Mapeamento identifica 101 milhões de hectares do Cerrado prioritários para a recarga hídrica

Quando pensamos em segurança hídrica, reservatórios, barragens e sistemas de abastecimento costumam aparecer primeiro. Mas parte importante da água que mantém rios e nascentes durante os períodos de seca começa muito antes de chegar a essas estruturas: ela depende da capacidade do solo e da vegetação de receber a chuva, favorecer sua infiltração e alimentar reservas subterrâneas.

É nesse contexto que o Brasil acaba de dar um novo passo na tentativa de proteger áreas consideradas estratégicas para a água.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) anunciou, em 17 de setembro, a criação das Áreas Prioritárias de Recarga Hídrica no Bioma Cerrado (APRHC). O mapeamento identificou 101,7 milhões de hectares considerados prioritários, o equivalente a 51,3% do Cerrado. [1]

A medida cria uma referência para orientar políticas públicas e investimentos em conservação e restauração justamente nos territórios que apresentam maior importância para a infiltração e o armazenamento de água.

Mas isso significa que é possível “produzir” água?

O que significa “produzir água”?

A expressão não deve ser interpretada literalmente. Florestas e outras formações vegetais não criam moléculas de água.

O que ecossistemas conservados podem fazer é contribuir para processos do ciclo hidrológico, como a infiltração da chuva no solo, a recarga de reservas subterrâneas, a proteção de nascentes e a regulação das vazões dos rios.

No Cerrado, essa relação é particularmente importante.

Segundo o MMA, a vegetação nativa do bioma possui raízes profundas que exercem papel relevante na infiltração da água da chuva e na recarga subterrânea, ajudando também na manutenção da vazão dos rios ao longo do ano. [1]

Por isso, conservar ou restaurar determinadas áreas pode funcionar, na prática, como uma forma de infraestrutura natural para a segurança hídrica.

Mais da metade do Cerrado foi considerada prioritária para recarga hídrica

O tamanho da área identificada chama atenção.

O novo mapeamento apontou 101,7 milhões de hectares prioritários para a recarga hídrica, correspondentes a 51,3% da área do Cerrado. [1]

Dentro desse território, 46,9 milhões de hectares, ou 23,6% do bioma, têm a restauração ecológica como principal ação recomendada.

Isso não significa que toda essa extensão será imediatamente restaurada ou transformada em área protegida. O objetivo do instrumento é fornecer uma base técnica para indicar onde determinadas ações podem gerar benefícios maiores para a manutenção das funções hidrológicas.

O mapeamento poderá orientar iniciativas de:

  • conservação e restauração da vegetação nativa;
  • revitalização de bacias hidrográficas;
  • proteção de rios, nascentes e outros corpos hídricos;
  • combate à desertificação;
  • manejo sustentável do solo;
  • armazenamento de água;
  • redução dos impactos das secas. [1]

Segundo o MMA, o trabalho foi desenvolvido pelo Instituto Cerrados em parceria com o ministério e com apoio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), após mais de três anos de consultas, estudos e modelagem hidrológica. [1]

Por que o Cerrado é tão importante para a água do Brasil?

A importância do Cerrado para a segurança hídrica ultrapassa os limites do próprio bioma.

Ele está presente em dez das 12 regiões hidrográficas brasileiras, e oito delas possuem nascentes localizadas nas áreas mais elevadas do Cerrado, segundo o MMA. [1]

Isso ajuda a explicar por que mudanças no uso do solo do bioma podem ter consequências que vão além da conservação da biodiversidade.

Quando a vegetação é removida e as características do solo são alteradas, processos como infiltração, escoamento superficial e armazenamento de água também podem ser modificados.

Por outro lado, proteger áreas estratégicas e recuperar regiões degradadas pode contribuir para aumentar a resiliência das bacias hidrográficas diante de períodos de seca.

A discussão se torna ainda mais relevante diante dos desafios relacionados à segurança hídrica e aos eventos climáticos extremos.

