Brasil gera R$ 80,75 por metro cúbico de água, aponta levantamento da ANA

Indicador de eficiência hídrica caiu entre 2011 e 2022, mas apresentou recuperação nos anos mais recentes. Agropecuária teve avanço de 29,2% entre 2015 e 2022, enquanto serviços registraram o maior valor econômico por volume de água utilizado.

O Brasil gerou R$ 80,75 em valor econômico para cada metro cúbico de água doce retirado em 2022, segundo dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). O resultado integra a análise do indicador de eficiência do uso da água, que relaciona a riqueza produzida pelos setores econômicos ao volume de recursos hídricos retirados de rios, lagos e aquíferos.

Publicado pela ANA em 22 de outubro de 2026, o levantamento mostra que o indicador nacional passou de R$ 83,64 por metro cúbico, em 2011, para R$ 80,75 em 2022, considerando valores corrigidos a preços de 2015. Apesar da queda no período completo, houve recuperação nos anos mais recentes.

A análise faz parte da terceira edição da publicação ODS 6 no Brasil, que acompanha indicadores relacionados ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 6 (ODS 6), da Organização das Nações Unidas (ONU), voltado à disponibilidade e à gestão sustentável da água e do saneamento.

Como é calculada a eficiência do uso da água?

O indicador 6.4.1 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável mede o valor econômico gerado por unidade de água retirada para usos consuntivos, ou seja, aqueles em que parte da água captada não retorna imediatamente ao corpo hídrico de origem.

O cálculo considera o Valor Adicionado Bruto (VAB) dos setores de agropecuária, indústria e serviços, dividido pelo volume de água doce retirado. Os dados econômicos são provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), enquanto as informações sobre as retiradas de água são fornecidas pela ANA.

Na prática, um valor mais alto indica que a economia gera mais valor por metro cúbico de água retirado. Entretanto, o indicador não mede diretamente o preço da água nem permite concluir, isoladamente, se seu uso é ambientalmente sustentável.

Isso porque o resultado também depende de fatores econômicos, como produtividade, preços, câmbio e composição das atividades produtivas.

Eficiência hídrica no Brasil teve recuperação após 2019

De acordo com a ANA, o indicador nacional aumentou 3% entre 2015 e 2022, passando de R$ 78,40 para aproximadamente R$ 80,80 por metro cúbico. Entre 2019 e 2022, a alta foi de 7,6%.

As oscilações observadas ao longo da série histórica estão relacionadas, em parte, às variações da atividade econômica. Segundo a agência, o volume de água retirada permaneceu relativamente estável, enquanto o valor gerado pela economia apresentou mudanças mais expressivas.

As quedas registradas em 2016 e 2020, especialmente nos setores industrial e de serviços, coincidiram com a recessão econômica de 2016 e com a pandemia de Covid-19. Com a recuperação da atividade econômica, o indicador voltou a crescer.

O resultado reforça a importância de interpretar os dados de eficiência hídrica em conjunto com informações econômicas e ambientais, evitando associar toda variação do indicador exclusivamente a mudanças nas práticas de gestão da água.

Agropecuária registra aumento de 29,2% na eficiência do uso da água

A agropecuária apresentou o maior crescimento percentual de eficiência hídrica entre os setores analisados no período de 2015 a 2022. Segundo a ANA, o indicador avançou 29,2%, passando de aproximadamente R$ 0,80 para R$ 1,02 por metro cúbico de água retirada.

Em 2022, o setor retirou 39,5 bilhões de metros cúbicos de água, o maior volume entre os setores considerados na análise. O resultado evidencia a relevância da atividade para as discussões sobre uso racional dos recursos hídricos, modernização da irrigação e segurança hídrica.

Apesar do avanço, a agência ressalta que a agropecuária continua apresentando o menor valor econômico gerado por metro cúbico de água retirada. Esse resultado está relacionado às características da atividade e não diminui sua importância para a segurança alimentar, a geração de empregos e o desenvolvimento econômico.

