Restauração de terras ganha espaço como estratégia econômica e climática no Brasil

Brasil apresentou meta para recuperar mais de 163 mil km² de áreas degradadas até 2030, enquanto iniciativa de restauração do Cerrado foi reconhecida pela ONU; movimento reforça o potencial econômico da recuperação de ecossistemas

A restauração de terras está deixando de ser tratada apenas como uma agenda ambiental e ganhando espaço como estratégia econômica, climática e de desenvolvimento no Brasil. Durante a COP17 da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia, o país apresentou sua primeira Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra para 2030.

O compromisso prevê evitar a degradação e restaurar mais de 3,6 milhões de km² de terras até 2030, o equivalente a 43,1% do território brasileiro. Desse total, mais de 163 mil km² correspondem a áreas que deverão passar por recuperação ativa. A estratégia reúne 17 submetas relacionadas à recuperação da vegetação nativa, sistemas agroflorestais, conservação de solos, unidades de conservação, territórios indígenas, áreas de preservação permanente e bacias hidrográficas.

A meta coloca a restauração de ecossistemas no centro de uma agenda que envolve não apenas conservação ambiental, mas também segurança hídrica, produção de alimentos, resiliência climática e geração de oportunidades econômicas.

Restauração pode movimentar uma nova economia

A recuperação de áreas degradadas envolve uma cadeia de atividades que vai muito além do plantio de árvores. Ela inclui produção e coleta de sementes nativas, viveiros, assistência técnica, restauração ecológica, sistemas agroflorestais, monitoramento ambiental, planejamento territorial e desenvolvimento de tecnologias.

Um exemplo dessa cadeia está no próprio Cerrado.

A iniciativa Araticum – Restauração do Cerrado Brasileiro, reconhecida pela ONU como uma Iniciativa de Referência da Restauração Mundial, reúne mais de 180 organizações, entre povos indígenas, comunidades quilombolas, agricultores, pesquisadores, empresas, organizações da sociedade civil e instituições governamentais.

A rede já mapeou mais de 27 mil hectares em processo de restauração e tem como meta chegar a 2 milhões de hectares restaurados até 2030. O trabalho envolve regeneração natural, semeadura direta, restauração ecológica e sistemas agroflorestais com espécies nativas.

A iniciativa também demonstra como a restauração pode gerar atividade econômica local. Mais de 150 espécies de plantas nativas já tiveram sementes coletadas e utilizadas nas ações, fortalecendo uma cadeia que envolve coletores de sementes, viveiros, técnicos, profissionais de restauração e serviços de monitoramento.

Biodiversidade, carbono e agricultura entram na mesma equação

A expansão da restauração também aproxima diferentes agendas do desenvolvimento sustentável.

Ao recuperar áreas degradadas, projetos podem contribuir para a conservação da biodiversidade, proteção de recursos hídricos, recuperação da qualidade do solo e aumento da resiliência diante das mudanças climáticas.

Dependendo do projeto e das regras aplicáveis, a restauração também pode estar relacionada a mecanismos econômicos como pagamento por serviços ambientais, mercados de carbono e investimentos em soluções baseadas na natureza.

No caso da Araticum, por exemplo, a estratégia combina restauração ecológica com agricultura sustentável, sistemas agroflorestais, pagamento por serviços ambientais, planejamento territorial e articulação com políticas públicas.

Isso significa que a restauração pode deixar de ser vista apenas como um custo ambiental e passar a ser considerada também um investimento em ativos naturais e na resiliência econômica dos territórios.

O Cerrado mostra o tamanho do desafio

O reconhecimento da Araticum pela ONU ocorre em um contexto de forte pressão sobre o Cerrado. O bioma possui mais de 2 milhões de km² e já perdeu mais da metade de sua vegetação nativa, principalmente em razão da conversão de terras.

A degradação afeta diretamente a biodiversidade, a disponibilidade de água, a produção de alimentos e a capacidade dos territórios de enfrentar os impactos das mudanças climáticas.

Por isso, restaurar o Cerrado representa uma oportunidade de integrar conservação ambiental e desenvolvimento econômico, especialmente por meio de sistemas produtivos sustentáveis e do fortalecimento das cadeias locais ligadas à restauração.

Brasil busca ampliar restauração de vegetação nativa

A meta apresentada na COP17 também se conecta a compromissos mais amplos de recuperação da vegetação nativa brasileira.

A própria iniciativa Araticum pretende contribuir para o compromisso nacional de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030.

O desafio, portanto, não está apenas em estabelecer metas, mas em transformar compromissos ambientais em projetos capazes de mobilizar investimento, tecnologia, mão de obra, produtores rurais, comunidades locais e empresas.

É nesse ponto que a restauração ganha uma dimensão estratégica para a economia.

Uma oportunidade para a economia verde

A restauração de ecossistemas pode se tornar um dos componentes da chamada economia verde, criando oportunidades para empresas e profissionais especializados em áreas como engenharia ambiental, engenharia florestal, agronomia, geotecnologias, monitoramento, carbono, biodiversidade e finanças sustentáveis.

O reconhecimento internacional da Araticum reforça essa tendência. Segundo a ONU, as 30 iniciativas reconhecidas como Referências da Restauração Mundial desde 2022 já somam quase 20 milhões de hectares em restauração e compromissos para recuperar aproximadamente 75 milhões de hectares até 2030. Essas iniciativas também estão associadas à geração de mais de 800 mil empregos.

Para o Brasil, a combinação entre a nova meta de neutralidade da degradação da terra e o avanço de iniciativas de restauração em larga escala indica que restaurar ecossistemas pode ser cada vez mais parte da estratégia de desenvolvimento do país.

Mais do que recuperar áreas degradadas, a restauração pode ajudar a construir novas cadeias produtivas, proteger recursos naturais essenciais para a economia e aumentar a resiliência diante das mudanças climáticas.

A próxima etapa será transformar metas em projetos, financiamento e resultados mensuráveis no território brasileiro.

A íntegra da Meta Voluntária de Neutralidade da Degradação da Terra (LDN) 2030 do Brasil, com as 17 submetas e suas respectivas memórias de cálculo, está disponível AQUI: https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias-defeso-eleitoral/ldn_pt_aprovada_compressed.pdf

Foto: Rede de Sementes do Cerrado