O El Niño voltou ao centro das preocupações para a agricultura brasileira. O fenômeno está estabelecido e deve se intensificar nos próximos meses, com possibilidade de atingir intensidade muito forte e permanecer ativo até fevereiro de 2027 [1].
Para o consumidor, a discussão pode parecer distante. Mas o caminho entre uma anomalia de temperatura no Oceano Pacífico e o preço pago no supermercado é mais curto do que parece.
Alterações no regime de chuvas e temperaturas podem afetar lavouras, pastagens e outras cadeias produtivas. Quando há perdas de produtividade ou problemas na oferta, os efeitos podem chegar aos preços dos alimentos e, dependendo da magnitude e da abrangência dos choques, contribuir para a inflação.
O risco é relevante o suficiente para que o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) tenha criado um grupo de trabalho específico para o fenômeno. Em setembro, o ministério recebeu da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) um conjunto de 163 medidas para reduzir riscos climáticos na agropecuária durante a safra 2026/2027 [2].
A preocupação, portanto, não está apenas no campo. Um El Niño forte pode transformar um risco climático em risco agrícola, econômico e social.
El Niño deve se intensificar nos próximos meses
O El Niño é um fenômeno climático natural associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial central e oriental. Essa alteração interfere na circulação atmosférica e pode modificar os padrões de temperatura e precipitação em diferentes partes do planeta.
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou no início de setembro que o El Niño está firmemente estabelecido e deve continuar se fortalecendo. As previsões indicam probabilidade próxima de 100% de persistência do fenômeno até fevereiro de 2027, com expectativa de que alcance intensidade muito forte antes de atingir seu pico no final de 2026 [1].
No Brasil, um boletim elaborado por órgãos como Inmet, Inpe, ANA e Cemaden aponta maior probabilidade de chuva acima da média no Sul, especialmente no Rio Grande do Sul, enquanto Norte e Nordeste tendem a enfrentar condições mais secas [3].
Partes do Centro-Oeste e Sudeste também apresentam maior probabilidade de precipitações abaixo do normal. As temperaturas, por sua vez, devem ficar acima da média em praticamente todo o território nacional [3].
Isso não significa que todas as lavouras serão afetadas da mesma maneira. Os impactos dependem da região, da cultura, da fase de desenvolvimento das plantas, da disponibilidade de irrigação, das condições do solo e da intensidade e duração das anomalias meteorológicas.
A própria OMM ressalta que um El Niño muito forte aumenta a probabilidade de alterações significativas nos padrões climáticos, mas a intensidade do fenômeno não determina automaticamente a magnitude dos impactos em cada região [1].
Como o El Niño pode chegar ao preço dos alimentos?
Para entender o impacto econômico, é preciso acompanhar uma cadeia de acontecimentos.
O primeiro elo é o clima. Secas prolongadas, temperaturas excessivas, chuvas concentradas, enchentes ou atrasos no início da estação chuvosa podem prejudicar diferentes etapas da produção agropecuária.
O segundo é a produtividade. Dependendo da cultura e da região afetada, condições climáticas desfavoráveis podem reduzir a quantidade ou a qualidade do produto disponível.
Depois vem a oferta. Quando a produção de determinado alimento diminui sem que a demanda caia na mesma proporção, pode surgir pressão sobre os preços. Além disso, eventos extremos podem aumentar custos relacionados à irrigação, alimentação animal, transporte, armazenagem e logística.
É assim que um fenômeno climático pode chegar ao consumidor:
El Niño → alterações nas chuvas e temperaturas → produção agropecuária → oferta → preços dos alimentos → inflação → orçamento das famílias.
Mas essa transmissão não é automática. Estoques, importações, câmbio, preços internacionais, custos de produção, logística e comportamento da demanda também influenciam o preço final.
Banco Central já considera um El Niño forte nas projeções de inflação
A relação entre clima e inflação não é apenas uma hipótese. No Relatório de Política Monetária de junho de 2026, o Banco Central informou que seu cenário de referência considera a formação de um El Niño forte [4].
Nos modelos utilizados pelo BC, o efeito da variável climática sobre os preços da alimentação no domicílio é inicialmente de alta. Posteriormente, com a normalização das condições climáticas e dos preços relativos dos alimentos, o efeito se inverte [4].
O Banco Central avaliou que a influência sobre o IPCA acumulado em 12 meses seria relativamente modesta no horizonte mais distante, mas indicou efeitos mais relevantes sobre os preços no final de 2026 e nos três primeiros trimestres de 2027 [4].
Isso ajuda a mostrar por que acompanhar o El Niño não interessa apenas a agricultores e meteorologistas. O fenômeno também entrou na análise da inflação brasileira.
Alimentos podem transformar risco climático em problema social
A inflação dos alimentos possui uma característica importante: seus efeitos não são distribuídos igualmente entre a população.
Famílias de menor renda comprometem uma parcela maior do orçamento com alimentação. Por isso, aumentos persistentes no preço da comida podem reduzir mais rapidamente seu poder de compra.
Um estudo publicado em agosto de 2026 no Journal of Agribusiness in Developing and Emerging Economies analisou a transmissão dos preços agrícolas ao consumidor brasileiro de baixa renda. Os pesquisadores estimaram que, em média, 15,25% das flutuações da inflação enfrentada pelas famílias de menor renda estavam associadas a choques transmitidos pelos preços agrícolas ao produtor no período analisado [5].
