O agronegócio brasileiro está passando por uma transformação que vai muito além do aumento das safras. A produtividade agropecuária avançou em ritmo muito superior ao observado na indústria em parte importante do território nacional, enquanto regiões do interior, especialmente o Centro-Oeste e o MATOPIBA (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), passaram a concentrar uma parcela crescente do dinamismo econômico brasileiro.
Entre 2002 e 2019, a produtividade do trabalho na agropecuária brasileira cresceu 80,1%, enquanto a indústria avançou apenas 5,4%. Piauí, Maranhão e Tocantins estiveram entre os estados que apresentaram alguns dos maiores ganhos de produtividade no período. [1]
O movimento ajuda a explicar por que o agronegócio passou a ter um papel cada vez maior na economia de municípios do interior, estimulando atividades como transporte, comércio, serviços, armazenagem, construção civil e indústria de alimentos. [1]
Mas o avanço também coloca uma questão que tende a se tornar cada vez mais importante para o futuro do setor: o agronegócio brasileiro conseguirá continuar aumentando sua produção sem ampliar a pressão sobre solos, água, carbono e biodiversidade?
Essa talvez seja uma das perguntas centrais para a próxima fase do desenvolvimento agrícola brasileiro.
Agro ganha produtividade e muda o mapa econômico do Brasil
A agricultura brasileira não cresceu apenas porque passou a ocupar mais terras. A incorporação de tecnologia, mecanização, melhoramento genético, fertilizantes, manejo, irrigação, agricultura de precisão e conhecimento técnico aumentou significativamente a capacidade produtiva do campo.
Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que a produtividade total dos fatores tem sido um dos principais motores do crescimento da agropecuária brasileira. Entre 1975 e 2016, a produtividade respondeu por 80,6% do crescimento do produto agropecuário. [2]
Outro estudo do Ipea mostra que, entre 2000 e 2019, a produtividade total dos fatores da agricultura brasileira cresceu cerca de 3,2% ao ano, quase o dobro da média mundial, estimada em aproximadamente 1,7% no mesmo período. [3]
A mudança tecnológica, portanto, não é um detalhe da história recente do agronegócio. Ela está no centro da capacidade brasileira de produzir mais utilizando relativamente menos recursos. Entre 1980 e 2021, por exemplo, a produção brasileira de grãos aumentou quase 400%, enquanto a produtividade total dos fatores apresentou forte crescimento. [3]
Isso ajuda a explicar por que o Brasil conseguiu ampliar sua produção agrícola e, simultaneamente, consolidar-se como um dos principais fornecedores mundiais de alimentos.
Mas existe uma diferença fundamental entre produzir mais e produzir de forma sustentável.
O crescimento do MATOPIBA coloca a sustentabilidade no centro da discussão
O MATOPIBA, formado por áreas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, tornou-se um dos principais símbolos da expansão da agricultura brasileira. A região é estratégica para a produção de soja, milho e algodão e possui uma área agrícola estimada em aproximadamente 4,8 milhões de hectares. [4] Ao mesmo tempo, grande parte dessa expansão ocorre no Cerrado, um dos biomas mais importantes do país para a biodiversidade e para a segurança hídrica.
Os dados mais recentes do MapBiomas mostram a dimensão do desafio. Em 2025, cerca de 40% de toda a perda de vegetação nativa registrada no Brasil ocorreu no MATOPIBA, que acumulou 392.929 hectares de perda. A região também concentrou aproximadamente 70% de toda a área desmatada no Cerrado naquele ano. [5]
Existe, portanto, uma contradição que precisa ser enfrentada. O mesmo território pode ser simultaneamente uma das regiões mais promissoras para o crescimento da produção agrícola e uma das áreas onde a conservação ambiental precisa avançar com maior velocidade.
Isso não significa que o crescimento da agricultura dependa necessariamente da abertura de novas áreas.
Pelo contrário. A própria história da agricultura brasileira mostra que ganhos de produtividade podem permitir que o país produza mais sem que o crescimento da produção seja proporcional ao aumento da área cultivada.
