O Brasil deu mais um passo para ampliar o financiamento da transição para o crescimento sustentável e a transformação ecológica do país. Em 4 de setembro, o Ministério da Fazenda autorizou a contratação de uma operação de crédito externo de até US$ 1 bilhão com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), vinculada ao Eco Invest Brasil [1].
Mas o ponto mais interessante dessa história não está apenas no valor. O Eco Invest Brasil tenta enfrentar um dos principais desafios da transição para uma economia de baixo carbono: como fazer com que projetos sustentáveis considerados caros, complexos ou arriscados se tornem suficientemente atraentes para receber grandes volumes de capital privado.
A estratégia envolve mecanismos de redução de riscos, proteção contra a volatilidade cambial e blended finance, modelo que combina diferentes fontes e condições de financiamento para melhorar a relação entre risco e retorno dos investimentos [2].
Em outras palavras, a lógica não é simplesmente colocar dinheiro público em projetos verdes. A proposta é usar instrumentos públicos e multilaterais para ajudar a criar condições capazes de atrair volumes maiores de capital privado para setores como energia limpa, bioeconomia, economia circular, recuperação de terras degradadas, infraestrutura verde e adaptação às mudanças climáticas [2]. É o chamado efeito catalítico do capital.
E entender como ele funciona ajuda a compreender uma das principais discussões atuais das finanças sustentáveis: de onde virá o dinheiro necessário para financiar a transição ecológica.
O que é o Eco Invest Brasil?
O Eco Invest Brasil é um programa de mobilização de capital privado externo e proteção cambial criado dentro do Plano de Transformação Ecológica. Seu objetivo é mobilizar investimentos privados de longo prazo para projetos sustentáveis no Brasil, incluindo a atração de capital estrangeiro [2].
O programa possui quatro grandes linhas de atuação: blended finance para mobilização de capital privado externo; liquidez e mitigação dos efeitos da volatilidade cambial; crédito para fomentar instrumentos de proteção cambial; e estruturação de projetos [2].
Esses mecanismos tentam enfrentar problemas que muitas vezes dificultam investimentos sustentáveis de longo prazo no país. Um deles é o risco cambial. Imagine um investidor estrangeiro que aporta dólares em um projeto brasileiro com retorno previsto para os próximos 15 ou 20 anos. Mesmo que o projeto seja economicamente viável, uma forte desvalorização do real pode afetar significativamente o retorno desse investimento quando convertido novamente para dólares.
O Eco Invest cria mecanismos para ajudar a reduzir esse tipo de risco e aumentar a previsibilidade para investidores. Mas existe outro instrumento importante nessa estratégia: o blended finance.
Afinal, o que é blended finance?
Blended finance pode ser traduzido como financiamento misto.
Na prática, significa utilizar recursos públicos, multilaterais, filantrópicos ou com condições diferenciadas para melhorar a estrutura financeira de projetos e, com isso, atrair investidores privados que talvez não participassem deles nas condições tradicionais de mercado.
Um dos instrumentos utilizados nesse modelo é o chamado capital catalítico. Esse capital pode aceitar condições de retorno, prazo ou risco diferentes das exigidas por investidores convencionais.
A consequência é uma mudança na relação entre risco e retorno. Um projeto sustentável que inicialmente parecia arriscado demais para determinado investidor pode se tornar mais atraente quando parte dos riscos é mitigada ou quando sua estrutura financeira passa a oferecer condições mais favoráveis.
A lógica pode ser resumida assim:
capital catalítico → redução de riscos e custos → maior atratividade do projeto → entrada de capital privado → ampliação dos investimentos verdes.
O próprio BNDES explica que, no primeiro leilão do Eco Invest, o capital catalítico financiado pelo programa deveria ser complementado por financiamento da instituição equivalente a, no mínimo, cinco vezes seu valor [3].
Esse mecanismo ajuda a explicar por que o impacto potencial de programas desse tipo pode ser superior ao volume de recursos públicos inicialmente disponibilizado.
Então US$ 1 bilhão pode virar mais do que US$ 1 bilhão em investimentos?
