Normas IFRS S1 e IFRS S2 ganham espaço em diferentes jurisdições, enquanto países e blocos econômicos avançam na criação de regras próprias alinhadas aos padrões do ISSB
A adoção de regras para divulgação de informações sobre sustentabilidade e mudanças climáticas continua avançando em diferentes partes do mundo. Em 2026, novas consultas e iniciativas regulatórias reforçam o movimento de aproximação entre legislações nacionais e os padrões desenvolvidos pelo International Sustainability Standards Board (ISSB).
Criado pela IFRS Foundation, o ISSB desenvolveu as normas IFRS S1 – Requisitos Gerais para Divulgação de Informações Financeiras Relacionadas à Sustentabilidade e IFRS S2 – Divulgações Relacionadas ao Clima com o objetivo de estabelecer uma base global de informações comparáveis e úteis para investidores.
A proposta é fazer com que empresas divulguem, de maneira mais consistente, informações sobre riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade e ao clima que possam afetar seus fluxos de caixa, acesso a financiamento ou custo de capital.
Mais países incorporam ou consideram os padrões do ISSB
O movimento já alcança dezenas de jurisdições. A IFRS Foundation informou que 36 jurisdições haviam adotado ou estavam finalizando medidas para introduzir os padrões ISSB em seus sistemas regulatórios.
Entre os países com iniciativas já identificadas estão Austrália, Brasil, Chile, México, Japão, Canadá, Coreia do Sul, Malásia e Nova Zelândia, entre outros.
A expansão, entretanto, não ocorre de maneira uniforme. Cada jurisdição pode optar por diferentes níveis de incorporação, desde a adoção integral das normas até a utilização apenas dos requisitos relacionados ao clima ou a criação de regras locais consideradas funcionalmente alinhadas aos padrões do ISSB.
A própria IFRS Foundation classifica essas possibilidades em diferentes abordagens, incluindo adoção integral, adoção dos requisitos climáticos, incorporação parcial e permissão para utilização voluntária dos padrões.
União Europeia revisa regras de divulgação
Na União Europeia, uma das movimentações mais recentes envolve a revisão dos European Sustainability Reporting Standards (ESRS), utilizados no âmbito da legislação europeia de reporte de sustentabilidade.
A Comissão Europeia colocou em consulta um projeto de revisão dos padrões europeus, com período para contribuições encerrado em junho de 2026. A discussão ocorre em um contexto de esforços para simplificar e tornar mais eficiente o sistema europeu de divulgação de informações de sustentabilidade.
Embora os ESRS e os padrões ISSB não sejam idênticos, existe uma discussão internacional sobre interoperabilidade entre os diferentes sistemas de reporte. A aproximação entre estruturas pode reduzir a necessidade de empresas produzirem informações diferentes para diferentes mercados.
Nova Zelândia prepara nova etapa para o reporte climático
A Nova Zelândia também aparece entre as jurisdições que continuam desenvolvendo sua estrutura regulatória de divulgação climática.
O External Reporting Board (XRB) colocou em consulta, em 2026, uma proposta de roadmap para o reporte climático, com prazo para envio de contribuições até 30 de setembro de 2026.
O processo demonstra que a implementação das normas internacionais não se limita à aprovação de um padrão. Reguladores precisam definir quais empresas estarão sujeitas às regras, quando as obrigações começarão e quais períodos de transição serão aplicados.
Ásia-Pacífico também amplia movimentações
A região da Ásia-Pacífico concentra algumas das iniciativas mais relevantes para a expansão dos padrões ISSB.
A Coreia do Sul, por exemplo, publicou em 2026 uma consulta relacionada a seu roadmap de divulgação de sustentabilidade, enquanto Bangladesh abriu consulta sobre projetos relacionados às normas IFRS S1 e IFRS S2.
Essas iniciativas fazem parte de um movimento mais amplo de convergência regulatória. Em vez de cada país desenvolver completamente seu próprio modelo de divulgação, cresce a tendência de utilizar os padrões do ISSB como referência para estabelecer requisitos nacionais.
O que são IFRS S1 e IFRS S2?
A IFRS S1 estabelece requisitos gerais para que empresas divulguem informações financeiras relacionadas a riscos e oportunidades de sustentabilidade relevantes para os usuários de seus relatórios financeiros.
