Inteligência artificial pode aumentar a pressão sobre a energia e a água no Brasil

A rápida expansão da inteligência artificial está trazendo uma questão que vai além dos avanços tecnológicos: quanta energia e água será necessária para sustentar a infraestrutura por trás da IA? No Brasil, o tema começa a ganhar espaço no planejamento energético, na gestão dos recursos hídricos e até no Congresso Nacional.

O motivo está principalmente nos data centers, instalações que concentram servidores responsáveis pelo armazenamento, processamento e transmissão de grandes volumes de dados. Com a disseminação da inteligência artificial, aumenta a necessidade de capacidade computacional e, junto com ela, cresce a demanda por eletricidade e por sistemas capazes de controlar a temperatura dos equipamentos.

A questão ganhou relevância no Brasil diante da perspectiva de expansão desse mercado. A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já considera os data centers no planejamento do consumo de eletricidade e destaca que empreendimentos de grande porte podem provocar aumentos expressivos de carga em determinadas regiões, com impactos sobre o planejamento da geração e da transmissão [1].

Inteligência artificial aumenta demanda de energia dos data centers

O fenômeno não é exclusivamente brasileiro. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora (TWh) de eletricidade em 2024, o equivalente a cerca de 1,5% do consumo mundial de eletricidade [2].

A agência estima que esse consumo poderá mais que dobrar e alcançar aproximadamente 945 TWh em 2030. A inteligência artificial é apontada como o principal vetor desse crescimento, embora outros serviços digitais também contribuam para o aumento da demanda [2].

Dados mais recentes da IEA reforçam a velocidade dessa transformação. Em 2025, o consumo elétrico dos data centers cresceu 17% globalmente, enquanto o consumo dos centros especificamente voltados à IA aumentou cerca de 50%. A agência ressalta que ganhos de eficiência continuam ocorrendo, mas aplicações mais complexas de inteligência artificial também podem exigir maior capacidade computacional [3].

Isso significa que não basta avaliar quanto uma única consulta a uma ferramenta de IA consome. O impacto final depende da combinação entre eficiência dos equipamentos, crescimento do número de usuários, complexidade dos modelos e expansão da infraestrutura necessária para atender à demanda.

Brasil pode ter forte expansão dos data centers

No Brasil, o crescimento dos data centers já entrou no radar do planejamento energético.

O Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035), elaborado pela EPE e pelo Ministério de Minas e Energia, passou a considerar data centers entre as chamadas “cargas especiais”, juntamente com projetos de hidrogênio por eletrólise e eletromobilidade.

Dependendo do cenário analisado, esse conjunto de novas cargas poderá representar entre 1,2% e 12,9% da demanda total de eletricidade brasileira em 2035. No cenário de referência, o consumo total de eletricidade do país deverá alcançar 939 TWh naquele ano, com crescimento médio de 3,3% ao ano [4].

As perspectivas específicas para data centers também chamam atenção. Em agosto de 2026, o diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da EPE, Thiago Ivanoski, afirmou que a demanda dos empreendimentos desse setor pode chegar a 20 GW em dez anos, valor equivalente a aproximadamente uma vez e meia a atual demanda máxima da região Nordeste [5].

A questão não envolve apenas a disponibilidade total de eletricidade no país. Grandes data centers podem concentrar demandas elevadas de potência em determinados locais, exigindo infraestrutura adequada para conectar esses empreendimentos ao sistema elétrico.

A EPE destaca que a expansão dos data centers precisa ser considerada de maneira coordenada no planejamento da geração e da transmissão de energia [1].

Matriz renovável pode transformar o Brasil em destino para data centers

Há, porém, outro lado dessa discussão. As características da matriz elétrica brasileira podem tornar o país atraente para investimentos em infraestrutura digital.

O PDE 2035 indica que a matriz elétrica brasileira deverá continuar apresentando elevada participação de fontes renováveis nos próximos anos [6]. Para empresas de tecnologia interessadas em reduzir as emissões associadas ao consumo de eletricidade de suas operações, essa característica pode representar uma vantagem competitiva.

Cria-se, portanto, um paradoxo: a disponibilidade de eletricidade de menor intensidade de carbono pode ajudar a atrair a infraestrutura necessária à expansão da inteligência artificial, mas a concentração de novos grandes consumidores também cria desafios para o planejamento do sistema elétrico.

A IEA chama atenção justamente para essa dimensão. Embora os data centers ainda representem uma parcela relativamente pequena do consumo mundial de eletricidade, seus impactos podem ser muito mais significativos em escala local devido à concentração geográfica desses empreendimentos [2].

E onde entra o consumo de água da inteligência artificial?

A pegada ambiental da IA não se limita à eletricidade. Servidores de alto desempenho produzem calor e precisam permanecer dentro de determinadas faixas de temperatura. Dependendo da tecnologia adotada, os sistemas utilizados para resfriar os equipamentos podem consumir água diretamente.

Mas a pegada hídrica associada à inteligência artificial é mais ampla. Há também consumo de água associado à geração de eletricidade e à fabricação dos semicondutores utilizados nos equipamentos.

