Créditos de carbono e biodiversidade, pagamentos por serviços ambientais, títulos verdes e fundos voltados à conservação tentam direcionar dinheiro para florestas, água e ecossistemas. A promessa é fazer a natureza valer mais preservada do que destruída. Mas transformar seus benefícios em valor econômico também traz riscos.
Quanto vale uma floresta?
A resposta mais óbvia seria dizer que ela não tem preço. Afinal, uma floresta abriga espécies, armazena carbono, influencia o ciclo da água, protege o solo, ajuda a regular o clima e pode sustentar comunidades inteiras.
Para o sistema econômico, porém, durante muito tempo parte importante desses benefícios praticamente não apareceu nas contas.
Uma árvore em pé pode contribuir para armazenar carbono, reduzir erosão, proteger nascentes e manter biodiversidade. Mas muitos desses serviços não geram automaticamente uma receita para quem conserva a área.
Já derrubar a árvore pode gerar madeira, abrir espaço para agricultura, pecuária ou algum empreendimento, atividades cujo retorno financeiro é muito mais fácil de calcular.
É justamente essa distorção que uma nova geração de instrumentos financeiros tenta enfrentar.
Créditos de carbono, pagamentos por serviços ambientais (PSA), títulos verdes, fundos de conservação e os ainda incipientes créditos de biodiversidade partem de formatos diferentes, mas compartilham uma ideia: criar mecanismos capazes de direcionar recursos econômicos para quem conserva ou recupera a natureza.
O movimento ganhou até um nome: nature finance, ou finanças para a natureza. E os números ajudam a explicar por que o assunto chegou ao mercado financeiro.
Falta mais de US$ 1 trilhão por ano para financiar a natureza
O relatório Financing Nature 2026, divulgado em setembro pelo Paulson Institute, The Nature Conservancy (TNC) e WWF, estima em US$ 1,317 trilhão por ano a diferença entre os recursos atualmente destinados à proteção da biodiversidade e aquilo que seria necessário para enfrentar adequadamente sua perda.
A lacuna praticamente dobrou em relação à estimativa de 2020, de US$ 711 bilhões anuais. Ao mesmo tempo, aproximadamente US$ 58 trilhões do PIB mundial são gerados em setores que dependem da natureza e dos serviços que ela oferece, segundo o relatório.
Há, portanto, um paradoxo: boa parte da economia depende de água, solo fértil, polinização, estabilidade climática e outros serviços ecossistêmicos, mas muitos desses benefícios continuam fora das decisões econômicas tradicionais.
É aí que entram os chamados mecanismos de financiamento da natureza.
Afinal, a natureza está virando um ativo financeiro?
Não exatamente, pelo menos não no sentido de transformar uma floresta inteira em algo semelhante a uma ação negociada na bolsa.
O que está acontecendo é o desenvolvimento de mecanismos capazes de atribuir valor econômico a determinados resultados ambientais ou direcionar capital para atividades de conservação e restauração.
No mercado de carbono, por exemplo, um crédito normalmente corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente reduzida ou removida da atmosfera.
No Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), a lógica é diferente: quem contribui para manter, recuperar ou melhorar serviços ecossistêmicos pode receber uma remuneração por isso.
No Brasil, essa ideia já está incorporada à legislação. A Lei nº 14.119/2021 criou a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais e reconhece benefícios como sequestro de carbono, purificação do ar, regulação do ciclo da água, redução de enchentes e secas e conservação da biodiversidade. A legislação admite diferentes modalidades de PSA, incluindo pagamentos diretos e títulos verdes.
Em junho de 2026, um decreto federal regulamentou a política e o Programa Federal de Pagamento por Serviços Ambientais.
A lógica é simples de entender: se conservar uma floresta gera benefícios para toda a sociedade, por que todo o custo dessa conservação deveria recair apenas sobre quem possui ou cuida daquele território?
Depois do carbono, chegam os créditos de biodiversidade
É aqui que o debate fica ainda mais complexo. Nos últimos anos começaram a surgir os chamados créditos de biodiversidade. De forma simplificada, eles procuram representar resultados positivos mensuráveis para a biodiversidade decorrentes de ações de conservação ou restauração.
A ideia parece semelhante à dos créditos de carbono, mas existe uma diferença fundamental.
Carbono é relativamente fungível. Biodiversidade não.
Uma tonelada de CO₂ possui a mesma unidade física independentemente do lugar em que a emissão ocorre. Uma espécie, um manguezal, uma floresta tropical ou um recife de coral, por outro lado, têm características ecológicas profundamente ligadas ao território.
Não existe uma unidade universal capaz de resumir toda a biodiversidade.
A própria The Nature Conservancy chama atenção para essa diferença e não apoia um sistema de comércio global de créditos de biodiversidade nos moldes do carbono justamente porque os valores da biodiversidade são locais e não intercambiáveis.
É um mercado promissor, mas ainda minúsculo
Apesar do enorme interesse em torno do tema, é importante não confundir expectativa com realidade. O mercado voluntário de créditos de biodiversidade ainda está em estágio inicial.
Relatório da OCDE publicado em 2026 aponta que as vendas acumuladas desses créditos chegaram a cerca de US$ 6 milhões até abril deste ano.
É pouco diante do tamanho das finanças globais, e também diante da lacuna anual superior a US$ 1 trilhão para financiar a biodiversidade.
Ou seja: a natureza já entrou no vocabulário dos investidores, mas os créditos de biodiversidade ainda estão muito longe de constituir um grande mercado financeiro.
E como se coloca preço em uma espécie?
Essa talvez seja a pergunta mais difícil.