A questão agora é fazer essa lógica avançar para uma nova etapa: produzir mais sem aumentar proporcionalmente a pressão sobre os ecossistemas.
Produzir mais não significa necessariamente ocupar mais terra
Existe uma diferença fundamental entre crescimento da produção e expansão da área cultivada.
Quando a produtividade aumenta, uma determinada quantidade de alimentos pode ser produzida em uma área menor do que seria necessária utilizando tecnologias e sistemas de manejo menos eficientes.
Essa lógica foi fundamental para a transformação da agricultura brasileira nas últimas décadas. Segundo o Ipea, a mudança tecnológica foi determinante para o crescimento da produtividade do setor agropecuário brasileiro. [3]
Mas ganhos de produtividade, isoladamente, não garantem sustentabilidade. Uma propriedade pode produzir mais toneladas por hectare e, simultaneamente, perder matéria orgânica, sofrer erosão, comprometer recursos hídricos ou reduzir a biodiversidade. Por isso, a ideia de produtividade agrícola precisa evoluir.
Além de toneladas por hectare, será cada vez mais importante considerar indicadores como:
- carbono armazenado no solo;
- matéria orgânica;
- eficiência no uso da água;
- perdas de nutrientes;
- erosão;
- emissões de gases de efeito estufa;
- biodiversidade;
- recuperação de áreas degradadas;
- eficiência no uso de fertilizantes;
- produtividade por unidade de carbono emitido.
Em outras palavras, a próxima fronteira da agricultura brasileira pode não ser apenas produzir mais.
Pode ser produzir mais com menor impacto ambiental.
O solo pode ser o verdadeiro limite para o crescimento do agro
A discussão sobre sustentabilidade agrícola muitas vezes começa pela conservação das florestas, mas deveria passar também pelo solo.
Sem solos saudáveis, a produtividade agrícola perde uma parte importante de sua base de sustentação.
Um estudo publicado na revista científica Bragantia estimou que as lavouras anuais brasileiras perdem aproximadamente 616,5 milhões de toneladas de terra por ano devido à erosão hídrica. Os autores estimaram custos da ordem de US$ 1,3 bilhão anuais associados a essas perdas. [6]
O estudo também mostrou que a cobertura do solo reduz significativamente as perdas de terra e de nutrientes. Isso é particularmente importante porque a erosão não representa apenas a perda física de solo.
Ela também pode significar perda de matéria orgânica, nutrientes, capacidade de retenção de água e produtividade futura. Em outras palavras, degradar o solo significa consumir parte do próprio patrimônio produtivo do agronegócio.
Por isso, conservação do solo não deveria ser vista apenas como uma pauta ambiental. É também uma estratégia econômica.
Agricultura regenerativa: tendência ESG ou estratégia de produtividade?
É nesse contexto que a agricultura regenerativa ganhou espaço no debate sobre sustentabilidade.
O conceito ainda não possui uma definição única e universalmente aceita. Uma revisão da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) identificou diferentes definições utilizadas por pesquisadores e produtores, mas encontrou elementos recorrentes, como melhoria da saúde do solo, aumento da biodiversidade, redução da degradação e aumento do armazenamento de carbono em determinadas condições. [7]
Entre as práticas frequentemente associadas à agricultura regenerativa estão:
- plantio direto;
- cobertura permanente do solo;
- rotação de culturas;
- integração lavoura-pecuária;
- integração lavoura-pecuária-floresta;
- sistemas agroflorestais;
- recuperação de pastagens degradadas;
- uso eficiente da água;
- diversificação de cultivos;
- manejo adequado de nutrientes.
Muitas dessas técnicas, entretanto, não são novas. O plantio direto, a rotação de culturas e os sistemas integrados já fazem parte de pesquisas e políticas de agricultura sustentável há décadas.
A novidade está na forma como essas práticas vêm sendo reunidas em uma estratégia que busca integrar produtividade, saúde do solo, carbono, biodiversidade e resiliência climática. Ainda assim, é importante evitar simplificações.