Já a IFRS S2 é direcionada especificamente às informações relacionadas ao clima. A norma aborda riscos e oportunidades climáticos e estabelece requisitos para divulgação de informações sobre temas como governança, estratégia, processos de gestão de riscos e métricas e metas.
As duas normas foram desenvolvidas para funcionar como uma linha de base global, permitindo que diferentes jurisdições incorporem seus requisitos em suas próprias estruturas regulatórias.
Por que a expansão do ISSB importa para as empresas?
A expansão das normas pode aumentar significativamente a importância da capacidade das empresas de produzir, organizar, verificar e divulgar dados ESG confiáveis.
Empresas que atuam internacionalmente podem precisar acompanhar diferentes legislações, mas a existência de uma referência global tende a facilitar a construção de sistemas internos de coleta e gestão de dados.
Para investidores, a padronização também pode melhorar a comparabilidade das informações divulgadas por empresas de diferentes países e setores.
O avanço do ISSB, portanto, não significa necessariamente que todas as empresas do mundo passarão a utilizar exatamente as mesmas regras. O movimento atual é de convergência regulatória, com diferentes países incorporando os padrões internacionais em ritmos e formatos próprios.
Um novo cenário para o reporte ESG
A expansão das IFRS S1 e S2 mostra que a regulamentação de informações ESG está entrando em uma nova fase. Depois de anos marcados pela multiplicação de frameworks voluntários, cresce a participação de governos, reguladores e órgãos do mercado de capitais na definição de requisitos obrigatórios.
A IFRS Foundation vem desenvolvendo ferramentas para ajudar as jurisdições a avaliar susdições avancem nos próximos anos em consultas públicas, definição de cronogramas e incorporação dos requisitos do ISSB.
Para as empresas, isso significa que a preparação para o novo ambiente regulatório não deve começar apenas quando uma obrigação se tornar efetiva. Sistemas de dados, governança, controles internos e processos de mensuração de emissões e outros indicadores de sustentabilidade podem precisar ser estruturados com antecedência.
A expansão internacional das IFRS S1 e S2 indica, assim, que o reporte de sustentabilidade caminha para uma maior integração com as informações financeiras e para um padrão cada vez mais comparável entre diferentes mercados.a preparação e elaborar roteiros para adoção ou utilização dos padrões ISSB.
O resultado é um cenário no qual sustentabilidade, clima e informação financeira estão cada vez mais conectados. Para empresas com operações globais, acompanhar a evolução dessas regras deixa de ser apenas uma questão de comunicação ESG e passa a fazer parte da estratégia de gestão de riscos, governança e acesso a capital.
O que vem pela frente?
A tendência é que novas jurisdições avancem nos próximos anos em consultas públicas, definição de cronogramas e incorporação dos requisitos do ISSB em suas legislações e normas do mercado de capitais. A própria IFRS Foundation mantém um acompanhamento das diferentes abordagens adotadas pelos países, incluindo aqueles que já finalizaram sua estratégia e os que ainda estão em processo de definição.
Ao mesmo tempo, o ISSB continua trabalhando no aprimoramento das normas. Em 2026, o órgão mantém atividades relacionadas à implementação das IFRS S1 e S2, além de projetos envolvendo os padrões SASB, biodiversidade, ecossistemas e serviços ecossistêmicos e capital humano.
Esse processo pode levar a uma maior integração entre diferentes estruturas de reporte. O objetivo não é necessariamente eliminar todas as diferenças entre os sistemas nacionais, mas criar uma base global comum que possa ser utilizada pelos mercados e adaptada às características de cada jurisdição.
Para as empresas, o cenário reforça a importância de acompanhar não apenas as normas já vigentes, mas também consultas públicas, projetos regulatórios e cronogramas de implementação. A preparação antecipada pode ser fundamental para estruturar sistemas de coleta de dados, controles internos, governança e processos de reporte.
A expansão das IFRS S1 e S2 também tende a aumentar a demanda por profissionais capazes de interpretar normas de sustentabilidade, trabalhar com indicadores ESG e conectar informações ambientais e climáticas às informações financeiras.
Mais do que uma mudança nos relatórios corporativos, o avanço do ISSB representa uma transformação na forma como riscos e oportunidades de sustentabilidade são incorporados à tomada de decisão financeira.
Se esse movimento continuar, as próximas etapas da regulamentação internacional poderão definir não apenas quais empresas terão de reportar informações ESG, mas também quais dados precisarão ser divulgados, como serão mensurados e em que medida poderão ser comparados entre diferentes mercados.

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.