Produtos que utilizam castanha-do-pará, cupuaçu e murumuru responderam por R$ 584,2 milhões da receita líquida da companhia em 2025; cadeias desses ingredientes foram identificadas como vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas
As mudanças climáticas já deixaram de representar apenas um risco ambiental para entrar nas contas das empresas. Um exemplo vem da Natura, que identificou R$ 584,2 milhões em receita líquida associada a produtos que utilizam ingredientes amazônicos cujas cadeias estão vulneráveis aos riscos climáticos.
O montante corresponde a 2,63% da receita líquida da companhia em 2025 e está relacionado a produtos que utilizam três ingredientes da sociobiodiversidade amazônica: castanha-do-pará, cupuaçu e murumuru.
Os dados aparecem no primeiro relatório de divulgação climática da Natura elaborado de acordo com os padrões internacionais IFRS S1 e S2. A companhia avaliou 27 ingredientes amazônicos e identificou essas três cadeias como particularmente vulneráveis.
O caso ajuda a mostrar, em valores financeiros, como alterações no clima e na biodiversidade podem chegar à cadeia de suprimentos, aos custos e às operações das empresas.
Por que castanha, cupuaçu e murumuru estão expostos?
A vulnerabilidade está relacionada principalmente às mudanças nos padrões de chuva e temperatura e à ocorrência de eventos climáticos extremos. Essas alterações podem afetar tanto a produtividade das espécies quanto as comunidades responsáveis pela produção e pelo fornecimento dos ingredientes.
O El Niño é uma preocupação adicional. O fenômeno pode intensificar condições de seca e temperaturas elevadas em partes da Amazônia. Para uma empresa cuja estratégia de produtos está fortemente associada à biodiversidade brasileira, alterações na disponibilidade desses ingredientes podem se transformar em risco para a própria atividade econômica.
A exposição também tende a aumentar conforme o planeta aquece. A Natura analisou três cenários climáticos e identificou alta exposição dos ingredientes amazônicos já até 2030, inclusive no cenário de menor aquecimento. Em cenários mais severos, a vulnerabilidade aumenta até 2050.
R$ 584 milhões não significam R$ 584 milhões em prejuízo
É importante diferenciar receita exposta ao risco climático de perda financeira projetada. Os R$ 584,2 milhões representam a receita obtida em 2025 com produtos que utilizam castanha-do-pará, cupuaçu e murumuru. O valor não significa que a Natura espera perder esse montante em razão das mudanças climáticas.
O indicador mostra, porém, o tamanho da atividade econômica vinculada a cadeias consideradas vulneráveis.
Na prática, a conta ajuda a responder a uma questão cada vez mais importante para investidores e empresas: quanto do negócio depende de condições ambientais que podem ser alteradas pelas mudanças climáticas?
Natura já investe para reduzir a vulnerabilidade
A companhia informou ter destinado cerca de R$ 21 milhões em 2025 a medidas para aumentar a resiliência dessas cadeias de fornecimento. Entre as estratégias avaliadas estão formação de estoques de castanha-do-pará, ampliação das áreas de cultivo de cupuaçu e investimentos em estruturas para processamento de murumuru.
A empresa também vem utilizando tecnologia para antecipar impactos climáticos. Em agosto, a Natura informou ter incorporado inteligência artificial ao monitoramento de riscos associados ao El Niño, além de manter protocolos para responder a enchentes, secas extremas e queimadas.
Risco climático vai além da floresta
A exposição identificada pela Natura não se limita aos ingredientes amazônicos. Commodities agrícolas utilizadas na fabricação dos produtos, como óleo de palma e etanol de cana-de-açúcar, também foram classificadas como fontes de risco no médio prazo.
Em 2025, a companhia desembolsou cerca de R$ 1,7 bilhão com esses insumos, equivalentes a aproximadamente 24% dos custos dos produtos vendidos.
Há ainda riscos relacionados às instalações da própria empresa. Cinco unidades foram classificadas com alta exposição física a eventos climáticos, com possíveis impactos financeiros decorrentes de danos e interrupções das operações.
O cenário evidencia como o risco climático pode percorrer diferentes pontos de um negócio: começa na produção de uma matéria-prima, passa pela cadeia logística e chega às fábricas, aos custos e às receitas.
Quando a biodiversidade entra no balanço
O caso da Natura também ilustra uma mudança importante na agenda ESG: clima e biodiversidade estão começando a ser traduzidos em riscos e oportunidades financeiras.
A própria companhia afirma reconhecer a interdependência entre clima, natureza e negócios e inclui mudanças climáticas e perda de biodiversidade entre os riscos acompanhados por sua gestão corporativa.
Essa discussão ganha importância especialmente para negócios dependentes de recursos naturais, como alimentos, bebidas, cosméticos, agricultura, papel e celulose, mineração e energia.
Uma seca prolongada pode reduzir a oferta de determinada matéria-prima. Chuvas extremas podem interromper estradas e operações. Mudanças de temperatura podem alterar a produtividade agrícola. A perda de biodiversidade pode comprometer recursos dos quais determinados produtos dependem.
Nesse contexto, adaptação climática deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a fazer parte da gestão de risco financeiro e da estratégia empresarial.
O número apresentado pela Natura torna essa relação particularmente concreta: R$ 584,2 milhões em receita estavam associados, em 2025, a produtos que dependem de apenas três ingredientes amazônicos identificados como vulneráveis às mudanças do clima.
Mais do que estimar quanto custa agir contra a mudança climática, empresas começam a precisar responder a outra pergunta: quanto pode custar não se adaptar?
Veja o relatório completo:https://ri.natura.com.br/sustentabilidade/relatorio-de-informacoes-financeiras-relacionadas-a-sustentabilidade-ifrs-s1-e-s2/

Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.