No relatório Energy and AI, a IEA estima que, em seu cenário-base, o consumo de água relacionado à infraestrutura de inteligência artificial no mundo pode passar de aproximadamente 550 bilhões de litros em 2023 para cerca de 1,2 trilhão de litros em 2030, considerando diferentes etapas da cadeia, incluindo data centers, geração de eletricidade e fabricação de equipamentos [2].

Isso não significa, entretanto, que todos os data centers apresentem o mesmo consumo hídrico. O impacto depende de fatores como tecnologia de refrigeração, condições climáticas, fonte de eletricidade e localização do empreendimento.

ANA já acompanha possíveis impactos da IA sobre a água

No Brasil, a questão hídrica já entrou no radar da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Em debate realizado em 2026, representantes da agência destacaram que a ANA acompanha os possíveis impactos da expansão da inteligência artificial e dos data centers sobre o consumo de água. A discussão envolve aspectos como localização dos empreendimentos, transparência das informações e impactos sobre os recursos hídricos [7].

Esse aspecto é particularmente importante porque o impacto de um empreendimento não depende apenas da quantidade absoluta de água consumida.

Onde essa água é utilizada também importa. Um data center localizado em uma região com elevada disponibilidade hídrica apresenta uma realidade diferente de um empreendimento instalado em uma área sujeita a períodos de escassez ou conflitos pelo uso da água.

Data centers de IA também entraram no debate do Congresso

A discussão já chegou ao Congresso Nacional. Em agosto de 2026, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado realizou audiência pública para discutir o Projeto de Lei nº 3.018/2024, que trata da instalação e do funcionamento de centros de dados destinados a aplicações de inteligência artificial [8].

Durante o debate, especialistas levantaram preocupações relacionadas ao consumo de água, à pressão sobre aquíferos e aos possíveis impactos da elevada demanda de eletricidade sobre outros consumidores.

Também foi discutida a necessidade de estabelecer mecanismos capazes de preservar o abastecimento humano em situações de escassez hídrica ou energética [8].

Um dos pontos que demonstra a complexidade do problema é que determinadas soluções tecnológicas podem envolver escolhas entre diferentes impactos ambientais. Sistemas de refrigeração capazes de reduzir o consumo de água, por exemplo, podem exigir maior quantidade de eletricidade [8].

Afinal, a IA pode pressionar energia e água no Brasil?

Sim, mas o tamanho dessa pressão dependerá principalmente da velocidade de expansão dos data centers, das tecnologias utilizadas e de onde esses empreendimentos serão instalados.

A expansão da inteligência artificial não significa automaticamente que o Brasil enfrentará uma crise energética ou hídrica. O país possui vantagens importantes, principalmente uma matriz elétrica com elevada participação de fontes renováveis.

Ao mesmo tempo, as projeções da EPE mostram que a entrada de grandes cargas associadas aos data centers já precisa ser incorporada ao planejamento da infraestrutura elétrica brasileira [1][4].

No caso da água, localização, tecnologia de refrigeração, eficiência hídrica e transparência sobre o consumo serão fatores determinantes para avaliar os impactos de cada empreendimento [7][8].

Por isso, a discussão sobre inteligência artificial começa a ultrapassar os limites do setor de tecnologia. Energia, disponibilidade hídrica, infraestrutura de transmissão, planejamento territorial e critérios ambientais passam a fazer parte da equação.

O desafio para o Brasil será aproveitar sua matriz renovável e o potencial econômico da nova infraestrutura digital sem transformar a corrida pela inteligência artificial em uma nova fonte de pressão sobre recursos essenciais.

Referências

[1] EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Consumo de data centers. Rio de Janeiro: EPE, [s.d.]. Disponível em: EPE — Consumo de data centers. Acesso em: 10 set. 2026.

[2] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Energy and AI. Paris: IEA, 2025. Disponível em: IEA — Energy and AI. Acesso em: 10 set. 2026.

[3] INTERNATIONAL ENERGY AGENCY (IEA). Key questions on energy and AI. Paris: IEA, 2026. Disponível em: IEA — Key questions on energy and AI. Acesso em: 10 set. 2026.

[4] EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). Consumo de eletricidade no Brasil deve crescer em média 3,3% ao ano até 2035, indica estudo do MME e da EPE. Rio de Janeiro: EPE, 2026. Disponível em: EPE — Projeção do consumo de eletricidade até 2035. Acesso em: 10 set. 2026.

[5] AGÊNCIA INFRA. EPE projeta demanda de 20 GW para data centers em dez anos. Brasília, 2026. Disponível em: Agência Infra — projeção para data centers. Acesso em: 10 set. 2026.

[6] EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE); BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Plano Decenal de Expansão de Energia 2035. Brasília: MME; Rio de Janeiro: EPE, 2026. Disponível em: EPE — Plano Decenal de Expansão de Energia 2035. Acesso em: 10 set. 2026.

[7] AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS E SANEAMENTO BÁSICO (ANA). Diretores da ANA debatem IA e universalização do saneamento no III Encontro Nacional das Agências Reguladoras. Brasília: ANA, 2026. Disponível em: ANA — IA e recursos hídricos. Acesso em: 10 set. 2026.

[8] BRASIL. Senado Federal. Especialistas alertam para riscos de expansão de data centers de IA no Brasil. Brasília: Agência Senado, 4 ago. 2026. Disponível em: Agência Senado — expansão dos data centers de IA. Acesso em: 10 set. 2026.