Uma prática chamada de “regenerativa” não produz automaticamente os mesmos resultados em qualquer região. Os efeitos dependem do clima, tipo de solo, cultura agrícola, histórico da área e manejo utilizado.
Por isso, a avaliação precisa ser baseada em evidências e indicadores mensuráveis.
MATOPIBA mostra que produtividade e carbono podem caminhar juntos
A pesquisa brasileira já apresenta exemplos de sistemas que procuram combinar produção agrícola e conservação dos recursos naturais.
Em estudo realizado no MATOPIBA, a Embrapa avaliou sistemas integrados e encontrou resultados relacionados ao aumento da produção de grãos e ao armazenamento de carbono no solo. [8] A pesquisa reforça a importância de sistemas como a integração lavoura-pecuária para melhorar características do solo e aumentar a eficiência do uso da terra.
Outro trabalho da Embrapa avaliou estoques de carbono do solo em áreas de integração lavoura-pecuária-floresta na região do MATOPIBA, contribuindo para o entendimento do potencial desses sistemas para conciliar produção e serviços ambientais. [9]
Esse tipo de abordagem muda a pergunta que deveria orientar parte das decisões do agronegócio.
Em vez de perguntar apenas:
“Quanto o Brasil consegue produzir?”
seria necessário perguntar:
“Quanto o Brasil consegue produzir mantendo ou aumentando a qualidade dos recursos naturais que sustentam essa produção?”
Recuperar áreas degradadas pode ser uma das maiores oportunidades do agro
Existe uma alternativa estratégica entre duas escolhas aparentemente opostas: expandir a agricultura ou preservar áreas naturais.
Essa alternativa é recuperar áreas que já foram degradadas.
A recuperação de pastagens degradadas é uma das estratégias contempladas pelo Plano ABC+, política brasileira voltada à adaptação da agropecuária às mudanças climáticas e à redução das emissões de gases de efeito estufa.
O programa inclui tecnologias como recuperação de pastagens degradadas, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta, sistemas agroflorestais, plantio direto e bioinsumos. [10]
A lógica é especialmente relevante para o Brasil. Quando uma área já aberta recupera sua capacidade produtiva, torna-se possível aumentar a produção sem necessariamente converter uma nova área de vegetação nativa.
Essa estratégia pode transformar a recuperação de áreas degradadas em uma das principais fronteiras de crescimento do agronegócio brasileiro.
O desafio passa a ser encontrar onde estão essas áreas, avaliar seu potencial produtivo, viabilizar financeiramente a recuperação e garantir que o aumento da produção não provoque novas formas de degradação.
Carbono no solo pode deixar de ser apenas uma pauta climática
O carbono armazenado no solo também pode ganhar importância econômica.
O carbono orgânico do solo participa de processos fundamentais relacionados à fertilidade, estrutura, retenção de água e funcionamento dos ecossistemas. A FAO destaca a importância do manejo sustentável dos solos para aumentar ou conservar estoques de carbono e melhorar sua capacidade de fornecer serviços ecossistêmicos. [11]
Isso cria uma possibilidade interessante para o agronegócio brasileiro. Um sistema que aumenta a matéria orgânica, protege o solo, reduz erosão e melhora a eficiência produtiva pode gerar diferentes benefícios simultaneamente: mais produtividade, maior resiliência, menor degradação e maior armazenamento de carbono.
Mas existe uma ressalva importante. Nem todo aumento de carbono no solo deve ser automaticamente transformado em crédito de carbono. A geração de créditos exige metodologias capazes de demonstrar, entre outros aspectos, adicionalidade, permanência e mensuração confiável.
Sem critérios robustos, existe o risco de transformar uma agenda ambiental importante em uma simples estratégia de marketing.
E a biodiversidade?
Esse talvez seja um dos pontos mais difíceis de incorporar à equação econômica. Uma área agrícola altamente produtiva não substitui automaticamente um ecossistema natural.