Essa é justamente a lógica por trás da mobilização de capital. Mas existe uma distinção importante.
A operação de até US$ 1 bilhão autorizada em setembro não significa que esse dinheiro será simplesmente dividido entre empresas para financiar diretamente parques solares, saneamento ou outros projetos.
Segundo informações apresentadas ao Senado, trata-se de uma operação de empréstimo baseada em políticas. Nesse modelo, o financiamento do BID está associado ao apoio a medidas de política pública e mudanças institucionais relacionadas ao programa, e não ao pagamento direto de uma obra específica [4]. Os recursos serão incorporados ao caixa da dívida pública federal e utilizados para o serviço da dívida, enquanto a operação está vinculada ao cumprimento das condições e reformas previstas no programa [4].
O efeito econômico do Eco Invest ocorre por meio de uma arquitetura mais ampla de instrumentos financeiros. É essa estrutura que procura utilizar capital público de forma catalítica para mobilizar investimentos privados.
O modelo já conseguiu mobilizar bilhões
O Eco Invest não começa do zero. Dados divulgados pelo Ministério da Fazenda mostram que os três primeiros leilões do programa mobilizaram cerca de R$ 127 bilhões para projetos relacionados à transformação ecológica, incluindo aproximadamente R$ 56 bilhões captados no exterior [5].
Somente o primeiro leilão, realizado em 2024, mobilizou aproximadamente R$ 45 bilhões em investimentos, com uma alavancagem financeira estimada em 6,5 vezes [6]. A segunda rodada direcionou recursos para recuperação de terras degradadas e mobilizou cerca de R$ 30,2 bilhões, com potencial de contribuir para a recuperação de aproximadamente 1,4 milhão de hectares [6]. Já o terceiro leilão avançou sobre outra frente: investimentos em participação societária.
Segundo o Ministério da Fazenda, foram homologados R$ 15 bilhões em capital catalítico público capazes de viabilizar aproximadamente R$ 53 bilhões em investimentos em equity, direcionados principalmente ao crescimento de empresas inovadoras [7].
Os números ajudam a mostrar o princípio central do programa: utilizar recursos catalíticos para tentar mobilizar volumes maiores de capital.
Energia limpa é uma das áreas que podem receber investimentos
Uma das frentes do Eco Invest é a transição energética. Entre os projetos associados ao programa está uma biorrefinaria no interior da Bahia com capacidade prevista de produção superior a 20 mil barris de óleo vegetal destinados à fabricação de combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel renovável [1].
O SAF é considerado estratégico para a descarbonização da aviação, um dos setores em que a redução direta das emissões ainda enfrenta limitações tecnológicas importantes. O desenvolvimento de uma cadeia brasileira de combustíveis sustentáveis também pode conectar agricultura, energia, indústria e exportação de produtos de menor intensidade de carbono.
Mas energia não é a única frente.
Saneamento e economia circular também entram nessa conta
O Eco Invest também contempla projetos relacionados à economia circular.
Segundo informações divulgadas sobre o programa, iniciativas dessa área possuem potencial de impactar positivamente mais de 2 milhões de pessoas nas regiões Nordeste, Sudeste e Sul [1].
Projetos de saneamento são particularmente importantes dentro da discussão sobre investimentos sustentáveis porque combinam benefícios ambientais e sociais. Ampliação do tratamento de água e esgoto, redução da poluição, melhoria das condições sanitárias e aumento da qualidade de vida são exemplos de impactos que podem estar associados a investimentos dessa natureza.
Isso demonstra uma característica importante do financiamento verde: ele não precisa estar restrito a parques solares ou eólicos. A transição ecológica envolve também infraestrutura urbana, saneamento, resíduos, mobilidade, agricultura, uso do solo e adaptação climática.
Adaptação climática começa a entrar no financiamento verde
Talvez uma das áreas mais interessantes do Eco Invest seja justamente a adaptação às mudanças climáticas.