A comparação internacional também aponta espaço para melhorias. Em 2021, a eficiência da agropecuária brasileira foi estimada em US$ 0,30 por metro cúbico, abaixo da média mundial de US$ 0,70.

Serviços apresentam maior eficiência econômica por metro cúbico

Entre os setores analisados, os serviços registraram o maior indicador de eficiência do uso da água em 2022, com R$ 261,70 por metro cúbico retirado. O resultado está associado ao elevado valor econômico gerado pelo setor e aos volumes relativamente menores de água utilizados.

Entre 2015 e 2022, o indicador de serviços aumentou 3%. A indústria, por sua vez, apresentou eficiência de R$ 116,90 por metro cúbico em 2022, com crescimento de 5,7% em relação a 2015. Setores como alimentos e bebidas, papel e celulose, siderurgia e produtos químicos concentram parte expressiva das retiradas de água.

As diferenças entre os resultados mostram que a eficiência econômica do uso da água varia conforme a estrutura produtiva de cada setor. Por isso, os valores não devem ser interpretados como uma classificação direta do desempenho ambiental das atividades econômicas.

Eficiência do uso da água varia entre as regiões brasileiras

A ANA também identificou diferenças significativas entre estados e regiões do país. Em 2022, o Sudeste apresentou indicador regional de aproximadamente R$ 129 por metro cúbico, o maior entre as cinco grandes regiões brasileiras.

No recorte estadual, o Rio de Janeiro registrou cerca de R$ 230 por metro cúbico, enquanto São Paulo alcançou R$ 210. Minas Gerais e Espírito Santo permaneceram abaixo de R$ 65 por metro cúbico ao longo do período analisado.

No Centro-Oeste, o Distrito Federal apresentou valores superiores a R$ 450 por metro cúbico durante a série histórica, refletindo uma economia predominantemente baseada em serviços. Já Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, com forte participação da agropecuária, permaneceram abaixo de R$ 60 por metro cúbico.

No Sul, o Paraná registrou valores superiores a R$ 145 por metro cúbico, enquanto o Rio Grande do Sul ficou abaixo de R$ 35 em razão, entre outros fatores, dos elevados volumes de água utilizados na agricultura.

Esses contrastes indicam que a estrutura econômica e os padrões de retirada de água influenciam os resultados estaduais. Portanto, a comparação precisa considerar as particularidades de cada território.

Uso eficiente da água é estratégico para a segurança hídrica

Embora o Brasil tenha apresentado eficiência econômica de aproximadamente US$ 22,90 por metro cúbico em 2021, acima da média mundial de US$ 20,80, a ANA ressalta que o avanço do indicador não garante, por si só, o uso sustentável dos recursos hídricos.

Uma elevação no valor econômico gerado pode ocorrer, por exemplo, devido ao aumento dos preços de produtos agrícolas, mesmo sem redução no volume de água utilizado. Por isso, a agência recomenda analisar a eficiência econômica em conjunto com o indicador de estresse hídrico, que mede a pressão exercida pelas retiradas de água sobre os recursos disponíveis.

Em 2024, o Brasil apresentou nível nacional de estresse hídrico de 2,3%. Entretanto, a média nacional esconde diferenças importantes: o indicador chegou a 60% na região hidrográfica do Atlântico Nordeste Oriental e a 30% na região hidrográfica do São Francisco.

Nesse contexto, ampliar a eficiência do uso da água depende não apenas de ganhos econômicos, mas também de investimentos em tecnologia, melhoria das práticas produtivas e fortalecimento da gestão dos recursos hídricos.

A análise da ANA destaca que promover ganhos estruturais de eficiência é importante para aumentar a resiliência do país diante de secas, mudanças climáticas e demandas crescentes por água, sem comprometer as funções sociais e ambientais desse recurso.

Fonte: Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), publicação ODS 6 no Brasil – 3ª edição. Consulte a análise completa no site da ANA.