Novo relatório da FAO estima que a inação diante da degradação da terra gera perdas de até US$ 6,3 trilhões por ano; no Brasil, restauração se conecta à agricultura, segurança hídrica, clima e a uma meta de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.
Quando se fala em recuperar florestas e outras áreas degradadas, uma das primeiras perguntas costuma ser: quanto vai custar? Um novo relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) propõe olhar para o problema pelo sentido contrário: quanto custa não restaurar?
A resposta ajuda a dimensionar o tamanho econômico da degradação ambiental.
A edição de 2026 do relatório The State of the World’s Forests (SOFO), lançada pela FAO em 28 de setembro, estima que a inação diante da degradação da terra custa entre US$ 878 bilhões e US$ 6,3 trilhões por ano no mundo, dependendo do que é considerado na avaliação. O intervalo corresponde, segundo a organização, a algo entre 2% e 8,3% do Produto Interno Bruto (PIB) global anual.
Não se trata apenas de uma conta relacionada à perda de árvores. Mais de 1,56 bilhão de hectares de terras estão degradados no planeta, o equivalente a mais de 10% da superfície terrestre. Desse total, mais de 460 milhões de hectares correspondem a florestas degradadas.
A degradação atinge também áreas agrícolas, pastagens, regiões secas e zonas úmidas. Seus efeitos alcançam setores que dependem de solo, água, biodiversidade e estabilidade climática e ajudam a transformar uma questão frequentemente tratada como ambiental em uma questão também econômica.
O que a economia perde quando a terra se degrada?
Uma área degradada não representa somente a perda da vegetação existente naquele local. Florestas e outros ecossistemas ajudam a regular a água, proteger o solo, armazenar carbono e oferecer habitat para a biodiversidade. Quando essas funções são comprometidas, os impactos podem aparecer na produção de alimentos, na disponibilidade e qualidade da água, na vulnerabilidade climática e nos meios de subsistência das populações.
A própria FAO chama atenção para uma distância crescente entre a capacidade dos ecossistemas de fornecer esses serviços e a demanda da sociedade por alimentos, madeira, energia e outros recursos. Entre as consequências da degradação estão cadeias de abastecimento agrícola mais vulneráveis, perda de biodiversidade, aumento dos riscos climáticos e perda de oportunidades econômicas.
É nesse ponto que o debate sobre restauração começa a mudar. Em vez de ser vista apenas como despesa ambiental, a recuperação de paisagens degradadas pode ser entendida também como investimento na manutenção da infraestrutura natural da qual diferentes atividades econômicas dependem.
Agricultura também depende da restauração
A conexão com a agricultura é particularmente importante. A FAO define restauração de terras como um processo que pode ocorrer em diferentes usos do solo, incluindo áreas agrícolas, florestais e pastagens. Em terras destinadas à produção, restaurar não significa necessariamente retirar a área da atividade econômica.
As intervenções podem envolver manejo sustentável do solo, sistemas produtivos diversificados, planejamento do uso da terra e práticas destinadas a recuperar funções ecossistêmicas.
Nas áreas agrícolas, o objetivo pode ser justamente melhorar a saúde do solo, aumentar a produtividade e a resiliência e recuperar serviços ecossistêmicos, mantendo a capacidade de produzir alimentos e sustentar os meios de vida das populações rurais.
Essa perspectiva é especialmente relevante diante das mudanças climáticas. Secas, chuvas extremas, incêndios e outros eventos podem ampliar pressões sobre paisagens que já apresentam algum grau de degradação.
Somente os incêndios afetam cerca de 127 milhões de hectares de florestas por ano, segundo a FAO, enquanto doenças, pragas e eventos meteorológicos severos acrescentam novas pressões.
Restaurar também é uma questão de água
Outra parte dessa conta passa pela água. A recuperação da vegetação e do solo pode contribuir para restabelecer funções relacionadas à regulação hídrica, à estabilidade do terreno e à qualidade dos ecossistemas.
Por isso, a FAO defende que a restauração seja pensada de maneira integrada, considerando as relações entre florestas, biodiversidade, água, solo e clima, além das populações que vivem e produzem nessas paisagens.