Historicamente, grande parte do financiamento climático foi direcionada à mitigação, ou seja, a projetos destinados a reduzir emissões de gases de efeito estufa. Mas enchentes, ondas de calor, secas, tempestades e outros eventos extremos estão aumentando a necessidade de investimentos para tornar cidades, empresas e infraestruturas mais resilientes.
O Eco Invest já contempla projetos nessa direção. Entre os exemplos estão investimentos para modernizar infraestrutura elétrica na Bahia, em São Paulo e em Mato Grosso do Sul. Uma das medidas previstas é o aterramento de linhas vulneráveis a eventos como chuvas intensas e ventos fortes, reduzindo o risco de interrupções no fornecimento de energia [1].
Esse tipo de projeto ajuda a ampliar o conceito de investimento verde. Não se trata apenas de emitir menos carbono. Também será necessário preparar a infraestrutura existente para um clima diferente daquele para o qual grande parte dela foi originalmente projetada.
Recuperação de terras degradadas também virou ativo de investimento
Outra rodada do Eco Invest foi direcionada especificamente à recuperação de terras degradadas. O segundo leilão buscou financiar a conversão ou recuperação dessas áreas para sistemas agropecuários e florestais sustentáveis, além de incentivar regularização ambiental e restauração ecológica [8].
A iniciativa mostra como agendas anteriormente tratadas principalmente como questões ambientais começam a entrar no universo financeiro. Recuperar uma área degradada pode aumentar produtividade, melhorar as condições do solo, reduzir pressão pela abertura de novas áreas e produzir benefícios climáticos e ambientais.
Mas realizar essa transformação em milhões de hectares exige capital. É justamente nesse ponto que mecanismos de blended finance podem ganhar importância.
Bioeconomia e Amazônia também fazem parte da estratégia
A quarta rodada do programa avançou sobre projetos de bioeconomia e turismo sustentável na Amazônia Legal [9].
O desafio nesse caso é particularmente interessante. Muitos negócios relacionados à sociobiodiversidade possuem potencial ambiental e social significativo, mas enfrentam dificuldades para acessar crédito convencional. Pequena escala, falta de garantias, infraestrutura limitada, custos logísticos e riscos associados a cadeias ainda em desenvolvimento podem afastar investidores tradicionais.
Instrumentos de capital catalítico podem ajudar a reduzir parte dessas barreiras. Isso permite que financiamento climático e conservação da biodiversidade comecem a se aproximar de uma questão fundamental: como tornar economicamente viável manter a floresta em pé.
O Eco Invest também começa a financiar inovação
Em 2026, o programa entrou em uma nova etapa. O quinto leilão foi estruturado para aproximar empresas, universidades, centros de pesquisa, startups e investidores e acelerar tecnologias relacionadas à transformação ecológica e ao desenvolvimento industrial [10].
Entre as cadeias estratégicas estão áreas como fertilizantes verdes, beneficiamento de minerais críticos e tecnologias digitais, incluindo inteligência artificial [10].
A proposta amplia a atuação do programa. Em vez de financiar apenas projetos já maduros, parte dos instrumentos passa a atuar também na jornada tecnológica, ajudando soluções a avançar da pesquisa e desenvolvimento para escalas comerciais maiores.
Isso aproxima a política climática de outra agenda estratégica: a política industrial.
Por que o capital privado não financia tudo sozinho?
Essa é uma das perguntas centrais por trás do blended finance. Se os investimentos sustentáveis são tão promissores, por que seria necessário utilizar recursos públicos para atrair investidores?
A resposta está principalmente na relação entre risco e retorno.
Alguns projetos verdes possuem retorno financeiro de longo prazo, dependem de tecnologias novas, enfrentam incertezas regulatórias ou possuem riscos difíceis de mensurar. Outros geram benefícios que não são completamente capturados financeiramente pelo investidor. Uma floresta restaurada, por exemplo, pode gerar benefícios para biodiversidade, água, clima e comunidades que não necessariamente aparecem integralmente no fluxo de caixa do projeto.
Nessas situações, o investimento pode ser positivo para a sociedade e ainda assim não apresentar uma relação entre risco e retorno suficientemente atraente para o mercado. É justamente aí que o capital catalítico tenta atuar.