Um novo estudo científico publicado em 2 de outubro de 2026 na revista Nature aponta que mercados voluntários de biodiversidade precisam resolver questões como mensuração e monitoramento, adicionalidade, permanência dos resultados, risco de deslocamento dos impactos e salvaguardas sociais.
Outro estudo, publicado no dia seguinte, analisou 12 esquemas voluntários de créditos de biodiversidade e encontrou dois elementos particularmente importantes para sua credibilidade: boas linhas de base ecológicas e governança compartilhada.
Imagine, por exemplo, uma propriedade que recebe recursos porque determinada área abriga espécies importantes.
Como provar que a biodiversidade realmente aumentou?
Por quanto tempo esse resultado precisa ser mantido?
O que acontece se a conservação de uma área simplesmente deslocar o desmatamento para outra?
Quem determina quanto vale aquele resultado?
E quem recebe o dinheiro quando o projeto está localizado em um território ocupado por comunidades tradicionais?
São perguntas muito mais difíceis de responder do que simplesmente contar árvores.
O risco de transformar destruição em licença para preservar em outro lugar
Existe ainda uma preocupação central: esses instrumentos podem ser usados para financiar conservação ou acabar funcionando como justificativa para continuar causando impactos ambientais.
Essa diferença é fundamental.
Uma empresa pode investir voluntariamente na recuperação de biodiversidade como parte de uma estratégia de impacto positivo. Outra situação seria tentar usar a compra de créditos para sugerir que um dano ecológico específico foi integralmente “compensado”.
Esse raciocínio é especialmente problemático porque ecossistemas não são necessariamente substituíveis.
Uma floresta antiga destruída hoje não é ecologicamente equivalente a uma área recém-restaurada em outro lugar.
A própria literatura científica sobre finanças da biodiversidade destaca que esses mecanismos precisam lidar com riscos ecológicos, comerciais e sociais e que ainda não está claro até que ponto instrumentos voltados ao retorno financeiro conseguirão ganhar escala mantendo salvaguardas robustas. Recursos públicos e filantrópicos, portanto, continuam sendo fundamentais.
Colocar preço na natureza é necessariamente ruim?
Não. Na realidade, não atribuir nenhum valor econômico à natureza também produz consequências.
Se uma floresta fornece água, reduz erosão, armazena carbono e protege cidades contra extremos climáticos, mas todos esses benefícios aparecem nas decisões econômicas como se valessem zero, atividades que geram receita imediata com sua destruição podem parecer artificialmente mais vantajosas.
É por isso que mecanismos como o PSA procuram inverter parte dessa lógica.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), por exemplo, utiliza pagamentos por serviços ambientais no Programa Produtor de Água para remunerar produtores rurais envolvidos em práticas de conservação de água e solo.
Nesse caso, colocar valor econômico em um serviço ambiental não significa vender a água ou a floresta. Significa reconhecer financeiramente quem ajuda a conservar um benefício que chega a outras pessoas.
Mas preço e valor não são a mesma coisa
Talvez esse seja o ponto mais importante dessa discussão. Um ecossistema pode ter valor econômico sem que seu valor possa ser completamente traduzido em reais ou dólares.
Quanto vale evitar que uma espécie seja extinta?
Quanto vale uma nascente para uma comunidade que depende dela?
Quanto vale uma floresta para um povo cuja cultura e identidade estão ligadas àquele território?
E quanto vale um ecossistema que reduz um risco climático que talvez só se materialize daqui a décadas?
Nenhum mercado consegue responder sozinho a essas perguntas.
Instrumentos financeiros podem ajudar a canalizar recursos para conservação e restauração. Mas o preço atribuído a um serviço ambiental não representa necessariamente o valor total daquele ecossistema para a sociedade, muito menos seu valor ecológico, cultural ou intrínseco.
A grande questão talvez não seja se devemos colocar preço na natureza
O avanço das finanças para a natureza coloca o mundo diante de uma aparente contradição. Para proteger ecossistemas da lógica econômica que ajudou a degradá-los, estamos tentando fazer com que essa mesma economia reconheça quanto eles valem.
Isso pode criar novas fontes de recursos para proprietários rurais, povos indígenas, comunidades tradicionais, projetos de restauração e áreas protegidas.
Também pode gerar novos mercados sujeitos a especulação, greenwashing, concentração de benefícios ou simplificação excessiva de ecossistemas extremamente complexos.
O resultado dependerá menos do nome dado ao instrumento (crédito, fundo, PSA ou investimento) e mais de quem define as regras, como os resultados são medidos, quem recebe os benefícios e quais limites são impostos ao mercado.
Talvez, portanto, a pergunta não seja simplesmente “quanto vale a natureza?”.
A pergunta mais importante pode ser outra:
como fazer a economia reconhecer o valor da natureza sem reduzir a natureza apenas ao seu preço?
Link do artigo citado: https://www.nature.com/articles/s44185-026-00161-6
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Fernanda de Carvalho é Engenheira Florestal formada pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e Mestre em Ambiente, Sociedade e Desenvolvimento pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Também estudou na Technische Universität München, Alemanha, onde cursou disciplinas do Mestrado em Manejo de Recursos Sustentáveis com ênfase em Silvicultura e Manejo de Vida Selvagem. Dedicou parte da sua carreira a projetos de Educação Ambiental e pesquisas relacionadas à Celulose e Papel. Trabalhou com Restauração Florestal e Formação Ambiental na Suzano S/A e como Consultora de Comunicação da Ocyan S/A. É conhecida no setor florestal pelos artigos publicados nos blogs Mata Nativa e Manda lá Ciência.