Essa relação ajuda a explicar por que o retorno da restauração não pode ser medido apenas pela quantidade de árvores plantadas ou pelo número de hectares recuperados.
Em uma bacia hidrográfica, por exemplo, recuperar vegetação e solo pode ter implicações que ultrapassam a área diretamente restaurada. A discussão alcança segurança hídrica, produção rural, conservação da biodiversidade e capacidade de adaptação a extremos climáticos.
Mundo precisa colocar pelo menos 470 milhões de hectares em restauração até 2030
A escala do desafio é enorme. Nas últimas duas décadas, países e iniciativas nacionais, regionais e internacionais assumiram compromissos que somam mais de 1 bilhão de hectares de terras a serem restauradas.
Ainda assim, para alcançar as metas globais existentes, a FAO calcula que será necessário colocar pelo menos 470 milhões de hectares sob restauração até 2030.
E restaurar nessa escala exige dinheiro. O relatório aponta a necessidade de combinar recursos públicos e privados e destaca que o financiamento precisa considerar as características da restauração, incluindo seus prazos mais longos e a necessidade de resultados ambientais de qualidade.
A questão, portanto, não é apenas encontrar recursos para restaurar. É comparar esse investimento com as perdas que podem continuar se acumulando quando a degradação permanece.
E o Brasil?
No Brasil, essa discussão ganha uma dimensão própria. O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg) estabelece a meta de recuperar pelo menos 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. O marco estratégico atualizado para 2025-2028 inclui entre suas estratégias o fortalecimento da cadeia produtiva da recuperação e a atração e otimização de investimentos públicos e privados.
O plano também aproxima a restauração da produção rural. Entre seus arranjos de implementação estão áreas rurais de baixa produtividade, nas quais podem ser fomentados sistemas agroflorestais, integração lavoura-pecuária-floresta e silvicultura com espécies nativas.
Isso significa que a recuperação ambiental pode movimentar uma cadeia que inclui produção de sementes e mudas, serviços técnicos, mão de obra, pesquisa, monitoramento, sistemas agroflorestais e diferentes mecanismos de financiamento.
Ao mesmo tempo, o tamanho das áreas potencialmente recuperáveis mostra que o desafio brasileiro vai além da meta oficial. Dados apresentados pelo Serviço Florestal Brasileiro apontam, por exemplo, 20,7 milhões de hectares passíveis de recuperação em imóveis rurais, considerando Áreas de Preservação Permanente e Reservas Legais, além de áreas em Unidades de Conservação e Terras Indígenas.
O custo de restaurar precisa ser comparado ao custo de perder
O debate sobre restauração costuma esbarrar em uma dificuldade: seus custos são relativamente visíveis. É possível calcular o preço de mudas, sementes, mão de obra, assistência técnica, monitoramento e manutenção.
Parte dos benefícios de evitar a degradação, porém, aparece de forma mais dispersa. Eles podem estar na manutenção da fertilidade do solo, na proteção da água, na redução da vulnerabilidade de sistemas produtivos, na conservação da biodiversidade, no armazenamento de carbono ou na maior capacidade de uma paisagem enfrentar eventos climáticos extremos.
É justamente essa mudança de perspectiva que os números da FAO ajudam a provocar. Se a inação diante da degradação pode representar centenas de bilhões ou até trilhões de dólares em perdas todos os anos, a pergunta econômica deixa de ser apenas quanto será necessário investir para restaurar.
Passa a ser também: quanto estamos dispostos a perder por não fazê-lo?
Para o Brasil, que precisa conciliar produção agropecuária, segurança hídrica, conservação da biodiversidade, adaptação climática e desenvolvimento econômico, essa pergunta tende a ganhar cada vez mais importância.
A restauração deixa, assim, de ocupar apenas o campo da reparação ambiental. Ela passa a integrar uma discussão maior sobre infraestrutura natural, produtividade, redução de riscos e desenvolvimento econômico.
Leia o relatório completo: https://openknowledge.fao.org/items/3758005c-1267-40be-a267-75d442633f62
Veja também: https://www.fao.org/interactive/2026/state-of-the-worlds-forests/en/
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.