O estudo chama atenção também para as consequências sobre a segurança alimentar: diante do aumento dos preços, famílias vulneráveis podem substituir alimentos ou reduzir quantidade e qualidade da dieta [5].
Dados analisados pelo Banco Mundial também mostram como a inflação de alimentos pode pesar desproporcionalmente sobre os mais pobres. Entre o fim de 2019 e o fim de 2022, enquanto o índice geral de preços ao consumidor acumulou alta de 21,7%, os preços dos alimentos avançaram 37,5% [6].
Não se trata de atribuir esses aumentos anteriores exclusivamente ao clima. O exemplo demonstra como choques nos alimentos podem produzir consequências sociais muito maiores do que a variação de um índice econômico.
Agricultura brasileira se prepara para a safra 2026/2027
O risco associado ao atual El Niño levou o Mapa a instituir um Grupo de Trabalho específico para acompanhar o fenômeno.
Em setembro, a Embrapa entregou ao ministério 163 medidas para apoiar a gestão dos riscos climáticos na agropecuária. Aproximadamente 50 profissionais participaram da elaboração das recomendações [2].
Do total, 14 medidas são transversais ao setor agropecuário, 139 são direcionadas a segmentos produtivos específicos e dez envolvem ações de apoio ou políticas públicas [2].
As recomendações incluem monitoramento meteorológico, utilização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), diversificação da produção, sistemas de integração lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta, planos de contingência e manutenção da infraestrutura das propriedades.
Também aparecem medidas financeiras. A Embrapa recomenda avaliação econômica dos riscos, criação de reservas financeiras, utilização de seguro rural e outros mecanismos de transferência de risco [2].
Para cadeias específicas, entram ainda estratégias relacionadas ao manejo do solo, escolha de cultivares, drenagem, irrigação, estruturas de proteção e planejamento das operações.
O desafio não é apenas reagir ao El Niño
Talvez um dos pontos mais importantes das 163 recomendações seja justamente o fato de elas não servirem apenas para o fenômeno atual.
A Embrapa defende uma mudança de abordagem: sair de uma lógica predominantemente reativa, na qual medidas são adotadas depois que secas, enchentes ou outros eventos provocam prejuízos, para uma gestão permanente dos riscos agroclimáticos [2]. Isso envolve antecipação, monitoramento, adaptação e preparação para secas, excesso de chuvas, ondas de calor, geadas, tempestades e incêndios.
O El Niño de 2026/2027 funciona, nesse sentido, como um alerta para uma transformação muito maior na agricultura. Em um cenário de mudanças climáticas, administrar risco climático tende a se tornar parte cada vez mais importante da gestão financeira de uma propriedade rural.
Seguro rural e adaptação entram nessa equação
A presença do seguro rural entre as recomendações da Embrapa revela outra dimensão dessa transformação.
Quando eventos climáticos capazes de comprometer safras se tornam um risco econômico relevante, instrumentos financeiros de proteção também ganham importância. O mesmo acontece com irrigação eficiente, conservação do solo, sistemas integrados, diversificação produtiva, monitoramento climático e escolha adequada das épocas de plantio.
Essas medidas possuem custos, mas podem reduzir perdas futuras. Por isso, a discussão sobre adaptação climática no agronegócio começa a se aproximar cada vez mais das discussões sobre crédito, seguro, investimento e planejamento financeiro.
O clima também pode entrar na conta da inflação
O cenário atual não permite afirmar que o El Niño provocará necessariamente uma disparada nos preços dos alimentos no Brasil.
Uma boa safra em determinadas regiões, estoques disponíveis, importações, condições favoráveis em outros países produtores e diversos fatores econômicos podem amenizar ou até compensar perdas localizadas.
Além disso, diferentes culturas respondem de maneiras distintas ao fenômeno. O que os dados mostram é que existe um risco suficientemente relevante para mobilizar instituições meteorológicas, órgãos públicos, pesquisadores, produtores e até entrar nos modelos de inflação do Banco Central.
E é justamente essa conexão que merece atenção. Uma seca em uma região agrícola ou um período de chuvas excessivas em outra não termina necessariamente na porteira da fazenda. Dependendo da dimensão do impacto, seus efeitos podem percorrer toda a cadeia produtiva até chegar ao supermercado.
Nesse sentido, o El Niño ajuda a tornar uma discussão muitas vezes abstrata bastante concreta: o risco climático também pode se transformar em risco econômico e chegar diretamente ao orçamento das famílias brasileiras.
Referências
[1] WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION (WMO). El Niño/La Niña Update – August 2026. Publicado em 3 set. 2026.
[2] BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Em ano de El Niño, Mapa recebe da Embrapa 163 medidas para gestão de riscos climáticos no campo. Publicado em 1 set. 2026.
[3] INSTITUTO NACIONAL DE METEOROLOGIA (INMET). El Niño tem 90% de probabilidade de se configurar como muito forte no trimestre de setembro-outubro-novembro. Publicado em 1 set. 2026.
[4] BANCO CENTRAL DO BRASIL. Relatório de Política Monetária – junho de 2026. Brasília: BCB, 2026.
[5] The spillover of Brazilian agricultural producer prices to low-income consumer inflation and food security in Brazil. Journal of Agribusiness in Developing and Emerging Economies. Publicado online em 14 ago. 2026.
[6] WORLD BANK. Food Insecurity and Food Inflation in Brazil. Washington, D.C.: World Bank.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.