquele ano, 82,9% da população brasileira, cerca de 167,5 milhões de pessoas, tinha a rede geral de distribuição como principal forma de abastecimento. Outros 9% utilizavam principalmente poços profundos ou artesianos, enquanto 3,2% dependiam de poços rasos, freáticos ou cacimbas e 1,9% de fontes, nascentes ou minas [3].
Havia ainda brasileiros que tinham como principal fonte de abastecimento carros-pipa, rios, açudes, córregos, lagos, igarapés ou água da chuva armazenada [3].
O Censo revelou também que 2,4% da população brasileira vivia em domicílios sem água encanada, enquanto outros 2,5% tinham água encanada apenas até o limite do terreno. No Norte, o percentual de pessoas vivendo em domicílios sem água encanada chegava a 6,5% [3].
Os dados mostram por que falar em acesso à água envolve mais do que simplesmente avaliar a existência desse recurso em determinado território.
A água pode existir e ainda assim não estar acessível
O Brasil é frequentemente associado à abundância de recursos hídricos, mas a disponibilidade de água é distribuída de maneira desigual pelo território.
Além da presença física do recurso, garantir acesso depende de infraestrutura para captação, tratamento, reservação e distribuição, além de condições que permitam que a água chegue de forma segura e regular às pessoas.
Até mesmo possuir ligação com a rede não significa necessariamente contar com abastecimento adequado durante todo o tempo.
O próprio Censo 2022 identificou 7,5 milhões de pessoas que moravam em domicílios com acesso à rede geral, mas utilizavam outra fonte como principal forma de abastecimento. O IBGE ressalta que essa situação pode indicar problemas como intermitência no fornecimento ou dificuldade para arcar com a conta de água [4].
Por isso, o debate sobre acesso precisa considerar não apenas a existência de infraestrutura, mas também disponibilidade, qualidade, regularidade e condições econômicas para que a população efetivamente tenha água.
Segurança hídrica vai além de encontrar água
A cena do casal também ajuda a aproximar outro conceito que muitas vezes aparece de maneira abstrata no debate ambiental: a segurança hídrica.
A Política Nacional de Recursos Hídricos estabelece entre seus objetivos assegurar às atuais e futuras gerações a disponibilidade necessária de água, em padrões adequados aos diferentes usos, além de atuar na prevenção de eventos hidrológicos críticos. O Plano Nacional de Segurança Hídrica (PNSH), coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), busca integrar o planejamento da infraestrutura necessária para enfrentar os principais problemas de segurança hídrica do país [5].
Na prática, segurança hídrica envolve criar condições para que a água continue disponível mesmo diante de situações como secas, aumento da demanda, crescimento urbano e eventos hidrológicos extremos.
Isso significa que encontrar água é apenas uma parte da questão. É necessário garantir que ela tenha qualidade adequada, esteja disponível em quantidade suficiente e possa ser acessada de maneira contínua pela população.
Brasil tem meta de levar água potável a 99% da população
A universalização do abastecimento é uma das principais metas do saneamento brasileiro.
O Marco Legal do Saneamento estabelece que 99% da população deverá ter acesso à água potável até 31 de dezembro de 2033, além da meta de 90% para coleta e tratamento de esgoto [6].
A Norma de Referência nº 8/2024 da ANA também estabeleceu diretrizes e indicadores para acompanhar o avanço dessas metas. Para que a universalização do abastecimento de água seja considerada alcançada em um município, os indicadores de atendimento e de cobertura devem atingir simultaneamente pelo menos 99% [7].
Os investimentos continuam sendo ampliados. Segundo dados atualizados do Novo PAC, há R$ 12,5 bilhões em investimentos previstos em abastecimento de água, considerando diferentes modalidades do programa. Nas seleções realizadas em 2023 e 2025, foram escolhidos 255 empreendimentos, com R$ 6,8 bilhões previstos e alcance de 267 municípios em 24 unidades da Federação [8].
O desafio, portanto, não é pequeno.
Quando encontrar água ainda é motivo de celebração
Para quem tem abastecimento contínuo, a água pode se tornar tão presente no cotidiano que sua disponibilidade parece garantida.
É justamente por isso que a reação do casal diante da água encontrada durante a perfuração de um poço chama tanta atenção. A cena transforma números sobre abastecimento e segurança hídrica em uma experiência concreta.
Em 2010, a Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceu o direito à água potável e ao saneamento como essencial para o pleno exercício da vida e dos direitos humanos [9]. No Brasil, entretanto, os indicadores mostram que o caminho para a universalização ainda não terminou.
Enquanto para parte da população abrir uma torneira é um gesto cotidiano sobre o qual quase não se pensa, para outras pessoas a disponibilidade de água ainda pode envolver poços, cisternas, fontes alternativas, distância, infraestrutura insuficiente e incerteza.
O vídeo que circula nas redes sociais emociona justamente por revelar essa diferença.
A água encontrada naquele terreno representa uma história particular. Mas a celebração registrada nas imagens coloca em evidência uma questão muito maior: o acesso à água ainda não é uma realidade igualmente garantida para todos.
Referências
[1] AGORA ALAGOAS. Casal de idosos comemora descoberta de água durante perfuração de poço no Sertão. 21 set. 2026.
[2] MINISTÉRIO DAS CIDADES. Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico – SINISA 2025: Abastecimento de Água. Dados de referência de 2024.
[3] IBGE. Censo Demográfico 2022 – Características dos domicílios: abastecimento de água.
[4] IBGE. Censo Demográfico 2022: Características dos domicílios – Resultados do Universo.
[5] AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Plano Nacional de Segurança Hídrica.
[6] BRASIL. Lei nº 14.026, de 15 de julho de 2020. Atualiza o Marco Legal do Saneamento Básico.
[7] AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Resolução nº 192/2024 – Norma de Referência nº 8/2024.
[8] CASA CIVIL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Novo PAC – Água para Todos: Abastecimento de Água. Dados consultados em setembro de 2026.
[9] FUNASA; SECRETARIA-GERAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA. Direito humano à água.
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.