Mas dinheiro público para reduzir risco privado não é controverso?
Pode ser. O uso de recursos públicos para melhorar as condições de investimentos privados exige critérios rigorosos de transparência, adicionalidade e avaliação de impacto.
Um dos principais riscos é utilizar capital subsidiado em projetos que seriam financiados pelo mercado mesmo sem apoio público. Nesse caso, o recurso público não estaria efetivamente destravando um novo investimento.
Por isso, uma das perguntas mais importantes para avaliar mecanismos de blended finance é a adicionalidade:
o investimento privado teria acontecido nas mesmas condições sem o capital catalítico?
Também é necessário avaliar quais riscos ficam com o setor público e quais permanecem com os investidores privados. Quanto maior a escala desses mecanismos, mais importantes se tornam governança, transparência, salvaguardas socioambientais e acompanhamento dos resultados.
O próprio Eco Invest estabelece salvaguardas para os projetos financiados, incluindo restrições relacionadas a danos ambientais e sociais significativos e violações de direitos humanos [3].
O verdadeiro teste será medir quanto investimento novo foi destravado
A autorização para a operação de até US$ 1 bilhão com o BID amplia a capacidade do Brasil de estruturar políticas voltadas à mobilização de investimentos sustentáveis. Mas o sucesso do Eco Invest não deverá ser medido apenas pelo volume de dinheiro disponibilizado pelo governo ou por instituições multilaterais.
A métrica mais importante será outra. Será necessário observar quanto capital privado adicional foi efetivamente mobilizado, quais projetos só se tornaram possíveis por causa dos mecanismos oferecidos, quais benefícios ambientais e sociais foram produzidos e se os recursos públicos assumiram riscos proporcionais aos resultados alcançados.
Se o modelo funcionar, o Brasil poderá transformar uma quantidade limitada de capital catalítico em um volume significativamente maior de investimentos em energia limpa, recuperação de terras, bioeconomia, saneamento, infraestrutura resiliente e inovação. É justamente essa lógica que torna o Eco Invest relevante para além dos US$ 1 bilhão anunciados.
A transição ecológica brasileira exigirá investimentos de uma escala que dificilmente poderá ser financiada apenas pelo orçamento público. O desafio, portanto, não é simplesmente encontrar dinheiro. É construir mecanismos capazes de fazer cada real de capital público ou concessional ajudar a destravar vários outros reais de investimento privado, sem abrir mão de retorno ambiental, social, transparência e responsabilidade na utilização dos recursos.
E essa pode ser uma das peças mais importantes para transformar as metas de sustentabilidade do Brasil em projetos concretos.
Referências
[1] AGÊNCIA BRASIL. Fazenda autoriza crédito de US$ 1 bilhão do BID para Eco Invest Brasil. 4 set. 2026.
[2] TESOURO NACIONAL. Eco Invest Brasil. Ministério da Fazenda. 2026.
[3] BNDES. Eco Invest Brasil – Blended Finance – 1º Leilão. Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social.
[4] SENADO FEDERAL. CAE autoriza empréstimo de US$ 1 bilhão do BID para o Eco Invest Brasil. Agência Senado, 11 ago. 2026.
[5] MINISTÉRIO DA FAZENDA. Rumo à Economia Verde – Ciclo da Prosperidade. 2026.
[6] MINISTÉRIO DA FAZENDA. Plano de Transformação Ecológica – Histórico do Eco Invest Brasil.
[7] MINISTÉRIO DA FAZENDA. Eco Invest Brasil registra maior leilão e eleva o patamar do mercado de equity no país. 28 jan. 2026.
[8] BNDES. Eco Invest Brasil – Blended Finance – 2º Leilão.
[9] TESOURO NACIONAL. 4º Leilão do Eco Invest Brasil – Bioeconomia e Turismo Sustentável na Amazônia Legal. 2026.
[10] TESOURO NACIONAL. Fertilizantes verdes, beneficiamento de minerais críticos e IA: Eco Invest Brasil lança rodada para transformar inovação em competitividade nacional. 25 maio 2026.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.