O solo, por exemplo, abriga uma enorme diversidade de organismos que participa da ciclagem de nutrientes, decomposição da matéria orgânica, regulação da água e armazenamento de carbono. A FAO considera a biodiversidade do solo fundamental para o funcionamento dos ecossistemas e para a sustentabilidade da produção agrícola. [12]
Por isso, uma estratégia realmente sustentável precisa trabalhar em duas escalas. Dentro da área produtiva, é necessário melhorar o solo, reduzir erosão, aumentar eficiência, utilizar água e nutrientes de maneira mais eficiente e diminuir emissões.
Fora da área produtiva, é necessário proteger e restaurar ecossistemas naturais, nascentes, matas ciliares, corredores ecológicos e áreas de vegetação nativa.
Essa combinação é fundamental. Produzir mais não pode significar substituir todos os ecossistemas naturais por áreas agrícolas.
O novo indicador do agronegócio deveria ser produtividade com conservação
O Brasil já demonstrou que consegue transformar ciência, tecnologia e inovação em produtividade agrícola. A grande questão para as próximas décadas é outra: será capaz de transformar produtividade em sustentabilidade?
O crescimento do agronegócio no interior brasileiro representa uma oportunidade econômica extraordinária. A expansão da produção pode gerar renda, infraestrutura, empregos, inovação e desenvolvimento regional. Mas um modelo baseado na conversão contínua de áreas naturais possui limites ambientais.
A alternativa não é necessariamente produzir menos, é produzir melhor. Isso significa recuperar áreas degradadas antes de abrir novas fronteiras, aumentar a produtividade das áreas já utilizadas, conservar o solo, proteger recursos hídricos, reduzir emissões, aumentar o carbono no sistema e preservar a biodiversidade.
No fim, a pergunta que o agronegócio brasileiro terá de responder não será apenas quanto consegue produzir. Será quanto consegue produzir sem consumir o próprio capital natural que torna essa produção possível.
E essa diferença pode definir a competitividade do agro brasileiro nas próximas décadas.
Referências
[1] FOLHA DE S.PAULO. Interior ganha impulso com agro, e produtividade do Brasil muda de endereço. 2026. Dados sobre a evolução da produtividade do trabalho entre 2002 e 2019. [1]
[2] IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Carta de Conjuntura: produtividade. Dados sobre a contribuição da produtividade para o crescimento do produto agropecuário brasileiro. [2]
[3] GASQUES, J. G. et al. Produtividade total dos fatores na agricultura – Brasil e países selecionados. Ipea, 2022. O estudo analisa a produtividade total dos fatores e destaca o papel da mudança tecnológica no crescimento da agricultura brasileira. [3]
[4] EMBRAPA. Tema MATOPIBA. Informações sobre produção agropecuária, culturas e área agrícola da região. [4]
[5] MAPBIOMAS. Relatório Anual do Desmatamento no Brasil – RAD 2025. Dados sobre perda de vegetação nativa no MATOPIBA e no Cerrado. [5]
[6] DECHEN, S. C. F. et al. Perdas e custos associados à erosão hídrica em função de taxas de cobertura do solo. Bragantia, 2015. [6]
[7] FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. What Is Regenerative Agriculture? A Review of Scholar and Practitioner Definitions Based on Processes and Outcomes. [7]
[8] EMBRAPA. Sistemas integrados elevam produção de grãos e armazenam mais carbono no solo no MATOPIBA. 2025. [8]
[9] EMBRAPA. Estoques de carbono do solo em áreas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta na região do MATOPIBA. [9]
[10] BRASIL. Ministério da Agricultura e Pecuária. Plano ABC+: tecnologias de adaptação e mitigação para uma agropecuária sustentável. [10]
[11] FAO. Recarbonizing Global Soils: A Technical Manual of Recommended Sustainable Soil Management. Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura. [11]
[12] FAO. The State of Knowledge of Soil Biodiversity. Global Soil Partnership. [12]

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.