Temperaturas chegaram a 43°C em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul; ao mesmo tempo, demanda de municípios por recursos para arborização urbana chegou a R$ 676 milhões e país prepara estratégia para ampliar soluções baseadas na natureza nas cidades
O Brasil começou a primavera de 2026 enfrentando temperaturas acima dos 40°C em diferentes regiões do país. Nesta segunda-feira (28), 42 estações meteorológicas registraram temperaturas iguais ou superiores a essa marca, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, os termômetros chegaram a 43°C.
O episódio ocorre justamente quando o país discute como preparar suas cidades para um cenário de calor extremo e outros impactos das mudanças climáticas. Nas últimas semanas, duas iniciativas do governo federal chamaram atenção: uma estratégia nacional para ampliar o uso de soluções baseadas na natureza nas áreas urbanas e um edital para financiar arborização e redução do calor nas cidades.
Os números do edital revelam o tamanho da demanda. Embora tenham sido disponibilizados R$ 19 milhões, municípios apresentaram projetos que, somados, pediam mais de R$ 676 milhões.
A diferença entre os valores coloca uma questão cada vez mais importante no planejamento urbano brasileiro: quanto será necessário investir para adaptar as cidades a temperaturas cada vez mais extremas?
Temperaturas passaram dos 40°C em nove estados
O calor intenso atingiu diferentes regiões entre domingo (27) e segunda-feira (28). Segundo o Inmet, temperaturas iguais ou superiores a 40°C foram observadas em estações de nove estados durante os dois dias. Na segunda-feira (28), foram 42 estações nessa situação.
O instituto já havia alertado que a primeira onda de calor da primavera poderia atingir áreas das regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, com temperaturas superiores aos 40°C em algumas localidades.
É importante diferenciar, porém, temperatura extrema de onda de calor. De acordo com o Inmet, registrar mais de 40°C isoladamente não é suficiente para caracterizar uma onda de calor, que depende também da persistência de temperaturas significativamente acima da média de determinada região.
O que árvores e áreas verdes têm a ver com o calor das cidades?
Enquanto as temperaturas sobem, cresce também a discussão sobre como incorporar a natureza à infraestrutura urbana.
As chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN) utilizam processos, estruturas e funções naturais para enfrentar problemas ambientais, sociais e climáticos. Entre as possibilidades estão áreas verdes, infraestrutura ecológica, restauração, manejo das águas pluviais e conservação da biodiversidade.
Nas cidades, essas soluções podem incluir diferentes intervenções, como arborização urbana, parques, corredores verdes, recuperação de áreas degradadas e sistemas que aproveitam a vegetação e o solo para auxiliar no manejo das águas das chuvas.
A lógica é fazer com que a própria natureza também faça parte da infraestrutura necessária para tornar os espaços urbanos mais resilientes.
Brasil prepara estratégia de soluções baseadas na natureza para as cidades
Neste mês, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) colocou em consulta pública a proposta da Estratégia Nacional de Soluções Baseadas na Natureza para Áreas Urbanas (ENSBN-Urbana).
O período para contribuições terminou em 27 de setembro. Agora, a previsão é que as sugestões sejam analisadas em outubro e que a estratégia seja publicada em novembro.
O documento tem horizonte de implementação até 2035 e relaciona as soluções baseadas na natureza a questões como adaptação às mudanças climáticas, redução de riscos, biodiversidade, áreas verdes, segurança hídrica e qualidade ambiental.
Uma das metas propostas é registrar e implementar soluções baseadas na natureza em 17,5% dos municípios brasileiros até 2035. O plano de ação está organizado em seis eixos, que incluem financiamento, governança, capacitação, justiça socioambiental, produção de dados e integração das SBN às políticas públicas.
Municípios pediram R$ 676 milhões para arborização urbana
Outro dado ajuda a dimensionar a demanda das cidades por esse tipo de investimento. O Edital ArborizaCidades, lançado pelo Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA), disponibilizou R$ 19 milhões para projetos municipais de arborização urbana e redução do calor urbano extremo.
Foram apresentadas 402 propostas de 388 municípios dos 26 estados, que somaram uma demanda de R$ 676,18 milhões. Desse total, 146 propostas foram classificadas segundo os critérios do edital. Isso significa que o volume solicitado pelos projetos foi mais de 35 vezes superior aos R$ 19 milhões disponibilizados.
A diferença não significa, por si só, que todo o montante solicitado represente uma necessidade efetiva de financiamento do país. Os valores correspondem às propostas submetidas ao edital. Ainda assim, a procura evidencia o interesse de centenas de municípios em obter recursos para ampliar a arborização e enfrentar o calor urbano.
Adaptar as cidades ao calor também exige financiamento
As duas iniciativas, ArborizaCidades e ENSBN-Urbana, mostram que a adaptação climática não depende apenas de reconhecer os benefícios da natureza nas cidades. É necessário transformar projetos em investimentos, planejamento e políticas públicas permanentes.
A própria proposta da ENSBN-Urbana inclui financiamento e escalabilidade entre seus seis eixos estratégicos.
Isso ganha relevância diante da diferença observada no ArborizaCidades: de um lado, centenas de municípios buscando recursos; de outro, uma disponibilidade financeira muito menor que a soma das propostas apresentadas.
Além disso, os desafios urbanos vão além do calor. A estratégia nacional relaciona as soluções baseadas na natureza à redução de riscos climáticos, segurança hídrica, biodiversidade e qualidade ambiental.
Natureza pode se tornar parte da infraestrutura das cidades?
O avanço das temperaturas extremas ajuda a mudar a forma como árvores, parques, rios urbanos e outras áreas naturais são enxergados no planejamento das cidades. Mais do que elementos paisagísticos, eles podem integrar estratégias de adaptação climática e infraestrutura urbana.
A sequência de acontecimentos das últimas semanas deixa essa relação especialmente evidente: enquanto o Brasil registra temperaturas acima dos 40°C, centenas de municípios buscam recursos para arborização e o governo prepara uma estratégia nacional para ampliar soluções baseadas na natureza até 2035.
O desafio será fazer essa agenda sair dos planos e alcançar escala suficiente para acompanhar uma realidade climática que já está afetando as cidades brasileiras.
Referências
[1] Instituto Nacional de Meteorologia — calor acima de 40°C em nove estados
[2] Inmet — primeira onda de calor da primavera de 2026
[3] MMA — resultado preliminar do ArborizaCidades
[4] MMA — Estratégia Nacional de Soluções Baseadas na Natureza para Áreas Urbanas
[5] Brasil Participativo — ENSBN-Urbana
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.