Proteger água também pode gerar renda

O anúncio trouxe ainda outra mudança que pode aproximar conservação ambiental e economia.

O MMA regulamentou modalidades previstas na Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), instituída pela Lei nº 14.119/2021.

A Portaria GM/MMA nº 1.777/2026 estabelece regras para formas monetárias e não monetárias de remuneração por ações de manutenção, recuperação ou melhoria dos serviços prestados pelos ecossistemas. [1]

Na prática, o princípio do PSA é relativamente simples: quem contribui para conservar ou recuperar serviços ambientais pode receber uma contrapartida por isso, desde que sejam atendidos os critérios estabelecidos.

No caso do Cerrado, iniciativas de conservação da vegetação ou recuperação de áreas degradadas podem contribuir simultaneamente para regulação hídrica, conservação do solo, biodiversidade e equilíbrio climático.

A regulamentação prevê modalidades como pagamento direto, benefícios não monetários, primeira comercialização de Cota de Reserva Ambiental e utilização de Cédula de Produto Rural em determinadas condições. [1]

O pagamento, entretanto, deve estar relacionado à efetiva prestação do serviço ambiental e ao monitoramento previsto em contrato.

Água pode se tornar um argumento econômico para a restauração

A combinação das duas medidas abre uma discussão importante.

Durante muito tempo, os benefícios econômicos da vegetação nativa foram mais difíceis de visualizar do que aqueles relacionados à conversão da terra para atividades produtivas.

O avanço dos mecanismos de pagamento por serviços ambientais e dos instrumentos capazes de identificar quais territórios oferecem serviços ecossistêmicos particularmente relevantes pode começar a mudar essa lógica.

Se determinada área contribui de forma significativa para a recarga de aquíferos, manutenção de nascentes ou regulação das vazões de uma bacia, sua conservação passa a ter um valor que pode ser considerado também nas decisões econômicas.

Isso não significa atribuir um preço simples à água ou à floresta, mas reconhecer que a degradação dos ecossistemas também pode gerar custos econômicos.

Recuperar uma área estratégica antes que a disponibilidade hídrica seja comprometida pode, em determinadas situações, ser mais eficiente do que depender exclusivamente de novas obras para enfrentar os efeitos da escassez.

Restauração pode virar parte da infraestrutura hídrica?

Esse talvez seja um dos aspectos mais interessantes da nova iniciativa.

Tradicionalmente, infraestrutura hídrica remete a barragens, reservatórios, canais, adutoras e estações de tratamento. Essas estruturas continuam sendo essenciais.

Mas soluções baseadas na natureza vêm ampliando o conceito de infraestrutura.

Uma floresta conservada, uma nascente protegida, uma área úmida preservada ou um solo recuperado também desempenham funções importantes no funcionamento de uma bacia hidrográfica.

O novo mapa não elimina a necessidade de infraestrutura convencional nem significa que restaurar vegetação seja suficiente para solucionar todos os problemas de abastecimento.

Ele pode, porém, ajudar a responder a uma pergunta cada vez mais importante: se os recursos para conservação e restauração são limitados, onde investir primeiro para obter benefícios ambientais e hídricos mais relevantes?

Segundo o MMA, os dados das Áreas Prioritárias de Recarga Hídrica serão disponibilizados em uma plataforma pública, com informações sobre metodologia, critérios de classificação e atualizações. As análises serão apresentadas nas escalas do bioma, das regiões hidrográficas e das unidades de planejamento hídrico. [1]

Em um cenário no qual secas, mudanças no regime de chuvas e aumento da demanda colocam pressão crescente sobre os recursos hídricos, proteger a água pode significar olhar não apenas para rios e reservatórios, mas também para o solo e a vegetação que ajudam a abastecê-los.

Referências

[1] BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Em cerimônia alusiva ao Dia do Cerrado, portarias assinadas estabelecem áreas prioritárias para recarga hídrica e regras para PSA. Brasília, DF: MMA, 17 set. 2026. Disponível no portal oficial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Acesso em: 20 set. 2026.

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